As minas do rei Salomão/XIV

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As minas do rei Salomão por Henry Rider Haggard, traduzido por Eça de Queirós
Capítulo XIV: O tesouro de salomão


No entanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e ágil) trepara para cima da mesa e acercara-se do cadáver de Tuala, a quem pareceu falar misteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas e graves que não compreendíamos. Por fim, tendo chegado em frente da Morte, caiu de bruços, com os braços estendidos, e ficou mergulhada em oração.

Era um espetáculo tão arrepiador, naquela penumbra de sepulcro, a hedionda criatura, mais velha que todas as criaturas, fazendo súplicas ao enorme esqueleto -que eu, já enervado, lhe gritei que viesse, nos levasse ao lugar dos tesouros.

Imediatamente, a horrível bruxa saltou da mesa, como um gato, e passando por trás das costas da Morte, ergueu a lâmpada, mostrou a parede da rocha:

—Entrai, homens brancos, entrai, se não tendes medo!

Olhamos, procurando a entrada. Só vimos a rocha sólida e negra.

—Gagula -disse eu com os dentes cerrados -não zombes de nós, que te mato!

—Mas a porta é aqui, homens brancos, a porta é aqui! -gania ela, com as costas apoiadas à muralha, onde roçava de leve uma das mãos descarnadas.

E então, à luz bruxuleante da lâmpada, vimos que um bocado da muralha, do feitio e tamanho de uma porta, se ia erguendo lentamente do solo, e desaparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a receber. Não pesava menos, aquela massa de pedra, de vinte a trinta toneladas -e era certamente movida por algum maquinismo, fundado num equilíbrio de peso, que uma mola, colocada num lugar secreto da muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, nesse momento, arrancar a Gagula o segredo da mola, que erguia a pedra! Pasmados, víamos a imensa massa subir, devagar, muito devagar até que desapareceu, deixando diante de nós um grande buraco negro.

Estava enfim aberto, para nós nele penetrarmos, o caminho que levava aos tesouros de Salomão. A emoção foi tão intensa, que eu, por mim, comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedaço de papel, o velho D. José da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a nós, as maiores riquezas que jamais um rei acumulou na terra? Poderíamos nós ver, tocar, agarrar e levar em sacos, o tesouro que fora de Salomão, maravilha dos livros santos? Assim parecia -e para isso bastava dar um passo.

Dei esse passo -e com explicável sofreguidão. Mas Gagula defendia ainda com os braços o buraco negro:

—Escutai, homens das estrelas! Escutai o que é necessário saber! As pedras que brilham, que vós ides ver, foram tiradas da cova circular não sei por quem, e guardadas aqui não sei por quem. A gente que, de geração em geração, tem vivido nesta terra, sabia da existência do tesouro, mas ninguém conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim aconteceu vir aqui um homem branco, talvez também das estrelas, que foi bem recebido e bem agasalhado pelo rei de então, que era o quinto, além, sentado à mesa de pedra. Com ele vinha uma rapariga cacuana; ambos percorreram estas cavernas; e sucedeu que, por acaso, essa mulher, que talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco pequeno de couro, onde ela levava de comer. Ao saírem, o homem agarrou na mão outra pedra, maior que todas...

E aqui a bruxa parou, com os olhos coruscantes cravados em nós.

—Continua! -exclamei eu, que escutara sem respirar. -O homem era D. José da Silveira. Que se passou mais?...

A velha feiticeira recuou espantada.

—Como lhe sabeis o nome? Ah! sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguém pode dizer o que sucedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para o chão o saco cheio de pedras, e fugiu, levando só agarrada a pedra maior que tinha na mão. É a que Tuala trazia no diadema. É a que tu deste a Ignosi!

—E ninguém mais entrou aqui?

—Ninguém. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum, porém, entrou, porque dizem profecias, já muito antigas, que aquele que aqui entrar morrerá antes de uma lua nova. Esta é a verdade, homens das estrelas. Entrai agora! Se eu não menti a respeito do homem que se chamava Silveira, vós encontrareis no chão, à entrada da porta, caído, o saco de couro cheio de pedras... E se as profecias mentem ou não, sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vós mais tarde o sabereis...

E sem mais, a hedionda criatura mergulhou no corredor tenebroso, erguendo ao alto a pálida lâmpada. Nós no entanto, olhávamos uns para os outros com hesitação, quase com medo -bem natural, de resto, em nervos abalados por tantas emoções estranhas. Foi John o mais corajoso:

—Acabou-se! Cá vou! Era ridículo ficarmos apavorados com as tonteiras de uma velha macaca! Adiante!

