As minas do rei Salomão/XVII

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As minas do rei Salomão por Henry Rider Haggard, traduzido por Eça de Queirós
Capítulo XVII: Enfim!


Agora resta-me contar a maior maravilha desta maravilhosa jornada. Tão estranha, quase inverossímil é, que, para não lhe aumentar o ar de romance que ela já de per si tem, preciso narrá-la com a máxima brevidade e máxima simplicidade.

Foi isto. Na manhã seguinte, no oásis, andava eu passeando ao comprido de uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, num frondoso outeiro à sombra de figueiras, com a fachada voltada para a corrente -vejo uma confortável cabana construída à maneira cafre, mas com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo. E quando eu estava pasmado para esta casota humana perdida num oásis do deserto, eis que a porta se abre, e aparece, coxeando, encostado a um pau, todo vestido de peles e com uma imensa barba até à cintura, um homem branco! Ficamos a olhar esgazeadamente um para o outro.

Justamente nesse momento o barão e John apareceram. O homem crava os olhos em nós, com um ar quase aflito. De repente larga a correr, como um coxo pode correr, aos tropeções. Esbarra, rola no chão. O barão acode. Ergue o homem. E grita:

—Santo Deus! É meu irmão Jorge!

Quase tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado pelos moldes do teatro antigo. Mas foi assim.

E ainda mais! Ao alvoroço do barão, às exclamações que seguiram, outro homem saiu da cabana, também vestido de peles, com uma espingarda na mão. Ao dar com os olhos em mim, larga a arma, leva as mãos à carapinha:

—Oh Macumazã! Oh Macumazã!... Não me conheces? Sou Jim! Sou Jim! Aquele papel que tu me deste para o patrão, perdi-o... Estamos aqui há dous anos.

E o pobre Jim rojava-se no chão diante de mim, chorando e rindo, numa alegria furiosa.

Com efeito, havia dous anos que o irmão do barão e o seu servo Jim viviam naquele oásis. Foi no nosso acampamento, nessa tarde, que Jorge Cúrtis nos contou, lentamente, toda a sua história. Dous anos antes partira da aringa de Sitanda, como nós, para atravessar o deserto, e procurar as minas de diamantes para além das montanhas. Por informação, porém, que lhe deram uns caçadores de avestruzes que felizmente encontrara, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquele que seguira outrora o velho D. José da Silveira, e que nós seguiríamos guiados pelo seu roteiro. Esse era caminho através do deserto, mas entremeado de oásis. Assim tinham chegado a este, o maior de todos, e estava junto das Montanhas de Salomão, quando lhe aconteceu uma grande desgraça. No dia mesmo em que aqui parara, estava sentado junto do rio, por baixo de umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel de abelhas mansas. De repente, a um esforço qualquer que Jim fez em cima, um dos penedos rola e vem cair sobre uma perna do pobre Jorge, esmigalhando-lha horrivelmente! Desde esse dia não pôde mais andar. E, muito naturalmente, preferiu ficar ali no oásis, onde tinha água, caça e fruta -do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente morreria.

E ali ficou dous anos, como um Robinson Crusoé. Havia justamente dias que decidira mandar Jim para trás, à aringa de Sitanda, a buscar socorro. Mas quase tinha certeza que Jim não voltaria...

—E sois vós agora, que apareceis de repente. Justamente tu, irmão! E tu, meu bom John!... E o Senhor Quartelmar, muito bem me lembro de o ter encontrado em Bamanguato! É extraordinário! E foi tudo a misericórdia de Deus!

Nessa noite também lhe contamos as nossas aventuras.

Quando eu lhe mostrei um punhado de diamantes, o homem empalideceu de espanto:

—Santo Deus! Ao menos o que sofrestes não foi em vão! Enquanto que eu!...

Esta triste exclamação tornou-me pensativo. E desde logo decidi partilhar com ele um lote daquelas pedras, que a ele tinham trazido uma tão longa desgraça. E aqui acaba esta história. A nossa travessia do deserto foi extremamente trabalhosa. Não sofremos tanto da sede, porque, segundo o novo roteiro indicado pelos caçadores de avestruzes, encontramos a espaços, pequenos e frescos oásis. Mas o pobre Jorge Cúrtis, que mal podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo -e, por assim dizer, tivemos de o transportar através do deserto. Enfim, atingimos a arroga de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixáramos as nossas armas e bagagens, ficou indignado de nos ver voltar, vivos e sãos, para as reclamar. E seis meses depois estávamos jantando confortavelmente aqui, na minha casa em Durban, à sombra das laranjeiras.

Quando eu acabava justamente de escrever esta última página das nossas aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornais na mão. É o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do barão, que eu transcrevo, porque dá exatamente a conclusão da minha história:

"Solar de Braley -Yorkshire
Meu caro Quartelmar.
Só algumas breves linhas para lhe dizer que meu irmão Jorge, John e eu, chegamos à Inglaterra todos três perfeitamente. Apenas deixamos o paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro trem. Não imagina o Quartelmar que elegante nos apareceu logo na manhã seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito, coitado, na pobre Fulata.
E agora, em quanto a negócios. Levamos os diamantes aos melhores joalheiros de Londres, aos Streeter. Quase tenho vergonha de dizer em quanto eles os avaliaram. É uma soma descomunal. Está claro que eles não podem dizer com exatidão, porque nunca apareceram no mercado pedras deste tamanho em tal quantidade. Em quanto a comprá-los eles, está fora de questão. Apesar de ser uma forte casa, não poderia nunca reunir semelhantes somas. Aconselharam-me que os vendesse em pequenos lotes, a diferentes joalheiros, e devagar, para não inundar o mercado. Um desses lotes, o que o Quartelmar tão generosamente reservou para meu irmão, estão eles todavia resolvidos a comprar por cento e oitenta mil libras.
O que o Quartelmar deve fazer, agora que está tão rico, é vir para Inglaterra, e comprar uma propriedade ao pé da minha. O melhor seria vir imediatamente para passar comigo este Natal. Tenho cá por essa ocasião o nosso John. A respeito de seu filho Henrique, posso dizer que está bom. Esteve aqui uns dias comigo a caçar. Gosto dele. Pregou-me uma carga de chumbo numa perna; extraiu ele próprio os chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver sempre, em todas as partidas de caça, um estudante de Medicina.
Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu
HENRIQUE CÚRTIS".

Hoje é sábado. Há um paquete para Inglaterra além de amanhã. Creio, na realidade, que vou partir nele... Já tenho saudades do meu rapaz. E, depois, quero vigiar eu próprio a publicação destas memórias.