As Mulheres de Mantilha/XXXVIII

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXVIII


O velho usuário não se recolheu a sua casa, quando saiu da de Maria. A cortesã não lhe merecia confiança e em todo caso convinha-lhe falar a Alexandre Cardoso; a boa aguardente com que se banhara interna e externamente lhe dera calor e lhe aumentara a força; dispôs-se pois a perder o resto da noite e foi esperar o ajudante oficial-de-sala à porta de sua casa na Rua da Misericórdia, e achando a porta fechada, sentou-se na soleira.

Dentro em pouco a idade, a fadiga e o isolamento puderam mais do que o cuidado dos papéis perdidos, e Clélio Írias insensivelmente foi-se deitando na soleira e tendo os pés firmados em um dos portais, as pernas encolhidas, e um braço a servir-lhe de travesseiro, adormeceu.

A cidade já dormia também, e não houve quem, passando, perturbasse o sono do velho usurário, que aliás podia não ser percebido, pois que então as ruas ainda não tinham lampiões de iluminação.

Os sinos já haviam anunciado duas horas da madrugada, e em breve marcariam três, quando Alexandre Cardoso seguido de uma ordenança aproximou-se trazendo o seu cavalo a meio galope e somente por ser muito adestrado cavaleiro deixou de medir a terra, pois o soberbo animal em que vinha montado deu violento e inesperado salto, assustando-se com a roncaria e o vulto de Clélio Írias.

Alexandre Cardoso, firme na sela, esporeou, dominou o cavalo, obrigou-o a reconhecer o objeto que o assustara, e depois gritou à ordenança:

— Desperta esse mendigo e leva-o à cadeia.

O velho já tinha despertado, e reconhecendo aquela voz, sentou-se, gemendo, e disse:

— Sou eu, senhor tenente-coronel!...

— Clélio Írias! exclamou Alexandre Cardoso.

E, apeando-se, atirou com as rédeas à ordenança, dizendo:

— Vai recolher os animais.

E bateu à porta, enquanto o velho, agarrando-se a um dos umbrais e soltando gemidos, levantou-se a custo.

— Que fazias aqui? perguntou Alexandre Cardoso.

— Esperava-o.

— Por quê? Para quê?...

O velho repetiu a história da perda ou do roubo dos papéis e Alexandre Cardoso não o deixou acabar, entrando em explosões de furor, e injuriando Clélio Írias.

— Sinto-me muito doente, disse este; já nem posso apreciar a natureza e as feições da sua cólera; roubaram-me papéis que podem lembrar idéias e meios capazes de perder-me; mas o homem, a quem esses papéis mais interessam, e cuja posse mais convinha é o senhor tenente-coronel.

— Que pretendes significar, bruto?...

— Que a honra exige e manda que o senhor ajudante oficial-de-sala descubra onde estão aqueles documentos e mos restitua.

O velho caiu outra vez sentado, desprendendo pungente gemido. Alexandre Cardoso pareceu compadecer-se dele.

— Tens razão, meu velho; empregarei toda a minha atividade em reaver os documentos, cuja perda ou roubo pode ser ainda mais fatal a mim do que a ti. Se pudermos colhê-los, serão teus, voltarão ao teu poder, juro-o pela minha honra; se tanto não conseguirmos, nem por isso respeitarei menos as condições do nosso contrato verbal.

Clélio Írias quis levantar-se e não pôde.

Alexandre Cardoso deu-lhe as mãos e o pôs em pé.

— Tu sofres... vem; eu te recebo e te tratarei em minha casa.

O velho arredou-se dois passos com tanta viveza, e respondeu com tal acento de voz: — Oh! não! — que Alexandre Cardoso sentiu a espontânea manifestação da mais injuriosa desconfiança e, ressentido, lançou um insulto ao usurário e entrou batendo e fechando a porta.

Clélio Írias apoiando-se à parede quis andar; faltaram-lhe porém as forças e caiu.

Saíram então da sombra dois vultos, duas mulheres, uma de mantilha e outra sem mantilha; ambas se curvaram e ergueram em seus braços o velho doente:

— Senhor Clélio Írias, nós o levaremos à sua casa, disse a mulher que não trazia mantilha.

Eram Fernanda e Emiliana que se dirigiam à Santa Casa da Misericórdia, e que, por acaso, tinham ouvido a conversação ou o diálogo de Clélio Írias e Alexandre Cardoso.

A mãe dissera à filha:

— Socorramos o velho Írias: Deus tomará em conta e a favor de teu pai o bem que lhe fizermos.

A filha respondera com voz trêmula:

— Socorramo-lo; ele é meu irmão.

A fraternidade de que Emiliana se lembrara, não era a do Evangelho: era a de duas vítimas de um só e do mesmo algoz. Não ficava longe a casa de Clélio Írias; este porém se achava tão tomado de dores, que as duas senhoras quase desanimaram em meio da empresa caridosa, tendo de carregá-lo em seus braços.

Arquejando de fadiga chegaram finalmente, e aberta a porta da casa por um escravo tão velho como seu senhor, e o único e a única pessoa que com ele habitava, depositaram na mais pobre cama o rico usurário, que ardia já em febre, e soltava profundos gemidos.

O escravo foi chamar um licenciado que morava na mesma Rua do Parto e que, acudindo diligente, examinou Clélio Írias e declarou-o em perigo de vida e precisando dos mais assíduos cuidados.

O velho tinha reconhecido Fernanda e lhe beijara as mãos.

Fernanda chamou de parte a filha e disse-lhe:

— Emiliana, este homem emprestou dinheiro a teu pai, quando construímos a casinha que ontem se incêndio, e, usurário cruel para todos, lembrou-se que um dia Marcos o defendera contra um devedor que desatinado por bárbara penhora, o atacara na rua, e não quis receber juros da quantia que lhe devíamos e lhe pagamos.

— Eu sabia tudo isso, minha mãe.

— O velho Írias está às portas da morte e não tem quem o trate: eu não posso, e tu podes fazê-lo. Teu pai aprovará o nosso procedimento. No correr do dia acharás uma hora menos atarefada para ir ver teu pai. Fica velando por este homem sem amigos e sem parentes: é uma obra de misericórdia, minha filha; e eu voltarei aqui muitas vezes.

Fernanda afastou-se, e Emiliana murmurou lugubremente:

— Já não corro perigo.

E ainda teve duas grossas lágrimas para acompanhamento da ironia terrível com que se ferira.