As Mulheres de Mantilha/XLVI

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XLVI


A casa de Antônio Pires era na Rua Direita, a principal da cidade; no pavimento térreo, tinha ele o seu armazém comercial, com amplas proporções que se estendiam até em frente ao mar; no sobrado, preparado com o maior luxo, morava ele, como em desmesurada solidão.

Mais rico do que Jerônimo, pois que não tinha mulher nem filhos, expansivo, alegre e obsequiador, Antônio Pires cultivava numerosas e excelentes relações na cidade do Rio de Janeiro, e naquela noite reunira escolhida sociedade com propósito tão evidente de festejar Jerônimo Lírio, que não havia um só convidado que não fosse também negociante ou cavalheiro, que o seu amigo conhecesse, estimasse ou apreciasse.

Antônio Pires estava como adoidado pela alegria que lhe causava presença da família de Jerônimo; a este dissera:

— Tu és velho caloteiro arrependido, que começas hoje a pagar-me o que me deves.

À srª Inês disse, com os olhos úmidos de lágrimas de inexprimível contentamento:

— Comadre, tome o governo da casa; todos aqui e eu na conta, somos seus hóspedes...

E voltando-se para Irene e Inês, exclamou a rir, mostrando Jerônimo:

— Meninas, aquele velho carrancudo e feio não manda nada nesta casa; vocês hoje são minhas filhas, toca a brincar!

E, dirigindo-se a Isidora:

— Devolvo-lhe a dita que estou gozando...

— A mim? perguntou Isidora, admirada...

— Não o sabe, não o pensa; mas é assim; sou o devedor; porém, em vez de pagar-lhe a minha dívida, pedir-lhe-ei novos favores... há de cantar-nos os seus lundus..

E voltando-se ainda para Irene e Inês, gritou-lhes:

— Meninas! Corram por aí, vão correr-me a casa... se forem capazes, adivinhem onde é o meu quarto de dormir, e se o adivinharem, entrem, e acharão dois irmãos muito parecidos, que guardei para vocês...

As meninas, tendo consultado os olhos de sua mãe, levantaram-se, correram para dentro, e em breve tornaram à sala, trazendo cada uma nos braços um pequenino, branco, felpudo e lindo cachorrinho.

Antônio andava às tontas pela sala.

— Tu deitas-me a perder as meninas, disse-lhe Jerônimo, comovido pelo júbilo do amigo.

— Vais ralhar em tua casa, velho enfezado.

— Queres ver e apreciar o que tens feito?...

— Quero; vamos a isso.

Jerônimo chamou as filhas e ordenou que fossem cantar.

Irene cantou, tremendo, e talvez por isso com maior efeito, uma modinha de música suave e melancólica.

Inês cantou dois lundus com arrebatadora graça. Uma e outra mereceram gerais e sinceros aplausos.

— Se foi assim que eu deitei-as a perder, hás de pagar-me o malefício com juros acumulados, disse Antônio a Jerônimo.

Começaram as danças, depois outras senhoras cantaram, renovou-se a dança, os dois lírios cantaram outra vez, instavam com Isidora para também cantar, quando se anunciou próximo o préstito da serração da velha.

Todas as senhoras correram para as janelas.

Por acaso — quem sabe, se por acaso? — Inês achou-se junto de Isidora, e afastada de sua mãe.

— Por que não quer cantar? perguntou Inês a Isidora.

— Porque prefiro ouvi-la.

— Mas pode ouvir-me, e deixar-se ouvir.

— Depois que a vi e a ouço, já não sei cantar: preparo-me somente para chorar.

— Por quê?

— Porque a amo...

— Mas eu também a amo, e muito!...

— Inês... Sinhazinha!...

— Somos duas moças e quase da mesma idade: que amor mais inocente e puro?... É o único, que não pode fazer chorar...

Isidora curvou a cabeça e roçou com os lábios a mão de Inês que estava sobre o parapeito da janela.

Inês estremeceu e corou sem saber por que, recebendo aquele fugitivo beijo.

Isidora como que se arreceou da comoção da inocente menina, e travou conversação com a senhora que lhe ficava do outro lado.

O préstito da serração da velha se aproximava cada vez mais; alguns cavaleiros, porém, tomaram-lhe a dianteira levando os cavalos a trote; todos esses cavaleiros eram militares, e um deles, demorando ainda mais o trote do seu ginete, fitou a menina Inês com olhos tão audaciosos, que, passando além da casa de Antônio, não se lhe deu de que o vissem voltar para trás a cabeça, continuando a olhar a bela filha de Jerônimo Lírio.

Esse cavaleiro era Alexandre Cardoso.

Cinqüenta rapazes trazendo archotes adiante do préstito iluminavam bastante a rua para que todos pudessem ter notado a contemplação inconveniente, com que o ajudande oficial-de-sala parecera adorar o lindo rosto de Inês.

