As Mulheres de Mantilha/XLIV

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XLIV


Havia quinze dias que as lições de canto tinham começado; desde que satisfazia os trabalhos diários do governo da casa, regularmente, às dez horas da manhã a srª Inês levava as filhas para a sala e sem se ausentar por um só momento, e com os olhos e a atenção mais ativa e o mais escrupuloso zelo empregados nelas, assistia às lições de solfejo e canto, que Isidora dava às duas meninas.

Irene e Inês, que achavam nessas lições distração suave em sua vida monótona, aplicavam-se muito e faziam rápidos progressos; além do estudo da música, Irene tinha aprendido de cor duas modinhas e Inês outras tantas e um lundu, para cantá-los em casa de Antônio Pires, na noite da serração da velha.

Jerônimo Lírio estava satisfeitíssimo do aproveitamento das filhas, já as fazia cantar em sua presença e calculava com essa nova prenda das meninas para a festa que daria ao vice-rei em uma segunda visita, com que contava.

O recato, o proceder honestíssimo, os modos sempre respeitosos de Isidora, tranqüilizavam cada vez mais o austero velho, que nem mais disfarçava a estima que lhe merecia a hóspede; entretanto, não se modificara por isso o sistema da vida íntima da família Lírio: Isidora era sempre uma estranha; nem uma só vez se achava a sós com as duas discípulas, e unicamente em horas determinadas era admitida no interior da casa, a conversar com a srª Inês.

Ainda naqueles tempos quase recentes, os portugueses e seus descendentes conservavam no sangue os germes do turvo ciúme mourisco que rouba a mulher à admiração e aos cultos dos homens e a condena à escravidão do zelo brutal.

Irene e Inês tinham vivido sempre sob vigilância como suspeitosa, e cada, uma só na outra encontrava a confidente única de seus inexplicáveis enleios.

Jerônimo Lírio e sua esposa defendiam a inocência de suas filhas contra todas as lisonjas e contra todas as luzes do mundo; mas não puderam defendê-las contra a voz da natureza, que devia anunciar-lhes, embora confusamente, um mistério na vida da mulher, um quer que seja que a natureza manda desejar e que em sua inocência deseja sem saber o quê.

Irene e Inês estavam já nesse caso, Irene menos ardente, a pensar sem falar; Inês mais suscetível e mais exaltada, a pensar, a sonhar, a confiar à irmã o que nem ela nem a irmã entendiam.

Sabiam ambas que havia um laço que unia uma mulher a um homem, o casamento; mas do casamento só compreendiam, além do fato misterioso da união, a beleza ou o encanto do vestido branco e do véu, e da coroa da noiva, e o subseqüente governo da casa do noivo.

Ainda assim, e sem saber por que, ambas desejavam ser noivas; mas noivas de bonitos e elegantes mancebos.

Tanto Irene como Inês, por mais de uma vez tinham recebido de velhas pobres pedintes a quem davam o pão da caridade, recados lisonjeadores e amorosos de homens a quem conheciam ou não; nunca haviam dado resposta alguma; mas os recados as faziam rir e as divertiam muito, e ambas instintivamente os escondiam dos pais.

Assim Inês sabia e acreditava que Alexandre Cardoso a adorava perdidamente e com a sua inata e sutil habilidade de mulher, tinha, mais de uma vez, olhado e observado imperceptivelmente o soberbo ajudante oficial-de-sala que lhe causara profunda repugnância, talvez em parte devida à reputação de homem mau e desmoralizado, que ele gozava.

As duas irmãs brincavam, riam-se, e zombavam em confidência dos protestos de amor que recebiam muito raramente, mas que em todo caso, as faziam pensar em amor, e em casamento sem sentir um e sem compreender o outro.