E avançou seguido por Fulata e por nós dous, em silêncio. Mas, dados alguns passos, ouvimos uma medonha praga. Era John que tropeçara, quase caíra por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula erguera mais a lâmpada:

—Não receeis!... São pedras que a gente outrora tinha aí acumulado para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece; não tiveram tempo!

E, com efeito, havia ali como umas obras interrompidas -pedras serradas e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha, semelhantes às que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei com reverência estas antiquíssimas ferramentas. No entanto Fulata, que desde a nossa entrada na caverna não cessara de tremer de medo, sentou-se sobre uma pedra, e declarou que desmaiava; não podia mais caminhar... Ali a deixamos, com o cesto de provisões ao lado, até que ela ganhasse alento. E seguimos. Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau, curiosamente pintada a cores, e toda aberta para trás. E no limiar da porta, lá estava, caído no chão -um pequeno saco de couro que parecia cheio de seixos!

—Então, brancos, que vos disse eu? -ganiu Gagula em triunfo, brandindo a lâmpada. -Olhai bem! Aí tendes o saco que o homem deixou cair! Aí está ainda, desde gerações! Que vos disse eu?

John ergueu o saco. Era pesado e tina.

—Santo Deus! Está cheio de brilhantes! -balbuciou ele quase com medo.

E com efeito, meus amigos! A idéia de um saco de couro repleto de diamantes -é de causar medo!

—Para diante, para diante! -exclamou o barão, com súbita impaciência. -Dá cá tu a lâmpada, bruxa!

Arrancou a luz das mãos de Gagula. E de tropel com ele, sem sequer pensar mais no saco que John atirara outra vez para o chão, transpusemos a porta. Estávamos dentro do tesouro de

Salomão.

Durante um momento, olhamos vagamente em redor, num silêncio apavorado. À luz débil e mortiça da lâmpada só percebemos, ao princípio, que o quarto ou câmara era escavado na rocha viva. Depois, a um dos lados, vimos distintamente alvejar, sobrepostos em camadas até à abóbada, uma porção imensa de dentes de elefante, de inigualável riqueza. Haveria talvez uns quinhentos ou seiscentos dentes. Só aquele marfim nos poderia tornar a todos ricos para sempre. Era desse espantoso depósito que Salomão fizera talvez o "grande trono de marfim", de que falam os livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com veneração, como relíquias sagradas! E o suor caía-me em bagas.

—Ali estão os diamantes -gritou John. -Trazei a luz!

Corremos para o recanto que ele indicava. E a lâmpada que o barão baixara mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito compridas, pintadas de escarlate. A tampa de uma, tão antiga que mesmo naquele ar seco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestígios de arrombamento. Pelo menos, no meio havia um buraco. Enterrei a mão através, e tirei-a cheia, não de diamantes, mas de moedas de ouro, como nós nunca víramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e palmeiras e torres em relevo no cunho.

—Justos céus! -murmurei sufocado. -Aqui devem estar milhões! Isto nem se acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as férias aos mineiros... Estaremos nós a sonhar?

—Mas os diamantes -exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto. -Onde estão, por fim, os diamantes? Só se o português os meteu todos no saco! Gagula, decerto, compreendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente:

—Além, além, onde é mais escuro! Lá estão os três cofres de pedra; dous selados, um aberto!

A sua aguda voz tomara um som cavo e sinistro. Mas quê!

Onde ia agora, diante de tão inverossímeis riquezas, o medo das profecias mortais? Era além, no recanto escuro? Para lá corremos, sondando com a lâmpada.

—Aqui, rapazes! -gritou John, na maior excitação. -Aqui. Oh meu Deus! São três arcas de pedra!

E eram! Eram três arcas de pedra que nos davam pela cintura, ocupando os três lados de uma espécie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas com imensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada à muralha. Baixamos a lâmpada para dentro. Não pudemos distinguir nada ao princípio, deslumbrados por uma vaga refração prateada que faiscava e tremia. Quando os olhos se habituaram àquele brilho estranho, vimos que a arca imensa estava cheia até ao meio de diamantes brutos! Mergulhei as mãos neles. Com efeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de diamantes! Não havia dúvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquele macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam sabonáceo ! Era uma arca cheia de diamantes!

Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. À frouxa luz da lâmpada eu via as faces dos meus amigos perfeitamente lívidas. E não havia em nós nenhuma alegria. Era um torpor, como se a alma nos ficasse bruscamente esmagada, sob a fabulosa infinidade daquela riqueza.

