Aventuras de Alice em Baixo da Terra/Capítulo II

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Capítulo II
por Lewis Carroll
Traduzido por Erick Soares3



De fato era um grupo curioso que se reuniu no banco—pássaros arrastando penas, animais com pelos comprimidos—todos pingando, misturados e desconfortáveis. Obviamente a primeira pergunta era como se secar: eles fizeram uma consulta e Alice mal se surpreendeu ao perceber que já estava ficando conhecida dos pássaros, como se ela os conhecesse por toda a vida. Além disso ela teve uma longa discussão com a arara que por fim ficou de mau humor e só falava: “Sou mais velho que você, então sei mais” e Alice não ia admitir sem saber a idade dele, mas ele se recusava completamente a falar sua idade. Então, não havia mais nada a se falar.

Por fim o camundongo, que parecia ter alguma autoridade entre eles, chamou: “Sentem-se todos vocês e me ouçam! Logo vou secá-los!” Eles se sentaram, tremendo, em um grande círculo com Alice no meio que tinha seus olhos fixados no camundongo de forma ansiosa, pois ela tinha certeza que se griparia se não se secasse rápido.

“Ahem!”, disse o camundongo com um ar de autoimportância. “Estão prontos? Isso é o melhor que sei para nos secarmos. Silêncio, por favor!”

“William o Conquistador, cuja causa foi favorecida pelo Papa, foi logo submetido pelos Ingleses, que queriam líderes e haviam sido muito acostumados com usurpação e conquista. Edwin e Morcar, os ouvidos de Mercia e Northumbria—"

“Ugh!”, disse a Arara numa tremida.

“Licença?”, disse o camundongo franzindo a testa, mas bem educado, “Falou algo?”

“Não!”, disse a Arara de forma precipitada.

“Achei que tivesse falado, mas vou continuar. ‘Edwin e Morcar, os ouvidos de Mercia e Northumbria, declararam para ele; e até Stigand, o arcebispo patriota de Canterbury achou que ela melhor ir com Edgar Atheling conhecer William e oferecê-lo a coroa. A conduta de William foi primeiro moderada—como você está ficando agora, querida?” Disse o camundongo, virando para Alice enquanto falava.

“Tão molhada quanto nunca,” disse a pobrezinha, “não parece que está me secando.”

“Nesse caso,” disse o Dodô solenemente, levantando seus pés, “Digo que a reunião é encerrada para a necessidade imediata da adoção de medidas mais energéticas—"

“Fale em Inglês!” disse o pato. “Não faço ideia do significado da metade dessas palavras e duvido que você saiba!” E o pato quacou num riso confortável. Alguns dos outros pássaros também riram.

“Só quis dizer,” disse o Dodô de forma um tanto ofendida, “que conheço uma casa aqui perto onde podemos deixar a jovenzinha e os demais secos e então poderíamos confortavelmente ouvir a história que acho que você é bom o bastante para prometer nos contar.” ele disse curvando-se gravemente para o camundongo.

O camundongo não teve objeções e todo mundo foram para a beira do rio (já que a piscina estava começando a sair do salão e a borda estava franjada com juncos e miosótis) de forma lenta, com o Dodô liderando o caminho. Depois de algum tempo, o Dodô ficou impaciente e, fazendo o Pato juntar todo mundo, andou de forma mais rápida com Alice, a Arara e a Aguieta e logo chegaram num pequeno chalé onde eles sentaram perto do fogo e cobertos por cobertores até o resto do pessoal chegarem e eles já estavam secos outra vez.

Eles se sentaram num grande círculo e imploraram para o Camundongo começar sua história.

“Minha história é longa e triste!” disse o camundongo, virando para Alice e suspirando.

“Com certeza é uma longa cauda,” ela disse olhando maravilhada para a cauda do camundongo, que estava ao redor de todo mundo, “mas porque a chamar de triste?” e ela ficou pensando sobre isso enquanto o camundongo falava, então sua ideia foi algo mais ou menos assim:

Nós vivianos em baixo do tapete
       Quentes e confortáveis e gordos
                  Mas um ai, + que
                           Era o gato!
                                Para nossa alegria
                                uma obstrução, em
                                nossos olhos uma
                           neblina, Em nossos
                      corações um pulo
                 Era o cachorro!
            Quando o
        gato foi embora,
       Então
      o camundongo
       vai
        brincar
         Mas, infelizmente!
            um dia, (Então eles dizem)
                    Vieram o cachorro e
                                     o gato, Caçando
                                                por um
                                                 rato,
                                          Esmagaram
                                      o camundongo
                                  e achataram,
                        Cada
                          um
                         enquanto
                          ele
                           sentava.
                       Embaixo
                                           do tapete,
                                                Quente,
                                      + confortável,
                              + gordo—
       Pense nisso!


“Você não está prestando atenção!”, o camundongo disse para a Alice de forma severa. “No que você está pensando?”

“Peço desculpas,” ela pediu de forma humilde. “você chegou na quinta dobra?”

Não cheguei!” gritou o camundongo de forma irritada.

“Um !” ela disse, sempre pronta para ser útil e sempre prestando atenção em si mesma, “Oh, deixe-me ajudar a desfazer isso!”

