As Mulheres de Mantilha/XXXIII

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXIII


Alexandre Cardoso retirou-se para o gabinete, onde trabalhava, desoprimido de um grande peso, mas aturdido por duas contrariedades que muito agitavam-lhe o ânimo.

O vice-rei tinha freqüentemente dias de impaciência e de irritação difíceis de se suportar; nessa manhã porém menos desabrido que em outras, falara sobre o incêndio, negara-se a despachar as nomeações para o comando do terço, de modo que excitou suspeitas e temores no espírito naturalmente desconfiado de Alexandre Cardoso, que só respirou desafrontado de mais graves apreensões, ouvindo logo depois a explicação do mau humor e da cólera do poderoso senhor.

Mas ficaram a Alexandre Cardoso duas contrariedades.

O ajudante oficial-de-sala do vice-rei negociara particularmente e por bom preço as nomeações para os diversos postos do novo terço; de algumas recebera adiantado pagamento, e calculava com elevadas quantias que as outras haviam de render-lhe; o jogo, em que andava infeliz, e a devassidão que lhe custava rios de ouro, o apertavam em críticos apuros, e o vice-rei, adiando aquelas nomeações viera agravar seus embaraços financeiros, o que era questão de máxima importância para ele que em cada noite precisava ter a bolsa recheada de louras moedas.

A negativa de Jerônimo Lírio à sua proposição de casamento com a bela Inês era para Alexandre Cardoso além de uma repulsa insultosa, um desmancho de cálculos de futura riqueza, e um incentivo provocador de sua paixão pela formosa menina. Ultrajado em sua vaidade, prejudicado em seus planos de fortuna, esporeado, ferido em seu amor, se realmente amava, em seu ardor libidinoso, se outro não era o seu sentimento, o ajudante oficial-de-sala do vice-rei jurou vingar-se em Inês do orgulhoso pai de Inês e animou-se mais nessa idéia, contando com o ressentimento do conde da Cunha que tão colérico se pronunciara contra Jerônimo Lírio.

Entretanto o cuidado instante de Alexandre Cardoso era arranjar dinheiro, para o jogo e para seus desenvoltos prazeres; trabalhou mal como ajudante oficial-de-sala nesse dia; porque, trabalhando, meditava, imaginando expedientes; às onze horas da manhã despachou um soldado com uma carta para Clélio Irias, velho usurário riquíssimo que morava na mais baixa e pobre casinha da Rua do Parto e apenas viu sair o soldado, pôs-se a escrever com maior cuidado em uma folha de papel, e consecutivamente em mais duas, imitando diversos caracteres de letra, no que era hábil e consumado, dobrou depois as folhas de papel, e guardou-as na sua pasta.

No fim de uma hora pouco mais ou menos Clélio Írias, hirsuto e com vestidos remendados, com a cabeça sem cabeleira, e os sapatos sem fivela, imundo e desprezível, foi introduzido no gabinete do ajudante oficial-de-sala.

— Senta-te e espera, Clélio Írias, disse este, e continuou a escrever.

O velho esperou meia hora e vendo Alexandre Cardoso como dele esquecido, disse:

— Tempo é ouro: que faço eu aqui?

O ajudante oficial-de-sala do vice-rei largou a pena, e respondeu:

— Tens razão meu velho: quanto te devo até hoje?...

— Cinco mil cruzados com os juros do último trimestre, que não recebi.

— Dou-te a melhor das notícias, Írias!

— A do pagamento?

— O contrário disso: a boa-nova de que esta noite te deverei dez mil cruzados.

— E como? se não tenho hoje nem um patacão para emprestar? exclamou o velho a tremer.

— Fala baixo, ou não te poderei valer, observou Alexandre Cardoso.

O velho ficou olhando em silêncio.

— Clélio Írias, não me esqueci de que em um dia me abriste a sua bolsa usurária e me emprestaste dois mil cruzados, que hoje por tuas contas de juros sobem a cinco; não discuto sobre a usura: precisei, achei-te, devo-te gratidão.

O velho continuava a olhar.

— Lê esta denúncia, disse Alexandre Cardoso, passando a Clélio Írias uma das três folhas de papel.

O velho leu uma denúncia que contra ele dava um incógnito inimigo, acusando-o, como judeu, ao Santo Ofício.

