As Velhitas

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As Velhitas
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Eu não professo muito o culto das ruinas.
Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;
Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
No entanto nunca insulto as prateadas cãns.

Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,
A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,
Sagazes comentando as nossas illusões!

Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,
Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;

Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos
Dos lagos ideaes cubertos de luar;
As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!

Pendestes já scismando as frontes melancolicas
Nas varandas á noite, amantes dos Titães
Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!
E agora apenas sois as mães de nossas mães!

Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
As bellas da cidade, anémicas, gentis,
Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!

Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,
Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,
Que fostes já, tambem, galantes e nervosas
Mas destes isso tudo a varios corações!

Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
Sentidos contra nós; queixumes sem valor
E ao mundo importam muito os vossos testamentos
E importa muito pouco a vossa immensa dôr!

Batei á grande porta: os bellos dias vossos
Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
O residuo fatal das cousas virginaes!