As Muletas de Sixto V

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As Muletas de Sixto V
por Manuel Antônio de Almeida
Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, de 3 de setembro de 1854. Crônica agrupada posteriormente e publicada em Obra dispersa.



Aquela tão sabida história das muletas do Inquisidor de Veneza, é a parábola da hipocrisia, que tem aplicação a todos os atos da vida humana. Todos neste mundo andam de muletas, e todos as atiram ao chão quando trocam o seu barrete em mitra.

Como vai um candidato à casa de um eleitor? De muletas.

Como vai um pretendente à casa de um ministro? De muletas.

Como entra um cortesão nos paços reais? De muletas.

Mas o candidato apenas conta maioria esquece o nome do eleitor, faz nova profissão de fé, ou antes faz profissão de nova fé, porque todas as profissões são iguais apesar de haver tanta fé diferente, ergue a cabeça, põe a mitra, atira fora as muletas: é deputado, é papa!

Um pretendente que alcançou despacho não é mais do que um cardeal que subiu ao papado; fora pois com as muletas da humildade!

Um cortesão quando sabe da presença real deixa as muletas atrás da porta do paço, e caminha de mitra alta, mandando cortar a língua que lhe dirige o mais leve epigrama.

Todos, cada um no seu gênero, são Sixtos V neste mundo; uns sérios, outros caricatos, uns sempre, outros algumas vezes, mas não há ninguém que o não seja.

As mulheres, que fazem exceção a todas as regras, não o fazem desta, e antes muito a confirmam.

Vede aquela moça: tem a modéstia nos olhos, a candura no sorriso, toda ela respira inocência e bom gênio. Cora, porque o rapaz apaixonado que a leva pelo braço na sala do baile disse-lhe baixinho alguma palavra mais ardente, ou porque lhe apertou com mais força a mão na volta da contradança; é tímida como a rola, dócil como um cordeirinho... É um cardeal em candidatura.

Amanhã é noiva; coroam-na de flores de laranja.

Pôs a mitra!

Vão agora ver das portas para dentro o Sixto V do gênero feminino!

Um redator de jornal de partido anda de muletas até a hora em que triunfa o lado cuja causa advogava.

Um deputado de oposição anda de muletas até que caia em suas mãos uma pasta do ministério, que é a sua mitra.

Antes das muletas o caixeiro, até o dia em que o amo lhe dá sociedade.

Um ator em vésperas de benefício anda de muletas por casa dos amigos e conhecidos.

Anda de muletas o cantor antes do début.

O marido hipócrita que tem mulher ciumenta anda por casa de muletas; quando sai à rua deixa-as na porta.

Muitos velhos de moral austera, que não perdoam à mocidade o menor desvio, sempre com a virtude nos lábios, andam de muletas à luz do dia; vão observá-los em outras horas: estão de mitra, são papas.

Os procuradores de viúvas ricas tomam as muletas na escada de suas clientes; entregam-nas ao vigário no dia em que a infeliz não pode mais resistir às saudades do defunto.

Toda a ciência consiste em se não largar as muletas enquanto não se tem bem segura a mitra na cabeça: o esquecimento desta regra é a desgraça de muita gente; largam-nas antes de tempo, e caem então por terra os infelizes, perdendo o equilíbrio.

Quem observa este preceito com todo o rigor tem talento.

Se se procurasse um emblema para o frontispício da história do homem, eu proporia um par de muletas e uma mitra.

A.