As Minas de Prata/III/XVIII

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As Minas de Prata por José de Alencar
O caos eterno do coração da mulher


Recostada às almofadas de cetim, em lânguida e melancólica atitude, a formosa Raquel, no encerro de seu mimoso camarim, lia àquela hora, oito da manhã, o livro sagrado de sua religião.

O custoso volume, embutido de ouro e pedrarias, estava aberto nos cânticos místicos, à página onde se encontram estes versetes suaves:


“Meu querido é para mim como um feixe de mirra; ele dormirá em meu seio.
“Meu querido é para mim como um cacho das uvas de Chipre, colhidas nos jardins de Engaddi.
“Tu és belo, meu querido, tu és cheio de graça; nosso leito está semeado de flores.”


Alguma vez a linda judia deixava a mão frouxa e fatigada com o peso do livro pender sobre o colo; seus olhos, fugindo pelas lisonjas da janela, iam-se ao azul etéreo em busca de uma querida imagem ausente. Ela recordava Estácio; os dias rápidos que passara junto dele, em doce contato; as palavras que trocado haviam durante os belos crepúsculos da tarde à tolda do bergantim. E nesse curto prazo de algumas semanas resumia uma existência inteira, o passado, o presente e o futuro.

A baunilha, a linda e fragrante parasita de nossas matas, que sobe em zigue-zague pelos troncos, às vezes é mutilada pela foice do lenheiro; da formosa haste apenas resta um fragmento, que adere ainda à árvore. Dotada de uma grande força de vegetação, imediatamente novas raízes despontam, que penetram o córtice do tronco: e a planta não morre, apesar de lhe terem mutilado a haste e o renovo, o coração e a cabeça.

Assim foi Raquel. Tenra baunilha, que elevara-se à juventude florescente, a decepção cruel de um amor indigno lhe mutilou os dias já vividos, o passado; o desengano de outro amor não retribuído arrancou-lhe o futuro.

De toda a existência só ficou aquele fragmento, que a ventura iluminara um instante de seus esplendores; nele pois concentrou-se toda sua vitalidade; criou raízes nessas doces reminiscências; vegetou e floriu nelas como a baunilha no tronco amigo.

A porta do camarim entreabriu-se, e pela estreita fenda passou o raio vivo de um olhar cintilante, que percorreu o aposento. Então a porta foi a pouco e pouco silenciosamente afastando-se até dar passagem a uma original e sinistra figura de nosso conhecimento, a bruxa. Com a mesma sutileza, que empregara para entrar no aposento, resvalou pelo tapete e aproximou-se da linda judia, que tinha os olhos baixos e fitos no livro.

Raquel percebeu-a, sentindo o sopro da ardente respiração, que refrangido pelas folhas da Bíblia, crestou-lhe as faces mimosas. Erguendo de repente as vistas, deu com os olhos negros e ardentes da cigana cravados em sua fisionomia, como os dardos de duas lanças.

— Ah! és tu, Zana! exclamou a judia.

— Sou eu, sim, Zana, a bruxa!... respondeu a mulher dando à sua voz um tom surdo.

— Quais novas me trazes?

— Deitei as sortes, e elas vos são propícias!

— Como assim, Zana!... Acaso permitirá Deus que Estácio me queira?... Donde o soubeste?

— Do destino!... respondeu a bruxa com ênfase.

Raquel caiu em si do seu primeiro assomo de esperança.

— Está bem, Zana!... Deixemos as tuas sortes por ora; dize quanto soubeste do que te mandei indagar!

— Criatura!... Que desatino é esse?... Credes mais nos dizeres da gente à toa do que nas falas da feiticeira, que adivinha o futuro e o passado, e lê no livro do destino, como na mente dos homens?...

Raquel fez um gesto de impaciência ao tom enfático e ao gesto dramático da feiticeira:

— Ouve, rapariga. Comigo são perdidos teus disfarces e representações; guarda para quem te não conheça como eu. Podes ser feiticeira para todo o mundo, que te julga velha; para mim serás sempre Zana, a moça que foi de nossa casa.

Ergueu a moça os ombros descontente, e trocou o seu papel de bruxa pelo de simples mensageira:

— Seja como quereis, pois para isso me pagais. Por onde começarei eu?