Eu murmurei, com um suspiro de criança:

—Somos os homens mais ricos deste mundo! John passava os dedos pelo queixo, numa distração quase melancólica:

—Eu sei lá!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro!

—E transportá-los? E transportá-los? -dizia o barão, abanando a cabeça.

De repente sentimos por trás uma risada que nos estarreceu. Era Gagula. Gagula que ia, vinha, às voltas, na sala escura, como um morcego, de braço estendido para nós:

—Hi! Hi! Hi! Aí está satisfeito o desejo vil dos vossos corações, homens das estrelas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares delas! E todas vossas! Agarrai nelas! Rolai por cima delas! Hi! Hi! Hi! Comei as pedras! Hi! Hi! Hi! Bebei as pedras!

Havia alguma cousa de tão grotesco naquela idéia de beber diamantes e comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, descaradamente. E por contágio, os meus companheiros desataram também a rir, a rir, às gargalhadas. E ali ficamos todos, de mãos nas ilhargas, perdidos a rir, a rir, a rir! Ríamos de quê? Nem sei. Ríamos dos diamantes -daqueles diamantes que, milhares de anos antes, os mineiros de Salomão tinham escavado para nós; que os agentes de

Salomão tinham armazenado para nós... Pertenciam a Salomão... Mas onde ia Salomão? Eram nossos, agora, os seus diamantes! Não tinham sido para Salomão, nem para Davi, seu pai, nem para nenhum rei de Judá! Não tinham sido para o atrevido e velho fidalgo português, nem para nenhum dos portugueses que vinham singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para nós! Só para nós! Para nós aqueles milhões e milhões de libras, que, neste século, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam tão poderosos como outrora Salomão. De fato éramos Salomões!

De repente o acesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os outros, estupidamente.

—Abri as outras arcas! -gania no entanto Gagula. -Estão também cheias! Todas as pedras são vossas! Fartai-vos, fartai-vos!

Em silêncio, com uma sofreguidão brutal, arremessamo-nos sobre as outras arcas, quebrando os selos, empuxando as tampas, num desesperado esforço! Hurra! Cheias também! Cheias até cima!... Não, a terceira estava quase vazia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, de um peso, de um tamanho inacreditáveis. Havia-as como ovos pequenos. As maiores, todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarelo. Eram "diamantes de cor", como eles dizem em Kimberley, nas minas. Tinha eu um destes na mão, enorme, quando, de repente, ouvimos gritos aflitos do lado do corredor. Era a voz de Fulata:

—Acudam! Acudam! Que a porta de pedra está a cair!

Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente:

—Larga-me, rapariga, larga-me!

—Acudam! Acudam! Ai Gagula que me matou!

Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos. À luz frouxa da lâmpada vimos a porta de pedra descendo, e, junto dela, Gagula e Fulata enlaçadas numa luta furiosa. De repente Fulata cai, coberta de sangue. Gagula atira-se ao chão, para fugir como uma cobra através da fenda que havia ainda entre o chão e a porta. Mete a cabeça e o ombros!... Justos céus! Era tarde. A pedra imensa apanha-a, e a criatura uiva de agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o corpo já preso. Vêm dele gritos e gritos, como eu jamais ouvira - até e há um som horrível de cousa esborrachada, e a porta imensa fica imóvel justamente fechada, quando nós, correndo sempre, esbarramos de roldão contra ela!

Isto durara quatro segundos -quatro séculos. Voltamos então para Fulata. A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer.

—Ah Boguã! (era assim que os cacuanas chamavam a John). Ah Boguã! -exclamou, sufocada, a bela criatura. -Gagula saiu fora. Eu não a vi, estava meio desmaiada. Então a porta começou a descer... Ela ainda entrou, foi olhar para vós... Depois tornava a sair, quando eu a agarrei, e ela me deu uma facada, e agora morro!

—Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! -gritava John. E como não podia fazer outra cousa, começou a dar-lhe beijos, longos beijos.

Ela sorria, arfando, com as pálpebras cerradas. Depois:

—Macumazã, estás aí?... Já mal vejo... Estás aí?...

—Estou, Fulata. Que queres?

—Fala por mim, Macumazã. Dize a Boguã que não me compreende bem. Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia; que o amo... Mas que morro contente, porque ele não se podia prender a uma rapariga como eu... O sol não se casa com a noite.

Teve um suspiro. A sua mão errante procurava em redor.

