As Pupilas do Senhor Reitor/VI

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo VI


E ainda bem não tinha decorrido uma semana, depois do que referimos, já o pequeno Daniel era transferido para o Porto na melhor égua da casa, em conformidade com o plano traçado pelo reitor.

O rapaz chorou muito ao partir. O pai sensibilizou-se, mas foi dominando a sua emoção conforme pôde.

Daniel entrou na cidade invicta com pouca disposições de se lhe afeiçoar. Matavam-no saudades da terra, da família, e mais que todas a da sua pequena Guida, de quem nem ao menos lhe tinha sido possível despedir-se, pois nem para isso lhe haviam dado ensejo.

Desde a tarde em que fora surpreendido pelo reitor no inocente colóquio que tanto escandalizou o bom do pároco, nunca mais a tornara a ver, nem dela ouvira falar. Somente, ao despedir-se do seu mestre, este lhe disse, afagando-o nas faces e sorrindo afavelmente: -"Vai, que eu continuarei com a lição da tua discípula". - Daniel não pôde responder e partiu. Mas, ao ver sumirem-se atrás de si as copas das árvores, a cuja sombra o esperava talvez Margarida, borbulhavam-se as lágrimas nos olhos. Pobre criança!

E Margarida?... Essa mais pungentes sentia ainda as saudades. Sempre assim acontece. Em todas as separações, tem mais amargo quinhão de dores o que fica, do que o que vai partir. A este esperam-no novos lugares, novas cenas, novas pessoas; sobretudo espera-o o atrativo do desconhecido, que de antemão lhe absorve quase todos os pensamentos. Vai experimentar outras sensações, e à força de distrair os sentidos, é raro que não acabe por distrair o coração. Mas ao que fica... lá estão todos os objetos que vê a recordar-lhe as venturas que perdeu; ali as flores que colheram juntos, para as trocar depois; acolá, a árvore a cuja sombra se sentaram; além o ribeiro que arrebatou na corrente as pétalas, desfolhadas um dia, do bem-me-quer fatídico, que os amantes interrogam; o tronco onde se gravaram unidas as iniciais de dois nomes; o canto dos pássaros que tantas vezes escutaram; o ponto da perspectiva, mais procurado pela vista de ambos... Oh!, há bem mais alimentos para as saudades assim! E depois, o que se ausenta vai esperançado nisto mesmo: em que a afeição, que deixa, lhe será fielmente mantida até a volta; que evitarão o esquecimento das promessas feitas tantas testemunhas que as presenciaram e que, sem cessar, as recordarão; os que ficam antevêem que, longe de tudo que possa falar-lhes delas, pouco a pouco se varrerão essas promessas da memória do ausente, e, ao dizer o adeus da despedida, um amargo pressentimento lhes segreda que dizem adeus a uma ilusão.

Ora é preciso saber que Margarida se sentia triste, profunda e inconsolavelmente triste, sem que lhe acudisse à idéia tudo quanto havemos dito. Porém, a nós, é-nos lícito analisar aquele tenro coração de criança, afeiçoado para os sentimentos e dotado de delicadíssimos instintos, como o de poucos, Alma voltada à melancolia e que se habituara a sentir, sem se estudar! Não há para mim mais simpática espécie de sofredores! os mártires que se analisam, e nos fazem resenha e inventário dos seus tormentos; esses que, todos os dias, desenvolvem em estilo imaginoso a fisiologia do próprio coração indagam a teoria do padecer, que, dizem eles, os tortura e o fazem com uma profundeza de vistas, verdadeiramente filosófica... esses mártires... para falar a verdade, não creio muito neles. Quem sofre deveras, tenho eu para mim, acha-se com pouca vontade de esquadrinhar os mistérios do sofrimento e não se põe com grandes filosofias a esse respeito. Eu julgo mais natural e sincero fazer como a pequena Margarida, depois da partida de Daniel: subindo todas as tardes ao outeiro silvestre onde tantas vezes ele se viera sentar também, sentia cerrar-se-lhe o coração de tristeza, e ... desatava a chorar. Não sei que moda anda agora de se não considerar o choro como a mais eloqüente expressão do pesar! Eu, por mim, é dos sinais em que deposito mais fé.

Era bem justificada a saudade de Margarida. A curta biografia dela a fará compreender.

Guida era o fruto único do primeiro matrimônio de seu pai, cuja morte recente acabara de a fazer órfã de todo. Entregue ao domínio de um madrasta, que não desmentia pela sua parte, a fama que de ordinário acompanha este pouco simpático nome, tivera a experimentar, nos maus tratamentos recebidos e na frieza ou declarada aversão, como que lhe dispensavam os poucos cuidados de que se via objeto, toda a amargura de uma existência sem carinhosas afeições, esse tão necessário alimento ao coração das crianças. Arredada de propósito de casa, e passando dias inteiros nos montes, a acompanhar o gado, habituou-se de pequena a vida da solidão - e é sabido que hábitos de melancolia se adquirem nesta escola. Foi, pouco a pouco, contraindo o caráter triste e sombrio que é o traço indelével que fica de uma infância, à qual se sufocaram as naturais expansões e folguedos, em que precisa de transbordar a vida exuberante dela. Por isso se afeiçoara a Daniel, o único que a viera procurar à sua solidão e oferecer-se como o suspirado companheiro das suas horas infantis. Vê-lo desaparecer agora, era assistir ao desvanecimento da mais grata das ilusões, da mais intensa das suas alegrias; e a sensibilidade nascente da pobre criança recebia uma nova têmpera nesta separação dolorosa.