— Por ele, disse Raquel enrubescendo.

— É partido há mais de duas semanas para o sertão!

— Para o sertão, dizes?

— Sim, para o sertão, talvez que à caça do gentio para o cativar!

Raquel abanou a cabeça; e uma voz melancólica murmurou dentro de sua alma:

— Em busca de riquezas que deponha aos pés de Inês. É pobre, e ela rica de haveres!

— Agora dela? perguntou a rapariga.

— De D. Inês, sim! Conseguiste o que te recomendei?

— Ora! já me apalavrei com a gente da casa; no dia em que vos aprouver levar-me-ão à recâmera dela!

— E te receberá?

— Não tenhais susto. O mais importante porém ainda não sabeis.

— O que é?

— O casamento com o tal Fernando gorou com certeza!

— Ah!...

— Mas no mesmo dia parece que o pai ajustou outro!...

— Acaba!... Com quem?...

— Estais já aflita, pensando que seja com o outro!... Qual! Esse que perca as esperanças; por lá nada arranja! O noivo é um tal de Velasco, gente grande, comendador, e não sei que mais! Bonito cavalheiro e bem apessoado!... Eu o vi essoutro dia sair de lá. Mas como vos disse, parece que o ajuste vem de detrás, pois já ontem se conversou na hora do jantar de marcar o dia!...

Um assomo de júbilo, que a donzela se esforçava por conter nos seios d'alma, rompeu afinal e transbordou em risos pela fronte límpida e as faces brilhantes. O seio de suave contorno arfou com a inspiração de uma grata esperança. Mas Raquel, do grêmio de sua efêmera e sonhada ventura, percebeu o modo zombeteiro com que a mirava a cigana, e toda a expressão prazenteira de sua fisionomia, colhida de repente como a auréola de uma cruz que se extingue, recolheu dentro d'alma.

A judia tornou à melancolia, confusa e contrariada por aquela súbita e irresistível manifestação:

— E D. Inês?... Como recebeu ela estes sucessos?... Desagrada-lhe menos o segundo noivo do que o primeiro?...

— A ela bem sabeis, todos lhe desagradam, desde que não for o desejado! Mas desse está ela bem livre, vos seguro eu!...

— Vive ela triste?... Mais que eu? perguntou a donzela.

— Não sei se mais; porém triste e pesarosa, dizem todos, e só não vê quem não quer.

“Mais! Deve de ser mais!... murmurou consigo Raquel. Por isso mesmo que é amada e pressente já o suplício de ser entregue a outrem que não o escolhido de seu coração. Terrível provança há de ser essa para quem não tiver a coragem de libertar-se da vida assim profanada... Mísera Inês!... Muito o amo eu, pois torno-me boa para vós que mo roubastes!...”

Raquel deixou-se arrastar pelo tropel de pensamentos que afluíram. Depois de algum tempo ergueu a fronte calma e resoluta:

— Disseste, Zana, que te levarão à câmera de D. Inês no dia em que eu deseje!

— Se bem o disse, melhor o farei.

— Pois o dia será o de hoje, e sem mais tardar que esta manhã; agora mesmo?

— Lá me vou! A fazer o que, dizei!

— Não irás, não, Zana!

— Ninguém vos entende.

— Irei eu em vossa pessoa e com vosso traje e parecença!

— Estais bem em vosso juízo são, menina?

— Não me recusarás isso, Zana; aqui tens nesta bolsa quanto ouro possuo; toma-o todo para ti; dar-te-ei mais depois. É preciso que eu fale a Inês e hoje mesmo. Ninguém me reconhecerá; tomar-me-ão por ti.

— Não vos falta o ânimo de vos trajardes assim, de velha bruxa?... E então correr as ruas sozinha!...

— Tu me acompanharás até lá! e quanto ao traje, pouco me importa; não vou disputar com ela em beleza!...

— Que ides fazer vós? É preciso que eu saiba!

— Vou para vê-la e... Meu coração me há de inspirar no momento.

Depois de alguma, mas já débil resistência, a cigana deixou-se vencer um pouco pelos rogos de Raquel e muito pelo ouro da bolsa.