Jerônimo Lírio mal disfarçou a sua cólera.

Só a menina Inês com pasmosa isenção nem sequer deixou perceber que vira o apaixonado cavaleiro.

Na rua murmurava-se entre o povo: — São os dois lírios! — Que formosos que eles são! — Não será o maldito oficial-de-sala quem mereça alguma daquelas flores! — Ainda bem que o velho Jerônimo é casmurro.

Enfim o préstito passava, e, ainda melhor, o carro parou defronte das janelas de Antônio e as danças se executaram no meio dos aplausos do povo.

Aproveitando o movimento e o ruído, Isidora perguntou com voz trêmula a Inês:

— Quem é aquele cavaleiro, que tanto a olhou ainda há pouco?

— Que cavaleiro?...

— Por que dissimula? Vi bem que ele a ama...

— Viu mais do que eu.

— Mas quem é ele?..

— Que me importa isso?...

— Diga-me o seu nome...

Inês admirou-se da alteração da fisionomia de Isidora, para quem levantara os olhos, e sem mais hesitar disse em voz baixa:

— Chama-se Alexandre Cardoso.

— O oficial-de-sala do vice-rei?

— Ele mesmo.

Isidora exalou um gemido mal abafado, e ficou silenciosa e triste.

Inês não sabia o que pensar desse abalo da sua bela mestra de música.

O préstito da serração da velha seguiu seu caminho.

Logo depois Antônio Pires levou seus convidados para a mesa da ceia que foi profusa e rica.

Às onze horas da noite Jerônimo voltou com sua família para a chácara da Gamboa, e, atravessando as ruas da cidade, ainda viu modestas sociedades ceando em esteiras estendidas às portas de casas térreas.

A noite ia adiantada e o caminho para a Gamboa era, como ficou dito, solitário e arriscado, mas Jerônimo estava tranqüilo, porque além dos oito escravos carregadores das cadeirinhas, levava dois pajens escolhidos.

O velho negociante não contava com Alexandre Cardoso.

O vingativo, soberbo e desmoralizado oficial-de-sala já desde alguns dias tinha concebido o plano da sua vingança e só esperava ensejo oportuno para executá-lo.

Tendo visto a família de Jerônimo às janelas da casa de Antônio Pires, apenas chegou à Praça do Carmo, despediu-se dos oficiais com que passeava, tendo antes dito em voz baixa algumas palavras a dois que eram seus íntimos, e que mais tarde a ele foram reunir-se em lugar aprazado.

Em uma hora Alexandre Cardoso tomou todas as medidas que lhe faltavam, e às dez da noite, oito possantes soldados do regimento velho disfarçados em maltrapilhos e escondidos no bosque, esperavam a família de Jerônimo.

O plano era simples, ousado, e tão imprudente que só se podia explicar pelos hábitos de impunidade e pela cega e frenética paixão de Alexandre Cardoso: simular-se-ia um ataque de ladrões, começando por alguns tiros dados ao acaso para espantar os cavalos, imediatamente seriam atacadas as cadeirinhas, as senhoras despojadas de jóias, e no meio da desordem, Inês devia ser arrastada para o bosque que estava completamente fora de seu conhecimento e de suas previsões.

O algoz se reservava papel sublime: acudiria intrépido aos tiros, e chegaria ainda a tempo de salvar as vítimas, e de... encontrar Inês no bosque.

Pouco faltou para que completamente se realizasse a malvada trama de Alexandre Cardoso, que entretanto não pudera calcular com uma intervenção, ou com um potente auxílio.

As quatro cadeirinhas seguidas por Jerônimo chegavam ao ponto mais solitário e escabroso do caminho, quando de súbito estrondaram alguns tiros de espingarda; os cavalos espantaram-se, um dos pajens caiu e perdeu os sentidos, o outro foi arrebatado para o lado contrário do bosque pelo animal que cavalgava, o velho negociante ocupado a domar o cavalo achou-se de improviso lançado por terra e preso nos braços de um desconhecido, sem dúvida salteador.

As senhoras foram arrancadas das cadeirinhas, e os escravos carregadores destas, obedecendo a generoso impulso, começaram uma luta desigual, pois que estavam desarmados.

Os gritos desesperados das senhoras despedaçavam o coração de Jerônimo, que rugiu furioso ao ver um dos salteadores tomar em seus braços Inês; mas imediatamente Isidora lançara-se de um salto sobre o roubador ou raptor da bela menina, e disputou-lhe a presa com tanta felicidade, que talvez pelo imprevisto do ataque, conseguiu arrancar-lhe da mão a espada que ele trazia.

O salteador largando no chão Inês desmaiada, arremeteu contra Isidora; mas recuou logo, e soltando um gemido, fugiu.

