As Mulheres de Mantilha/XXXIV

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXIV


A proposição do velho usurário agradaria plenamente a Alexandre Cardoso, se não fora a perigosa condição da entrega dos documentos que deixava-o para sempre à mercê das exigências e imposições que deviam tornar-se ilimitadas, pois Clélio Írias, tendo conhecido a falsidade dos três escritos, dava ainda por eles dez mil cruzados, uma riqueza naquela época e isso apesar da sua escandalosa avareza.

O ajudante oficial-de-sala não se escravizaria em caso algum a semelhante homem; mas para ver se descobria algum outro recurso que substituísse a entrega dos documentos, mandou que Clélio Írias fosse a sua casa às seis horas da tarde, e ficou debalde pensando, dando tratos à imaginação no empenho de achar ou de inventar o expediente almejado, ou outros meios prontos para prover-se de dinheiro.

Um empregado da sala veio perturbar suas cogitações trazendo-lhe um requerimento, que dependia de imediato despacho, ou para cujo indeferimento bastava a demora da providência perdida: era uma respeitosa representação dos mercadores de limões-de-cheiro, que lamentavam os seus prejuízos, mostravam como eram os inocentes castigados pelo crime dos perversos pasquineiros, e concluíam pedindo que o senhor vice-rei, dignando-se revogar suas anteriores ordens, permitisse o jogo do entrudo na tarde e noite da terça-feira.

Alexandre Cardoso, contrariado, desgostoso, aflito por diversos motivos naquele dia, atirou com o requerimento para baixo da mesa, dizendo:

— Eis o único despacho que esse canalha merece.

O empregado retirou-se, mas o ajudante oficial-de-sala imediatamente depois lembrou-se do mau humor, e do gênio irritável do conde da Cunha nessa manhã muito suscetível, e apanhando o requerimento, foi apresentá-lo ao vice-rei, a quem encontrou carrancudo e passeando acelerado pela sala.

— Por que me incomoda? perguntou o conde, gritando.

— Senhor vice-rei, é a pesar meu: este requerimento que aliás reputo desprezível e talvez desrespeitoso, que pede a revogação de uma ordem de v. exª, depende de imediato despacho, e se eu o não apresentasse, era o mesmo que se o tivesse por mim próprio indeferido, o que não ouso fazer...

O vice-rei tomou com arrebatamento e leu para si o requerimento; logo depois sentou-se à mesa do despacho, e escreveu. "sim: publiquem-se editais, revogando a ordem de anteontem, e permitindo o jogo do entrudo até às nove horas da noite nas ruas, até à meia-noite precisa no interior das casas", e assinou.

— O requerimento não é desprezível: o que nele se pede é justo disse o vice-rei, entregando a folha de papel ao ajudante oficial-de-sala.

Alexandre Cardoso voltou apressado e tão ativamente dirigiu os trabalhos que no fim de uma hora estavam fixados mais de vinte editais autorizando o jogo do entrudo.

O Conde da Cunha era quase intratável em seus dias de irascibilidade molesta; o ajudante oficial-de-sala o sabia por experiência, e em tais casos, silencioso e obediente, esperava em novo Sol reassumir o poder de sua influência, o que sempre conseguia.

Tendo dado porém, de má vontade embora, as providências determinadas pelo despacho do vice-rei, Alexandre Cardoso tornou a pensa em Clélio Írias, e de repente desatou a rir.

Acabava de imaginar ou de achar o desejado, o afortunado recurso para a sua negociação com o velho usurário sem deixar em seu poder os perigosos documentos.

Contente, feliz, Alexandre Cardoso conversou, provocou todos os empregados da sala ao jogo do entrudo na tarde e noite desse dia e acabando o expediente, deu-se pressa em despedi-los e também em retirar-se, tendo antes e por dever suportado em despedida a terrível carranca do conde da Cunha que outra vez lhe disse:

— Fui desconsiderado por sua causa: não o responsabilizo por isso: mas proíbo-lhe que outra vez me fale nesse negociante, que se chama Jerônimo Lírio.

O ajudante oficial-de-sala aplaudiu-se do motivo da cólera do vice-rei.

Naquela cólera fulgiam a estima do conde da Cunha pela pessoa de Alexandre Cardoso e o ressentimento do mesmo alto senhor pela negativa de Jerônimo Lírio na questão do casamento.

Para o ajudante oficial-de-sala tudo corria bem em relação ao vice-rei que era a base do seu poder.