As organizações no ciberespaço/I

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As organizações no ciberespaço: o caso da estruturação e da manutenção de uma comunidade virtual não-monetária
por Pietro Fornitano Roveri
I — Introdução


I INTRODUÇÃO


"O prudente faz bem a si, o virtuoso fá-lo aos homens."

Voltaire


A sociedade atual está impregnada por uma série de conceitos sociais, políticos e econômicos que parecem divergir quando há o intuito de analisar suas organizações sob um mesmo feixe teórico, compreendê-las em um único escopo parece ser algo complexo e demanda um esforço que caminha por diversas áreas do conhecimento humano. Para tornar a tarefa ainda mais complicada, na sociedade do início do século XXI emergem modelos organizacionais que transbordam ainda mais a capacidade das teorias existentes. Em toda a história da humanidade, sempre que uma tecnologia nova surge e revoluciona o comportamento humano parece ocorrer um certo esgotamento nas possibilidades de compreensão dos fenômenos referentes ao novo horizonte. Entretanto, é preciso ser cuidadoso ao verificar um fato que se esconde por trás de uma nova tecnologia, pois não significa necessariamente que se trata de um fato novo. Para tanto, o presente estudo realiza uma exploração dentre diversas concepções sobre os modelos organizacionais com o propósito de desbanalizar ícones que possam turvar a visão das organizações em face de uma sociedade com relacionamentos cada vez mais complexos. Nesse contexto, um primeiro passo para observar as organizações atuais pode ser analisar exatamente as que menos se enquadram nos modelos pré-concebidos e ainda que não seguem — aparentemente — as noções estipuladas nos ambientes comuns.

Todavia, quais seriam as noções estipuladas nos ambientes comuns para as organizações? A resposta não é simples e nem será o objeto do estudo, porém um direcionamento inicial implica analisar algumas forças que disputam o cenário sócio-político-econômico atual. Com esse norte estabelecido é possível que haja uma maior facilidade na compreensão das organizações. Uma primeira força que se observa é da esfera pública, "uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posições e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos." (HABERMAS, 2003, p.92) Não há intenção em dizer que a esfera pública se trata de um modelo de organização, é mais provável que seja um reflexo da organização ou das organizações, pois para Bobbio (1987), qualquer sociedade organizada que possua uma esfera pública é caracterizada por relações de subordinação entre governantes e governados, entre quem detêm o poder e quem obedece ao poder. É nesse ambiente que se dá o controle do poder político por parte do público. Portanto, segundo o Habermas, em sociedades complexas a esfera pública forma uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo da vida e sistemas de ação especializados em termos de funções de outro lado. É a dimensão onde os assuntos públicos são discutidos pelos atores públicos e privados, tal processo culmina na formação da opinião pública que, por sua vez, age como uma força oriunda da sociedade em direção aos governos no sentido de pressioná-los de acordo com seus anseios.

Os atores privados quando organizados podem ser identificados como a sociedade civil, uma outra força a ser observada, pois possui seu núcleo institucional formado por associações e organizações livres, não estatais e não econômicas e baseiam suas estruturas comunicacionais da esfera pública nos componentes sociais do mundo da vida. É formada por movimentos, associações e organizações que captam os ecos dos problemas sociais privados, condensam-nos e os transmitem para a esfera pública política. No atual contexto da inovação tecnológica, a sociedade civil utiliza-se dos canais de comunicação livres que emergem no ciberespaço para manifestar suas opiniões referentes às questões públicas. O conjunto de opiniões expostas e confrontadas nesse ambiente comunicativo digital poderá gerar a opinião pública que pressionará os governos em função do interesse desta sociedade. É possível analisar o ciberespaço como sendo um ambiente que conecta, cataliza e amplifica comportamentos inerentes aos seres racionais no intuito de satisfazerem suas necessidades de forma individual ou coletiva. Ainda observando a força da sociedade civil e seu papel como um ícone a ser analisado para estudar as organizações, esta defronta-se com cenário paradoxal entre suas características políticas iniciais - que advém de valores solidários e cooperativos — e a força do modelo capitalista — que a entrega aos interesses individualistas e competitivos. Outros elementos que aprofundam a questão são a globalização, que condiciona as economias capitalistas mundiais aos mesmos valores da hegemonia neoliberal, e o uso intensivo da tecnologia, apontado como um dos principais fatores para esta consolidação. Entretanto, o ciberespaço acrescenta novas dimensões e potencialidades ao projeto democrático, "os destinos da democracia e do ciberespaço estão intimamente ligados, pois ambos implicam aquilo que a humanidade tem de mais essencial: a aspiração à liberdade e à potência criativa da inteligência criativa." (LEVY, 2002, p.32)

Com um outro foco de análise, de acordo Bauman (2003), toda unidade coletiva precisa ser construída, e um acordo "artificialmente" produzido, pois é a única forma disponível para tal unidade. Porém, o acordo nunca ficará imune à reflexão, contestação e discussão; quando muito atingirá um patamar de "contrato preliminar", um acordo que precisa ser periodicamente renovado, sem que qualquer renovação garanta a renovação subseqüente. De acordo com Bobbio (1987), o contrato é a maneira com que os indivíduos regulamentam suas relações no estado de natureza, ou seja, no estado onde não há um poder público soberano instituído. Ainda nesse modelo, em virtude da enorme capacidade advinda da tecnologia eletrônica, podem ser criadas comunidades que proporcionam uma chance de participação e um foco compartilhado de atenção a uma multidão indeterminada e de espectadores fisicamente remotos. Para Bauman (2003), uma comunidade dos e para os indivíduos precisa ser tecida em conjunto a partir do compartilhamento e do cuidado mútuo; uma comunidade de interesse e responsabilidade para com os direitos iguais dos seres humanos e da ação em defesa desses direito.