Manejando a espada com braço varonil Isidora atacou animosa os outros ladrões, e com o concurso dos escravos sustentou breve, mas enraivado combate, ostentando o arrojo e a força de um leão.

O pálido clarão da lua iluminava a cena pavorosa e Jerônimo Lírio testemunhou ansioso durante dois ou três minutos o mais terrível dos episódios desse drama horrendo.

Enquanto os escravos se achavam a braços e atarefados com cinco ladrões, um outro destes, o mais gigantesco, o hércules, armado com um sabre atacava Isidora: era a força contra a agilidade muito constrangida pelos vestidos de mulher; mas ainda assim o leão não se deixava prender; saltando ligeira, Isidora livrava-se dos botes tremendos do hércules, cujo sabre perdia seus golpes neutralizados pela espada hábil da valente amazona; cego de raiva o gigante bradou:

— Não é mulher!

E desabriu um golpe; Isidora porém o rebateu, e feriu o gigante no rosto.

Seguiu-se um bramido, novo bote, e nova ferida na ilharga do salteador, que cambaleou e caiu.

Ouviu-se então o galopear de cavalos, e o ladrão que continha preso Jerônimo e os outros que combatiam com os escravos, fugiam carregando o companheiro ferido e os quatro restantes protegendo aqueles, e defendendo-se em retirada pelo bosque com evidente prática militar.

Isidora deixou-se então cair sentada. Jerônimo correu a ela:

— Está ferida? perguntou.

— Não, respondeu a amazona; estou cansada; o salteador bateu-se bem... deve ser algum soldado...

Alexandre Cardoso e dois oficiais esbarraram os seus cavalos, e olhando o campo do combate, onde estavam estendidos o pajem que caíra do cavalo, e três escravos feridos, pediram informações do caso, dizendo que por ouvir o estrondo de alguns tiros, tinham corrido a prestar socorro.

Jerônimo Lírio relatou de mau modo quanto acontecera, e concluiu, dizendo:

— Ainda bem que chegou tarde para defender-nos.

— Ainda bem?

— Sim; porque teria chegado tarde demais, se outro defensor e salvador não houvéssemos tido.

O pajem, cujo cavalo desencabrestara, apresentou-se com um grupo de escravos armados.

Jerônimo Lírio despediu-se de Alexandre Cardoso e dos dois oficiais, agradecendo e não aceitando o oferecimento de sua companhia até à chácara.

As senhoras embarcaram-se de novo nas cadeirinhas, e o pajem que caíra do cavalo e os escravos feridos foram levados nos braços de alguns dos seus parceiros.

Chegados a casa, Isidora foi de novo interrogada por Jerônimo sobre o seu estado, e a senhora Inês desfez-se em cuidados por ela.

As duas meninas olhavam espantadas para Isidora.

A senhora Inês a contemplava em adoração.

Jerônimo abraçou-a três vezes.

Isidora tinha sido a providência salvadora daquela família.

Quando se acharam sós em seu quarto, as duas meninas conversaram ainda palpitantes e trêmulas de abalo pelo perigo de que haviam escapado. Irene perguntou:

— Viste-a bater-se, Sinhazinha?

— Eu não vi coisa alguma; lembra-me que ouvi tiros, que logo depois me agarraram, e não soube mais de mim...

— Os mais bravos cavaleiros devem bater-se como ela se bateu.

— Foi ela então que me salvou?

— Sem dúvida e a todos nós e a nosso pai.

— Que mulher extraordinária!

— Sinhazinha, tu és feliz!

— Por quê?

— Porque lsidora não pode ser mulher; é um mancebo e te ama.

Irene adivinhara o segredo de Isidora, que de fato era lindo jovem que se disfarçara com vestido de mulher para escapar ao recrutamento.

Jerônimo compreendera que não era admissível por mais tempo o disfarce depois do admirável combate, e ao despedir-se de Isidora perguntou-lhe:

— Trouxe vestido do seu sexo...

— Sim, senhor.

— Pois é preciso trajá-los: a sua bravura e o seu valor tiraram-lhe o direito de fingir-se mulher.

E antes de dormir Jerônimo ainda pensou em Isidora; pois perguntou à senhora Inês:

— Não pensas que devemos grande serviço a esse valente mancebo?

— Salvou-nos mais que as vidas, salvou a honra de nossas filhas.

— Inês, vou mandar colher informações sobre o caráter e procedimento de Isidoro.

— Para quê?

— Se ele for como parece...

— Então?...

— Qual de nossas filhas julgas que devemos dar-lhe em casamento?

— A Nhanhã é a mais velha...

— Mas foi a Sinhazinha que ele precisamente salvou, atacando e ferindo o seu malvado raptor.