Clélio Írias não era judeu, mas filho de judeu.

— Lê agora estes ofícios, continuou Alexandre Cardoso, passando ao velho as outras duas folhas de papel.

Clélio Írias leu um ofício do comissário do Santo Ofício ao bispo, e outro do bispo ao vice-rei.

A prisão e remessa de Clélio Írias para Lisboa eram exigidas.

O velho tornou a ler e a reler os documentos, e depois caindo de joelhos disse com voz sumida:

— Salve-me pelo amor de Jesus Cristo!

Alexandre Cardoso pôs-se a rir; o velho quase chorava.

— Mandei-te eu chamar para te prender, pobre milionário Írias?

— Salva-me! repetiu o velho.

— Quanto te devo eu hoje?

— Ah, senhor! creio que coisa nenhuma...

— Não, usurário; o que eu devo, devo, hei de pagar-te.

E Alexandre Cardoso renovou a pergunta.

— Quanto te devo eu até hoje?

— Cinco mil cruzados.

— É quase nada.

Clélio Írias arregalou os olhos.

— Um homem da minha hierarquia ou não deve, ou deve mais do que isso, disse Alexandre Cardoso.

O velho tremia e esperava.

— Quero esta noite dever-te o dobro dessa quantia; já o disse.

— O dobro?!!!

— Achas pouco? Talvez tenhas razão; espera: deixa-me examinar outra vez esses papéis.

Clélio Írias teve medo de que o novo exame determinasse aumento da exigência, e perguntou:

— Onde levarei os cinco mil cruzados?

— À minha casa às seis horas da tarde.

— E estes papéis?

— Queima-los-ei à tua vista.

O velho usurário refletiu por algum tempo: tornou a ler e a examinar a denúncia e os ofícios, foi pouco a pouco recobrando o ânimo perdido e por fim disse com uma certa acentuação de malícia na voz:

— Eu preferia que me passasse a clareza da dívida em um desses papéis.

Alexandre Cardoso corou.

— Miserável!

— Questão de segurança: quem me responde pela futura complacência do meu denunciante?

— Eu.

— Não me basta.

— E de que te serve a clareza passada em um desses documentos?

— Ah! de muito! Se eu for outra vez denunciado, o senhor ajudante o oficial-de-sala me salvará ou eu o perderei com o papel da clareza.

Alexandre Cardoso conteve uma imprecação e disse:

— Retira-te.

— Quer que vá às seis horas?

— Não: mudei de parecer.

Clélio Írias, que perdera o medo, tornou:

— Tenho outra idéia...

— Retira-te, judeu!

— Perdão, senhor: olhe que está elevando a voz.

Alexandre Cardoso encarou com raiva o teimoso velho, que prosseguiu:

— Levarei às seis horas a clareza da dívida antiga e mais cinco mil cruzados em boa moeda, e em troca da clareza e do dinheiro receberei a denúncia e os dois ofícios; mas doravante o senhor tenente-coronel arranjará as coisas de modo que eu não seja outra vez denunciado, e que além disso eu com o meu próprio nome ou com o de outro ou de outros, venha a ter por administração as melhores obras públicas, e por contrato os melhores fornecimentos para as tropas d’el-rei, e pela minha parte eu também arranjarei as coisas de modo que os lucros sejam irmã e honradamente repartidos entre mim e o meu sócio encoberto.

Alexandre Cardoso respondeu a tremer por sua vez:

— Bruto! Não sentes que me insultas?

O usurário, rindo-se com um rir irônico e repugnante, debruçou-se na mesa do ajudante oficial-de-sala, firmou o queixo sobre os punhos, fitou Alexandre Cardoso e continuou, dizendo:

— Que insulto? O que eu sei é que esses papéis são falsos mas que o senhor tenente-coronel é bem capaz de arranjar verdadeiros e de perder-me para sempre, e também ainda sei que o senhor precisa muitas vezes de dinheiro; ora mesmo falsos como são, esses papéis me servem muito: dou por eles o que disse, sob a condição da sociedade, em que lucraremos bastante, e sem receio um do outro; porque ficaremos ambos em mútua dependência. Isso é que é ser franco: serve-lhe?

Alexandre Cardoso viu aberta a seus olhos uma mina de ouro, e respondeu:

— Às seis horas em minha casa. Clélio Írias saiu.