Em um dos últimos dias a menina Inês, correndo a dar esmola a uma velha de mantilha que mendigava, ouvira dela, no meio de um dilúvio de bênçãos, as seguintes palavras, proferidas em tons diversos:

— Minha bela menina — seja pelo amor de Deus — o senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso, oficial-de-sala do senhor vice-rei — Nossa Senhora do Amparo a proteja — ama-a e quer casar com a senhora — e todos os anjos e arcanjos a acompanhem sempre — o senhor vice-rei deseja o seu casamento com o sr. Alexandre Cardoso e a protegerá contra seu pai — e São Pedro, e São Paulo, e Santo Antônio de Lisboa a façam feliz — porque seu pai a destina para freira — mas o seu belo apaixonado está pronto a salvá-la e a casar com a senhora, tomando por padrinho o senhor vice-rei — e todos os santos e santas do céu a façam feliz — dê-me a resposta que devo levar - para sempre amém.

Inês voltara as costas à mendicante, que se retirara confusa e apressada, tremendo justo castigo, se a menina denunciasse o seu ousado e ímpio recado.

Mas Inês nada disse a sua mãe e somente, esperando a noite, e quando se achava longe da família e a sós com Irene, em seu quarto de dormir e quando ambas, feita a oração da noite, se acolheram a seus leitos puros, e próximos um do outro, perguntou à irmã:

— Nhanhã, como vais de recados?

— Que recados?

— De amor, de paixão, de casamento, de tudo?

— Ora... Sinhazinha, tu pensas nisso?

— Creio que nós pensamos; mas, em todo caso, eu penso.

— Por quê?

— Porque ainda hoje recebi um.

— De quem?

— Do oficial-de-sala; foi a velha mendicante de hoje de manhã que me trouxe o recado.

— E que mandou ele dizer-te?

— O mesmo que das outras vezes, e uma noticia curiosa.

— Qual?

— Que meu pai me destina para freira.

— E repetes isso a rir?

— Não tenho medo; se fosse verdade, eu pediria proteção e socorro a meu padrinho.

— E respondeste ao recado?

— Eu?... que me importa o oficial-de-sala, com aqueles bigodes tão feios!

— Ah!.. se ele fosse bonito.

— E bom, e engraçado...

— Responder-lhes-ia, Sinhazinha?...

— Não julgas que se pode responder a um desses recados, sem se ofender a Deus, e ao nosso dever?...

— Eu não sei... talvez... conforme a pergunta e a resposta.

— Tu és sonsa, Nhanhã.

— E que responderias, Sinhazinha?...

— Mandaria dizer que falasse a meu padrinho.

— Sobre o quê?

— É claro, sobre o casamento.

A inocência de Inês transpirava da própria ingenuidade com que se pronunciava.

— Sinhazinha, perguntou Irene, qual é o moço com quem desejarias casar-te?

— Nenhum...

— Ora... estás mentindo...

— Não; já achei alguns bonitos, agora acho todos feios.

— Por quê?...

— Quase que tenho vergonha de dizer.

— Dize-me sempre..

— Quisera casar-me com um moço que tivesse o rosto, a voz, a bondade e a graça de Isidora.

— Na verdade ela é bonita, e é pena que seja um pouco malfeita de corpo...

— Mas... que olhar o seu!...

— Muito suave... sem dúvida...

— Quando não é brilhante de fogo; porque, então, é abrasador.

— Ela nunca me olhou assim...

— Parece que se arreceia da mamãe.

— Como, pois, sabes que ela tem olhar de fogo?...

— Já por três ou quatro vezes, quando dás lição e mamãe se ocupa mais contigo, apanhei-a a olhar-me assim de relance.

— De relance?

— É como um relâmpago, Nhanhã...

— Ah!

— Também não sei por que mamãe nunca nos deixa em liberdade com uma senhora que é moça como nós, e ainda melhor educada que nós.

— É verdade; nós nos divertiríamos tanto!

— E eu então? Olha, Nhanhã, não tenhas ciúmes; suponho que ela gosta muito de mim.

— Porquê?

— Um dia esqueci sobre o cravo um raminho de alecrim, e à noite, quando fomos rezar ao oratório, vi o meu raminho, servindo de marca no livro de oração de Isidora.

— Talvez ela o apanhasse por acaso e sem pensar em ti.

— Julgas que sou tola? Deixei passar dois dias, e, enquanto cantavas, fui esquecer um botão de rosa na janela...

— E mamãe não deu por falta do botão de rosa?...