—Macumazã, estás aí? Dize-lhe que me aperte mais contra o peito, para eu sentir os seus braços. Assim, assim... Dize-lhe que um dia hei de tornar a vê-lo nas estrelas... Que hei de ir de estrela em estrela, à procura dele. Macumazã, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe ainda...Os lábios sorriam, sem falar. Estava morta. As lágrimas caíam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John.

—Morta! -murmurava ele, agarrando ainda as mãos de Fulata. -Já me não ouve! E não a tornar a ver, não a tornar a ver!

O barão disse então, devagar, e numa estranha voz:

—Não tardará, amigo, que a tornes a ver.

—Como assim?

—Oh homens, pois não percebestes ainda que estamos enterrados vivos?

Foi então, só então, que, pela primeira vez, compreendi o indizível horror do que nos sucedia! Sim, com efeito! A enorme massa de pedra estava fechada. O único ser que lhe conhecia o segredo jazia esborrachado por ela, sob ela. Forçá-la, só se tivéssemos ali massas de dinamite! Estava fechada para sempre! E nós ali fechados, detrás dela!

Durante momentos ficamos mudos, com os cabelos em pé, junto do cadáver de Fulata. Toda a força de homens, a coragem de homens, fugia de nós bruscamente. Éramos seres inertes. E compreendíamos agora todo o plano monstruoso de Gagula -as suas ameaças, as suas ironias, o seu sinistro convite para bebermos e comermos diamantes. Sim, era o que tínhamos para beber e comer! Desde Lu, decerto, ela viera planejando a traição -e só nos trouxera à caverna, para nos deixar lá dentro, morrendo junto dos tesouros que apetecêramos!

—É necessário fazer alguma cousa -exclamou o barão, numa voz rouca. -Ânimo, rapazes! A lâmpada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos achar o segredo, a mola que move a rocha.

Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre Fulata, rompemos a apalpar ansiosamente a porta e as paredes do corredor. Não achamos nada; em mais de uma hora de desesperada busca, que nos esfolou as mãos.

—A mola, se tal mola há, está do lado de fora -disse eu. -Foi por isso que Gagula saiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, é porque se queria certificar que estávamos bem entretidos com os diamantes... Malditos sejam eles, e maldita seja ela!

—De resto -lembrou o barão -se a infame bruxa tentou fugir pela fenda, é que sabia bem que, pelo lado de dentro, não podia levantar a rocha. Não há nada a fazer com a porta. Vamos ver outra vez, na câmara.

Levantamos então, com respeito e cuidado, o corpo de Fulata, fomo-lo colocar dentro, no chão, com os braços em cruz, junto das arcas de dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provisões. E sentados junto dos cofres de pedra, atulhados de riquezas que nos não podiam salvar, dividimos as provisões em doze pequenos lotes, que, a dous repastos por dia, nos poderiam sustentar a vida por dous dias. Além da caça fria e das carnes-secas, tínhamos duas cabaças de água.

—Bem, jantemos -disse o barão -que é talvez o nosso penúltimo jantar neste mundo.

Pouco era o apetite, naturalmente. Mas havia horas que estávamos em jejum, e aquela parca comida, molhada com avaros goles de água, reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperança. Começamos então a examinar sistematicamente as paredes da nossa prisão, contando com a remota possibilidade de que existisse, além da porta da rocha, outra saída. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas, batemos as muralhas, sondamos o solo, exploramos a abóbada. Ficamos exaustos sem achar nada. A lâmpada espirrava e amortecia. Quase todo o óleo estava chupado.

—Que horas são, Quartelmar? -perguntou o barão.

Tirei o relógio. Eram seis horas. Tínhamos entrado às onze na caverna.

—Infandós há de dar pela nossa falta -lembrei eu. -Se nos não vir voltar esta noite, decerto nos vem procurar...

—E então? -exclamou o barão. -De que serve? Infandós não conhece o segredo da porta; ninguém o conhecia senão Gagula. Ainda que conhecesse a porta, não a podia arrombar. Nem todo o exército dos cacuanas, com as suas azagaias, pode furar cinco pés de rocha viva. Ninguém nos pode salvar senão Deus!

Houve entre nós um longo, grave silêncio. De repente a luz flamejou, mostrando, num relevo forte, todo o interior da câmara, o grande monte dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo da pobre Fulata estirado diante delas, o saco de couro cheio de diamantes, a vaga refração que saía dos cofres de pedras abertos, e as lívidas faces de nós três, ali sentados a um canto, à espera da morte. Depois a luz bruxuleou e morreu.