Procederam logo à permuta dos trajes e ao disfarce da bruxa. A velha cheia de rugas, que entrara no camarim, desapareceu como por encanto, deixando em seu lugar uma rapariga cigana, de olhos negros e vivos, tez morena e embaciada, que teria cerca de trinta anos.

Essa rapariga fora moça caseira do velho Samuel, em companhia de quem esteve desde muito criança e sempre bem procedida e recatada. Um dia porém, havia dez anos, o Anselmo, ou o demo na figura dele, como diziam as velhas, lhe transtornou o juízo. Com ele fugiu da casa do amo, e por algum tempo não souberam partes dela. Mas entre a gente baixa muito se falou então de uma moçoila que escandalizava as locandas e tabernas com sua desenvoltura e desregramentos. Contavam-se coisas de arripiar carne e cabelo.

Parece que o remorso ou a vergonha do estado a que chegara a emendou; pois de repente não se falou mais da rapariga. Buscou voltar à casa do amo, que a enjeitou. Balda então de recursos, e muito desprezada em sua verdadeira pessoa, adotou aquela profissão de bruxa, donde tirava algum meio de vida; era uma mendicagem disfarçada. Todos em geral a tomavam por velha e feiticeira; mas Raquel, de quem ela sempre se valeu, sabia do segredo.

Reduzida à sua verdadeira personalidade, e vestida com roupas de Raquel, a cigana ocupou-se com diligência e arte do disfarce da judia, que breve ficou perfeito. A gentil e formosa virgem desaparecera sob a máscara hedionda e sinistra da velha bruxa; ela mesma, ao ver-se no espelho, horrorizou-se de sua metamorfose.

— Agora dai-me vosso baú, a ver se me ajeito bem com ele!

Zana entregou a Raquel o móvel pedido, depois de ter imitado a posição em que de costume o trazia. Deu a judia com ele alguns passos no aposento, esforçando por deprimir a nativa elegância e donaire de suas formas que apesar do traje velho e maltrapilho transparecia, como a lindeza da borralheira ao través da cinza.

O baú estava dentro cheio de mil objetos diversos; perfumes de todas as qualidades, drogas várias com rótulos de nomes estranhos; figurinhas mágicas de marfim e ébano, vidrinhos com elixires e filtros; todo um arsenal enfim de bruxarias. A respeito da propriedade de cada um destes objetos e seus nomes, recebeu a improvisada feiticeira uma lição minuciosa. Calou porém a cigana um que estava quase oculto nos repartimentos inferiores: era uma espécie de redoma, a última de uma série de seis, todas iguais. Estas continham narcóticos diversos, de vária força soporífera.

— E esta? perguntou Raquel.

— Esta!... murmurou a cigana com certo tremor na voz, também faz dormir; mas para sempre!...

Raquel rejeitou-a com horror.

— Pois também vendes isso, Zana! disse ela com exprobração.

— Não é para vender esse, dona!

— Para que o destinas então?

— Para nada!... Talvez sirva para encurtar uma existência desgraçada! Dai-ma!

— Não; deixa-a onde está! respondeu Raquel com vivacidade.

Que pensamento lhe trespassou o espírito como um relâmpago?...

Marcava o quadrante da Sé onze horas. O sol era ardente, como costuma no mês de março: raro passante transitava àquela hora pelo caminho de Nazaré. Duas mulheres, bem rebuçadas, uma em sua capa, outra num manto vermelho esburacado, chegaram perto do solar de D. Francisco de Aguilar. Parando a distância, trocaram algumas palavras, depois do que a mais moça escondeu-se no mato, e a velha bruxa avançou para a porta do solar.

Recebida pelos remoques dos pajens, Raquel sentiu vacilar sua coragem. Foi necessária a lembrança de Estácio, e o poder que o mancebo tinha em sua alma, para reanimá-la. Por felicidade, o rumor que faziam os rapazes atraiu as escravas, das quais a bruxa tinha decidida proteção. A judia reconheceu facilmente a mulata indicada por Zana; e no primeiro ensejo atirou-lhe ao ouvido estas palavras:

— É agora ocasião de falar à doninha!

— Esperai então.

Momentos depois era a feiticeira introduzida na recâmera, onde passava a donzela toda a manhã, entretida com seus lavores e prendas. Raquel, entrando, devorou com os olhos a suave lindeza da nobre donzela; e depois de alguns instantes de muda contemplação, suspirou dentro de sua alma:

“Estácio devia amá-la! Como é formosa, Deus de Israel!...”