— Ora, esta Nhanhã me considera idiota! Pois eu havia de levar modo que a mamãe o visse?

— Onde o levaste?

— Bem escondido no seio.

— E que foi feito dele?

— Vi-o, à mesa do jantar, no cabelo de Isidora.

— E depois... que mais?

— Acabou-se a história,

— Sinhazinha, agora é que eu digo que és tola.

— Sim?...

— De que te serve gostar de uma moça como nós?...

— Eu sei! o que dizes é muito acertado; mas Isidora me encanta... não é por minha vontade não entendo o que sinto; mas já duas vezes tenho visto em sonhos um moço com o rosto de Isidora.

— Ela diz que tem um irmão que é o seu retrato perfeito...

— Pois era com o irmão de Isidora que eu queria casar-me.

— Casar-te?... Falas tanto em casar-te! Eu também desejava casar-me... tenho curiosidade... há no casamento um segredo que nos encobrem... por que o escondem? Já o adivinhaste, Sinhazinha? Para que desejas casar-te?

Inês respondeu logo sem o mais breve vexame, e com indizível naturalidade:

— É para ter filhos, Nhanhã, como os têm quase todas as moças que se casam, e também para ter casa minha, e em meu marido um homem que trabalhe para mim.

— Ainda falta aí o segredo... murmurou Irene.

Inês, que também ignorava o segredo, e que se viu abatida pela evidência da falha considerável no seu saber pretensioso, disse um pouco amuada:

— O mais, não sei.

As duas irmãs guardaram silêncio por alguns minutos.

Irene tornou a falar.

— Dormes, Sinhazinha?

— Não.

— Eu estava pensando em Isidora.

— Também eu.

— Causou-me surpresa e dúvida o que me disseste: talvez tenhas interpretado mal o fato de recolher esta moça o ramo de alecrim e o botão de rosa.

— Interpretei muito bem.

— Quisera fazer uma experiência.

— Qual...

— Amanhã serei eu quem esqueça uma flor sobre o cravo.

— E eu esquecerei outra na janela.

— Pois sim.

— Mas com a condição de não teres ciúmes.

— Juro que tenho só curiosidade. Vamos dormir.

E Irene e Inês dormiram fácil, suave e tranqüilamente. como devem dormir os anjos, se os anjos dormem.

No dia seguinte, à hora da lição de música, Irene, que levava na mão uma violeta, deixou-a cair sobre o cravo, quando solfejava, ao mesmo tempo que Inês esquecia na janela um amor-perfeito que levara escondido.

Terminada a lição e ao retirarem-se as meninas, Isidora chamou-as, e apresentou-lhes a violeta, perguntando a quem pertencia.

Irene recebeu a flor, corando, e agradeceu a Isidora, e ainda mais curiosa e atenta, viu, à noite, durante as rezas no oratório, o amor-perfeito de Inês servindo de marca no livro de orações de sua mestra de canto.

Quando, abençoadas por seus pais, as duas meninas se recolheram para dormir, e se achavam a sós, Irene disse a Inês:

— Tens razão, Sinhazinha, Isidora te ama.

— E eu a ela, muito, cada dia mais!

— Eu, porém, não entendo isto... que amor é este, entre pessoas que não se podem casar?...

— É verdade, Nhanhã; não me governo, porém, mais... amo Isidora... e nem compreendo a natureza do sentimento que a ela me cativa.

— Sinhazinha, quem sabe se há nisto obra de tentação do inimigo? Eu te dou um conselho.

— Qual?...

— Antes da semana santa, havemos de confessar-nos: não te esqueças de consultar o padre sobre este caso de consciência.

— Ah, Nhanhã! O padre é tão rabugento!

— É porque pecamos muito, Sinhazinha; e porque talvez rezamos pouco.

E instintivamente as duas meninas cobrindo os seios com os lençóis em voltas, ajoelharam-se sobre as camas, e rezaram o credo, a ladainha de Nossa Senhora, e outras orações que as ocuparam durante uma hora.

E depois adormeceram sorrindo, como se agradecidas, sorrissem à bênção de Deus.