As Mulheres de Mantilha/XLV

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XLV


O vigésimo dia da quaresma é em todo o mundo católico de suspensão de penitência, e como de férias dadas pela Igreja aos jejuns e aos austeros preceitos de religião santa e única verdadeira, impostos aos fiéis nesse período anual que recorda os quarenta dias de jejum e da suprema meditação de Jesus Cristo antes da sua sagrada paixão e morte, que deixou no sangue do Deus mártir o Jordão que lava todas as culpas, e na cruz santíssima a árvore da liberdade que regenerou e nobilitou, que regenera e nobilita, que há de regenerar e nobilitar para todo sempre a humanidade.

Esse dia excepcional, que a Igreja concede aos fiéis para descanso das penitências e dispensa das abstinências dos jejuns e das práticas austeras, dava no Brasil ocasião a uma folgança popular não pouco burlesca. A folgança tomava o nome de serração da velha.

Descreveremos em poucas palavras essa espécie de mascarada dos antigos costumes, que só no presente século foi proscrita pela nova civilização.

Nas cidades e até nos pequenos povoados ajuntavam-se mancebos folgazões para a festança; dizia-se que pelo correr da noite se havia de serrar a mulher mais velha da cidade ou povoação, e era tão simples e crédula a gente daqueles tempos, que havia velhas que, tremendo de medo, se escondiam durante o dia fatal para não serem apanhadas pelos serradores.

À noite, saía a sociedade à rua: homens possantes, vestidos a caráter, às vezes representando índios, ou negros africanos, ou mouros, puxavam um carro com imenso estrado, sobre o qual viam-se meia dúzia de figurantes trajando à fantasia e uma grande serra armada e pronta para serrar uma pipa, dentro da qual se dizia ir encerrada a velha condenada ao sacrifício.

Onde era possível obter-se música, uma dúzia de tocadores de instrumentos bárbaros, ou capazes de produzir grande ruído, não excluía a banda de música de verdadeiros professores que, durante a marcha da burlesca procissão, alternavam com a orquestra infernal, tocando marchas alegres; onde tanto não se podia conseguir, contentavam-se os folgazões com a orquestra infernal.

Às vezes cessava a música, e os puxadores do carro marchavam, entoando cantigas alusivas ao trabalho que executavam, alternando também com os serradores que cantavam, ora fazendo alusões à velha que levavam na pipa, ora outros cantos mais ou menos engraçados, ou em moda entre o povo.

Quando os carregadores paravam para descansar, ou de propósito defronte de alguma casa, a cujos moradores queriam obsequiar, os serradores dançavam grotescamente, e um deles, principal, fazia em voz alta a leitura de uma composição poética, em que era cantada a vida da velha que ia ser serrada.

Passavam assim pelas ruas, até que na praça principal, se completava a função, serrando-se a pipa, que em vez de mostrar serrada, no seu interior, a velha, apresentava boa e variada ceia, e abundância de garrafas de vinho.

Às vezes fingiam serrar a pipa desde o princípio e em todo o correr da procissão; ainda de muitos e diversos modos variavam o divertimento, que por fim, acabava sempre com a ceia na praça ou em casa para isso disposta.

Como se vê, a serração da velha era uma folgança inocente, mas rude, e talvez um pretexto para as ceias fartas e alegres no dia da suspensão dos preceitos da quaresma.

Esse texto era perfeitamente compreendido pelas famílias, que também ceavam em festa.

Dos antigos cantos que entoavam os serradores da velha, um apenas ouvimos com seguranças dadas por quem no-lo repetiu, de que pertencia ele ao século passado. Ei-lo:

Serra, serra, serra a velha,
Puxa a serra, serrador;
Que esta velha deu na neta
Por lhe ouvir falas de amor.

Serra-ai! — serra-ai! — serra-ai! — puxa,
Puxa-ai! — puxa, serrador!

Serra a velha — ai! — viva a neta
Que falou falas de amor.

Serra! — a pipa é rija;
Serra! — a velha é má;
Serra! — a neta é bela;
Serra! — e serra já.

Eis ai mais ou menos como era a serração da velha no século passado.

Tinha chegado o dia dessa folgança, no ano de 1767, e desde que despertaram ao canto dos passarinhos. que saudavam a aurora, Irene e Inês não pensaram senão na alegre noite que haviam de passar, na casa do bom velho Antônio Pires, a quem ia pagar Jerônimo Lírio a aposta perdida, levando a família a cear com o amigo e compadre.

As duas meninas, tão sobejamente enfeitadas pela natureza, empregaram o dia todo em imaginar enfeites para seus formosos cabelos e finos vestidos brancos.

Enfim, às seis horas da tarde, a família de Jerônimo Lírio pôs-se em marcha da Gamboa para a cidade. A Srª Inês, Isidora e os dois lírios eram levadas cada uma em sua cadeirinha; o velho caminhava atrás, cavalgando soberbo cavalo, e seguido de dois criados.

Às sete horas e pouco mais, da noite, Antônio Pires desceu do sobrado para receber à porta da rua a família do seu amigo.