— Achegai-vos, boa mulher! Qual nome trazeis!...

— Chamam-me a bruxa. Se tive outro, faz disso já tanto tempo, tanto, que nem mais me recordo.

— Que idade então é a vossa?

— Perdi a conta dos anos, em tal número são eles. Quando vossa mãe nasceu, já estes cabelos estavam o algodão que vedes! Grande tem sido a minha peregrinação na terra, e pesado o fardo desta existência!...

Proferidas estas palavras com inflexão grave e surda entonação, a feiticeira fincou a fronte no punho e ficou nessa atitude melancólica. Inesita a observava, partida entre a incredulidade que em sorriso lhe frisava os lábios, e um certo pavor que lhe penetrava mau grado seu a alma impressionada pela tristeza e miséria da vil criatura.

— É certo que sois adivinha?

— Experimentai e sabereis!

— Em que pensava eu quando chegastes?

A feiticeira volveu rápido olhar em torno, a ver se a escutavam as escravas, e respondeu abaixando a voz:

— Pensáveis naquele que está longe, e ausente no sertão, onde se foi em busca de riquezas para vos merecer!

Enrubesceu Inesita, e vexou-se, mas não teve ânimo de ordenar silêncio à feiticeira; esta continuou:

— Viste-o pela última vez, fazem hoje quarenta dias, nesta mesma casa! Quereis que pronuncie o seu nome?

— Não!... Não há mister!...

— Já vedes que adivinha sou, pois vejo em vossa alma como no espelho daquele trumó.

— Estais bem longe disso, mulher; o que dissestes não passa de meras suposições vossas. Mas se sois adivinha, deveis também predizer futuros!

— Por certo! Estes olhos têm o poder de ver através dos tempos, no passado como no futuro.

— Então dizei qual será minha sina? Dizei-o abertamente sem receio de assustar-me!

— Di-lo-ei, tal como a estou vendo no livro aberto do destino. Mas para que não duvideis de minhas palavras, começarei por contar-vos o passado; e então conhecereis que nada me é oculto na terra.

— Consinto; mas falai baixo que vos não ouçam! murmurou a menina designando com os olhos as escravas.

— Arredai-vos, filhas, e cerrai os ouvidos, para que os espíritos que me assistem vos não castiguem, disse a feiticeira para as negras.

Aproximando mais da donzela, repetiu Raquel quanto lhe confessara Estácio em suas longas práticas nas solidões dos mares, durante as largas e silenciosas noites da travessia perigosa. O arroubo daquelas recordações do mancebo, travado do ciúme aceso em sua alma, davam à palavra e ao gesto da judia um fogo que, ao través da feia máscara, cintilava como os fulgores satânicos de maligno espírito.

Inesita palpitava sob as vibrações daquela palavra rápida e animada que desdobrava a seus olhos com vivos traços e cores ardentes a história de seu puro amor, história dela desconhecida, pois nunca tinha ouvido de Estácio a revelação do que sentia. Agora, escutando a narração da feiticeira, parecia-lhe que essas palavras ardentes e apaixonadas, embora passadas por voz estranha, vinham do mancebo, e ela as aceitava como dele.

Afinal quando Raquel emudeceu, e o encanto se desfez, a donzela, caindo em si, exclamou ainda trêmula de emoção:

— Foi dele que soubestes toda esta história, confessai. Outra pessoa não poderia conhecê-la!...

— Foi dele, sim; porque o seu coração como o vosso me estão abertos.

Raquel fitou os olhos na donzela:

— Ele vos quer estremecidamente!... Um amor imenso, que faria a riqueza de muitas mulheres, ele o tem por vós unicamente!... E contudo, mísera senhora, vós sois mais desgraçada do que outras que amam sem esperanças no segredo de sua alma!...

— Por que motivo?... disse Inesita estremecendo.

— Por quê?... Essa que ama sem esperança é livre, e pois tem na sua desventura o supremo consolo de pertencer-lhe eternamente. Vós, amada, sereis unida a outrem, e haveis de sofrer o maior suplício que é possível infligir à mulher!... Quem sabe mesmo se o afeto dele não se tornará em desprezo!...