Sob a ótica das organizações em comunidade e suas facetas adquiridas em ambientes digitais, o professor Yoschai Benkler (2002) observa o surgimento de um novo modelo econômico de produção baseado nas organizações colaborativas. Em suma, são organizações descentralizadas com relações fundamentadas no ciberespaço e que produzem bens não-rivais através do esforço coletivo e voluntário de seus membros, incentivos não-econômicos levam pessoas de todo o mundo a dedicar seu tempo a projetos colaborativos. Alguns o fazem por achar a atividade divertida, outros pela crença em estar retribuindo conhecimento à sociedade e outros, ainda, por se sentirem parte de uma iniciativa global. Segundo Kollock (1999), os fatores que facilitam ou dificultam o surgimento de projetos ou comunidades cooperativas se baseia na troca de presentes (gifts), no caso das comunidades virtuais são informações, serviços de ajuda ou fontes de conhecimentos. Essas trocas se caracterizam por serem inalienáveis, sem haver necessidade de reciprocidade e por tornarem-se bens públicos, na medida em que são partilhadas em locais acessíveis ao restante dos freqüentadores da comunidade. Entretanto, deve haver alguma motivação para que ocorra a participação de um indivíduo neste ciclo. Neste sentido, Kollock levanta quatro fatores fundamentais de motivação: reciprocidade, prestígio, incentivo social e incentivo moral. Esses fatores implicam num modelo de produção que foi denominado por Benkler como "peer production", ou produção por pares. A produção por pares possui vantagens em relação às organizações econômicas tradicionais, pois permite a conjunção de grupos maiores de pessoas em atividades de pesquisa, colaboração e combinação em níveis que não seriam alcançados.

Nesse sentido, o trabalho parte da seguinte questão problema:
— Quais são as características de uma organização social que surge e se fundamenta no ciberespaço em consonância com as características das organizações já concebidas e estudadas pela bibliografia existente?

No intuito de responder à questão problema, foi identificado um dos expoentes organizacionais que se baseia nas novas tecnologias digitais e suas possibilidades, a Wikipédia. É atualmente a maior enciclopédia digital em número de verbetes escritos e sua credibilidade aumenta com o amadurecer de seus colaboradores, os chamados wikipedistas. Assim como qualquer enciclopédia, seu objetivo fundamental é reunir e organizar o conhecimento da humanidade, entretanto de forma livre e aberta.

Portanto, para observar a questão problema é preciso remeter ao objetivo geral do trabalho:
—analisar as característica de estruturação e de manutenção de uma organização não- monetária com relações e comunicações baseadas fundamentalmente no ciberespaço, a Wikipédia lusófona.

O norteamento teórico é de fundamental importância para o desenvolvimento do trabalho, pois fornece base para todo o restante da pesquisa, nesse sentido foi direcionado previamente em conjunto com a elaboração do restante do método do trabalho no capítulo II -- Método da pesquisa. O método utilizado para a realização da pesquisa de campo pode ser descrito pelo uso de uma pesquisa de caráter qualitativo, onde ocorre inicialmente uma exploração por informações em bibliografias e diretamente no objeto. Após essa fase ocorre a definição do uso do método de estudo de caso aplicado por esforços de observação direta e seguido da aplicação de entrevista e questionário aberto como ferramentas de coleta para a obtenção de informações mais específicas. As entrevistas foram realizados através de plataforma eletrônica após contato com os membros da comunidade.

Para entender melhor o funcionamento deste tipo de organização foi construída a rede teórica que serve para elaborar um panorama geral em relação à sociedade e suas peculiaridades, ainda ocorre uma contextualização com as noções advindas das teorias sobre as novas tecnologias digitais que servirá de estrutura e norteamento de todo o trabalho de pesquisa. Em III — O ciberespaço e a sociedade civil ocorre a apresentação das noções relativas à esfera pública e suas implicações à sociedade com a formação de uma opinião pública. As noções da participação do cidadão em face ao projeto democrático são apresentadas no capítulo IV — O ciberespaço e o projeto democrático. Por fim, há uma análise dos pactos existentes nas organizações e um novo modelo de produção comunitária no capítulo V — O pacto das comunidades na cibercultura. Em todos os capítulos há uma contextualização simultânea das concepções analisadas em face do uso das novas tecnologias digitais. Em virtude da ausência de uma teoria abrangente sobre as organizações sociais no ciberespaço que corroborasse com as teorias das organizações existentes, optou-se por realizar esta análise crítica inicial da Wikipédia lusófona sem enquadrar o objeto em nenhuma concepção existente, para tanto é exposta uma pesquisa exploratória inicial no capítulo VI — A organização dos pares na Wikipédia.

As informações obtidas através das entrevistas são apresentadas em conjunto de comentários categorizadores e elencadores de pontos importantes a serem salientados, tais ações ocorrem no capítulo VII — A Wikipédia pelos wikipedistas, entretanto não é realizada a análise mais complexa das informações, pois isso ocorreu no momento das considerações finais do trabalho.

Por fim, São levantadas as características que possibilitam a estruturação e a manutenção da organização social no ciberespaço, a Wikipédia. Porém, ao realizar uma análise mais complexa das teorias existentes sobre tais organizações surge um vórtice teórico que não permite adequar os modelos organizacionais do ciberespaço às organizações já estabelecidas e estudadas pela ciência. Portanto, lança-se mão de uma nova proposta de definição para as organizações como um todo, independente de sua localização espacial. Tal modelo se propõe a analisar as organizações sob a ótica do trabalho que a mantém, pois esse parece ser um ponto em comum entre a maioria dos modelos organizacionais concebidos. Entretanto, é apenas uma proposição de análise que possui o escopo da pesquisa como limitação para qualquer expansão de teoria.