— Não vos compreendo! disse Inesita calma e tranquila.

— Pois não estais prometida a D. Lopo de Velasco?

— Estou.

— E as bodas não terão lugar?

— Quem sabe quando?

— Um dia... Nesse pois vos conduzirão ao altar?

— Em meu pai o ordenando.

— E sereis esposa de outrem!...

— Não o serei jamais senão daquele que amo e venero como já desposado por esta minh'alma! disse Inesita com serena firmeza.

— Sou eu agora que vos não entendo!

— Obedecerei a meu pai como devo; mas esperarei no meu coração até o último instante. Aos pés do altar, enquanto não chegue o momento fatal de proferir a palavra santa, conservarei a fé no meu amor e na graça de Deus. Se então o Senhor abandonar-me na terra, eu irei a ele no céu para lá reunir-me àquele de quem somente sou!

— Morrereis?... perguntou Raquel com ansiedade.

A voz de Inesita respondeu como um eco sereno e mavioso, que repercute na sonora espessura da floresta.

— Morrerei!

— Ali mesmo no altar?...

— E onde seria?

— Mas como?

A donzela olhou-a admirada.

— Qual gênero de morte escolhestes, que vos não obstem o intento aqueles que mais perto vos cercarem?

— Não me entendestes, creio. Quando a esperança desse amor abandonar-me de todo, ela levará após si meus espíritos, que só vivem dele e por ele. Cairei pois ali morta, nesse mesmo instante!

— Mísera senhora!... Cuidais que basta uma vontade firme de morrer para extinguir a vida em nós?... Como vos enganais!... Esta que aqui vedes já teve outrora um tempo de angústia cruel, em que a existência se lhe tornou execrável. Pensou como ora pensais. Recolheu seus espíritos e arremessou-se à eternidade com toda a força de seu querer. A morte a repudiou; enfim cobrou os sentidos, e achou-se viva. Conheceu que para partir-se deste mundo, é necessário extirpar a alma do corpo. Armou a mão de um punhal e sua mão tremeu, porque era fraca; tentou espedaçar-se caindo de uma altura sobre as pedras, e sua carne arrepiou-se com o pressentimento das dores cruas que ia padecer!...

— Na vossa ideia então eu não morrerei em querendo? exclamou Inesita trêmula.

— Caireis desmaiada sobre a laje; eles aproveitar-se-ão do vosso desmaio para abreviar a cerimônia, e quando tornardes em vós, sereis esposa de outrem!

Inesita sentiu gélido horror percorrer-lhe o corpo:

— Mas então que é preciso para morrer? exclamou ela com ansiedade.

Raquel estava em luta cruel que há instantes começara; apertava a cabeça entre as mãos para comprimir as violentas pulsações das têmporas, e ficou assim algum tempo com o queixo enterrado no peito e os olhos cravados no chão. Afinal ergueu súbito a fronte; estranho fulgor desferia sua alma, que rutilou na centelha dos olhos e no sorriso dos lábios.

— O que é preciso para morrer, dizeis vós?...

— Sim! deveis saber; ensinai-me!

— Basta este pó que vedes aqui!

A feiticeira abrira o baú e tirara uma redoma.

— Que é isso?

— Sorve-se o que tem dentro. Vem o sono e dorme-se para acordar com Deus na eternidade!...

— Veneno!...

— Assim o chamam os droguistas; os desgraçados acham nele o maná da felicidade que Jeová chove nos desertos desta vida!

Inesita colou os lábios ao ouvido da feiticeira:

— Quereis vender-me este pó, mulher? Eu vos pagarei com esta joia!...

— Guardai vosso rico bracelete de pedrarias, que tão gentilmente orna vosso braço formoso. Se fazeis apreço deste vidro, eu vo-lo darei, mas com uma condição!

— Qual?... Falai!...

— Que me deixeis beijar-vos na face!...

Inês fez um gesto repulsivo.

— Horroriza-vos a minha fealdade; também fui moça formosa, não tanto como vós!... disse a feiticeira com uma voz dolente.

Apresentou-lhe Inês as faces e deixou-se abraçar pela velha, que lhe escondeu no seio o frasquinho.

Raquel tratou de retirar-se:

— Não irei sem vos ler a buena-dicha.

— Lede!... disse Inês com um triste sorriso.

— O túmulo vos reunirá àquele a quem amais!...

— Bem sei que já não há esperança para mim; mas espero, porque lhe prometi!...

— Esperai, sim, até o último instante; pois tendes agora em vossa mão a morte, que separa os que estão unidos, e une os separados.

Raquel parou um instante em face da menina.

— D. Inês, nobre donzela, desposada de Estácio Correia, adeus. Esta infeliz vos saúda até o dia da vossa ventura.

E desapareceu deixando a donzela perplexa entre a esperança e o desengano, a dúvida e o terror.

Raquel encontrou no portão Cristóvão de Ávila, que entrava.

Desde a partida de Estácio, que o mancebo fiel à promessa feita ao amigo, tratou de velar sobre o futuro daquele nobre e profundo amor. A primeira e natural ideia, que lhe ocorreu, foi de estreitar mais as relações em que estava com D. Francisco para assim andar mais ao fato de que passava, e mesmo reanimar a donzela, pois frágil de seu sexo e tímida de sua natureza, ela sucumbiria na luta, sentindo-se longe de Estácio e sem o apoio de um coração amigo.

Era fácil a Cristóvão, pertencente à melhor fidalguia e muito reputado pela sua pessoa como pela sua linhagem, achar bom agasalho na casa de D. Francisco de Aguilar; contudo para que suas contínuas visitas não dessem causa a reparo, usou do pretexto de uma cessão de terras fronteiras com o seu engenho e pertencentes ao castelhano.

Naquela hora ia ele pois aparentemente para discutir com o fidalgo as condições do contrato, e realmente para trocar com Inesita algumas palavras.

A donzela apenas soube da chegada do cavalheiro, dirigiu-se à varanda onde habitualmente assistia sua mãe, e ficou como fulminada ao ouvir o que D. Ismênia dizia naquele instante:

— Como a um amigo de casa, me apresso em comunicar-vos a nova importante, Sr. Garcia de Ávila.

— Qual nova, dona e senhora?

— Das bodas próximas de nossa filha D. Inês com D. Lopo de Velasco!...

— Ah! e para quando estão marcadas?

— Para daqui a duas semanas, no domingo da Pascoela. Aproximai-vos, Inês; vinde saudar o cavalheiro!

Cristóvão por cortesia ergueu-se pronto para ir ao encontro da donzela, aproveitando o ensejo para encobrir sua perturbação. Quando ele se inclinava em face da moça, essa murmurou com um olhar de exprobração:

— Era para isso que me mandastes ter esperança, Sr. D. Cristóvão?...

— A nova surpreendeu-me como a vós, mas não está ainda tudo perdido.

— Que resta?

— Em nome de Estácio, senhora, vos digo e mando que espereis até o último instante, até que eu ou ele próprio remeta à sorte a missão de salvar-vos!

— Eu lhe prometi! Esperarei, mas sem confiança!...

— Talvez não mais tarde que amanhã ela renasça em vosso coração.

Cristóvão abreviou sua visita e partiu logo sem esperar por D. Francisco.

— É chegado o momento! disse ele.

De volta à casa, fez selar o seu melhor cavalo, e saltando ligeiro na sela, partiu a galope na direção do Brejo, cujo caminho atravessou com a rapidez de uma seta. Uma hora decorrida, apeava na porta da quinta de D. Lopo de Velasco.

O comendador o recebeu com a cordialidade usada entre fidalgos.

— A que feliz acaso devo eu a fortuna de vossa visita?

— Acertastes, comendador; feliz acaso! Soube neste instante que correis iminente perigo, e apressei-me a dar-vos aviso.

— Já vos rendo graças pela fineza, mesmo antes de saber a casta do perigo.

— Contaram-me, pouco há, na cidade, que iam correr os banhos de vosso consórcio com D. Inês de Aguilar, com quem estais justo e contratado para daqui a duas semanas.

— É exato, cavalheiro! Mas que tem isso com...

— É este justamente o perigo!

— Ah! é este!... exclamou Lopo surpreso.

— Se quereis meu conselho, retardai esse consórcio dois meses, dois anos... E melhor seria renunciar a ele!

— Por que motivo, não me direis, Sr. Cristóvão de Ávila?...

— Um homem há que se opõe a ele...

— Deveras!... Com que autoridade?...

— Reserva ele a razão de seu proceder para Deus e sua consciência.

— Entendo! Ressalva a reputação da nobre donzela!... E esse homem naturalmente é o Sr. Cristóvão de Garcia de Ávila?

— Ele próprio, e decidido, pesa-me de o dizer, a não deixar-vos entrar a porta da igreja, senão passando pelo fio de sua espada!...

O comendador cortejou:

— Já que assim vos apraz, abrirei caminho à minha ventura através do peito leal de um tão valente cavalheiro; mas crede-me, a dita que me espera ao lado de tão prendada esposa, não apagará a dolorosa lembrança do sacrifício que me ela vai custar.

— Na cortesia sois invencível, comendador; espero que não o sereis tanto em outra justa! Quando desejais que averiguemos isso?

— Estou às vossas ordens para quando determinardes!

— Penso que o mais depressa será o melhor! A honra de bater-me com tão bravo campeão, compreendeis, que me deve tornar impaciente.

— Tanto mais, quanto é impaciência, que eu partilho!...

— Pelo que respeita ao motivo da contenda, suponho escusado que o saibam.

— Sem dúvida; dois cavalheiros têm o direito de se trespassarem mui honradamente sem necessidade de dar contas ao vulgo.

— Bem ponderado! Contudo sabeis que gente há bisbilhoteira que se ocupa em esmerilhar as coisas, e é tão fina, que as inventa quando as não descobre! Dessa tenho eu muito receio; e para derrotar-lhe a curiosidade, não fora mau cobrir com algum pretexto notório a nossa querela real!... Se porém isso vos desagrada!...

— Ao contrário; ninguém mais deve velar a reputação de D. Inês do que seu futuro esposo; estava sim pensando no pretexto de que falais, e creio que o achei!...

— Melhor!... Poupais-me o trabalho de inventar.

— É hoje quarta-feira. Domingo darei uma grande caçada em minhas terras. Sois meu convidado e a ela assistireis. Na volta censurai a minha pontaria ou tachai o meu melhor veadeiro de podão; e vos prometo que tereis ali mesmo a resposta. Então pé em terra, espada ao ar, e à sorte das armas. Vos serve este meio?...

— Às maravilhas! Contanto que entre o dia de hoje e domingo não celebreis clandestinamente o consórcio.

— Cavalheiro!... Agora me ofendeis e gravemente. Desde que aceito vosso repto por uma causa, escapar a ele, por subterfúgio, seria indigno!...

— Assim o acreditava de vossa parte, mas para minha tranquilidade queria ouvi-lo.

— Estou pronto, se exigis, a desembainhar já neste momento!...

— Comendador, vossa mão! Até domingo!

— Até domingo! Asseguro-vos que teremos uma bela caçada, a qual muito me penalizaria perder, mais do que...

O comendador ia dizer, seu casamento; porém reteve-se a tempo.

— Mais do que dez mil cruzados; porém menos do que a vossa estima!

Cristóvão despediu-se e partiu. No caminho cruzou com um jesuíta que trotava modestamente em mula. Era o P. Figueira, que informado por seus agentes do próximo casamento de D. Lopo de Velasco com Inesita, e obedecendo às recomendações do P. Molina, vinha insinuar-lhe que adiasse a realização para mais tarde, até a volta do visitador.

Sabedor da resistência que fizera o fidalgo a esse consórcio, não esperava o jesuíta achar nele o menor obstáculo, antes favor e facilidade ao adiamento proposto. Qual não foi pois seu espanto ouvindo em resposta estas palavras terminantes:

— Nunca me passou pela ideia casar-me; foram lá vossos superiores que me encasquetaram isso na cabeça. Agora queiram eles ou não, a coisa se há de fazer no dia marcado e por minha conta própria!...

O frade quis replicar:

— Assim o tenho decidido, padre-mestre; é escusado insistirdes. Mudemos de assunto!... Ao jantar heis de provar de um certo prato à brasileira de minha invenção, sobre o qual desejo o vosso voto de entendido.

O Reverendo P. Figueira não teve remédio senão consolar-se da sua derrota diplomática nas delícias gastronômicas da opípara mesa do comendador.