“Não vou fazer nada disso,” disse o camundongo se levantando e se afastando, “você me insulta com tanta bobagem!”

“Mas eu não quis isso!” implorou a pobre Alice, “Mas você se insulta muito fácil, sabe disso.”

O camundongo apenas rosnou em resposta.

“Por favor, volte e termine sua história!” Alice o chamou e todos os outros se juntaram num coro: “Sim, por favor, volte!”. Mas o camundongo somente chacoalhou suas orelhas se afastando com pressa até sumir de vista.

“Mas que pena que ele não fique!”, suspirou a Arara e uma velha Carangueja aproveitou para dizer à sua filha, “Ah, minha querida! Que esta seja uma lição de nunca perder a sua calma!” “Se acalme Mãe!”, disse a pequena Carangueja um pouco mal-humorada. “Você é o bastante para desafiar a paciência de uma ostra!”

“Gostaria de ter a nossa Dinah aqui!”, Alice disse para ninguém em particular. “Ela logo o traria de volta!” “E quem é a Dinah, se eu puder perguntar?” disse a Arara.

Alice respondeu com vontade, pois ela estava sempre pronta para falar de sua gata. “Dinah é a nossa gata e ela é uma danada para pegar camundongo, você mal pode imaginar! E oh! Gostaria que você visse ela indo atrás dos pássaros! Pois ela vai comer um passarinho logo que colocar os olhos nele!”

Essa resposta causou um bom impacto no grupo: alguns dos pássaros correram de uma vez; uma velha pega começou a se enrolar com cuidado, falando: “Eu devia estar indo para casa; a noite não é boa para minha garganta.” E um canário chamou seus filhos numa voz tremida: “Meus queridos, saiam de perto dela. Ela não é boa companhia!” Sob vários pretextos, todos foram embora e Alice logo ficou sozinha.

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Ela sentou-se por algum tempo triste e silenciosa, mas não demorou até que recuperasse seu espírito e voltasse a falar consigo mesma como sempre: “Gostaria que eles tivessem ficado por mais tempo! Eu já estava fazendo amizade com eles—de fato a Arara e eu já eramos quase como irmãs! Da mesma forma que com a Aguiazinha! E então o Pato e o Dodô! Como o Pato cantou bem para nós enquanto saíamos da água: e se o Dodô não conhecesse o caminho até aquele pequeno chalé, eu não sei como teríamos nos secado—" e não se sabe por quanto tempo mais ela teria falado dessa forma, se não tivesse ouvido o som de passos.

Era o coelho branco voltando outra vez e olhando de forma ansiosa enquanto andava, como se tivesse perdido algo e ela o ouviu falar para si mesmo “A Marquesa! A Marquesa! Por minhas patas! Por meus pelos e bigodes! Ela vai me executar, estou tão certo disso quanto furões são furões! Onde devo ter os derrubado?”Alice imaginou que ele tivesse procurando pelo buquê e pelo par de luvas brancas e ela começou a procurar por eles, mas eles não estavam a vista—tudo parecia ter mudado desde quando ela nadou pela piscina e sua caminhada ao longo da costa com sua franja de juncos e miosótis e a mesa de vidro e a portinha haviam sumido.

Logo que o coelho notou a Alice, ele ficou olhando de forma curiosa e falou de uma vez num tom bravo: “Por que, Mary Ann! Por que você está aqui fora? Vá para casa agora e dê uma olhada na minha penteadeira por minhas luvas e buquê e os traga qui, o mais rápido que puder, entendeu?” E Alice ficou tão assustada que ela correu de uma vez, sem falar nada, na direção que o coelho apontou.

Ela logo se encontrou na frente de uma casinha bonita que na porta tinha uma placa de latão brilhante com o nome ‘’’C. BRANCO, ESQ’’’. Ela entrou e correu escadas acima, por medo de encontrar a verdadeira Mary Ann e ser expulsa da casa antes de encontrar as luvas: ela sabia que um par foi perdido no salão, “Mas é claro,” pensou Alice, “que tem mais deles nessa casa. Que estranho é receber ordens de um coelho! Imagino que logo Dinah também vai me mandar ordens!” E ela começou a imaginar os tipos de coisa que aconteceriam: “Senhorita Alice! Venha aqui e se prepare para sua caminhada!” “Indo num minuto! Mas primeiro eu tenho de ficar olhando esse buraco de rato até Dinah voltar e ver que o rato não escapou—" "acontece que não acho,” continuou “que vão deixar a Dinah em casa se ela começar a mandar nas pessoas dessa forma!”

Nessa hora ela se encontrou num quarto pequeno e apertado com uma mesa na janela no qual havia um espelho e (como Alice esperava) dois ou três pares de luvas de crianças: ela pegou um par de luvas e já estava prestes a sair do quarto quando viu uma pequena garrafa que estava perto do espelho. Dessa vez não havia nenhuma marca escrita “beba-me” mas ainda assim ela abriu e colocou em seus lábios:

“Sei que algo interessante vai acontecer,” ela disse para si mesma, “sempre que bebo ou como algo, então vou ver o que esta garrafa faz. Espero que me faça crescer, pois já estou cansada de ser essa coisinha pequena!” De fato funcionou e ainda antes do esperado; antes de ter bebido metade da garrafa ela se viu sendo pressionada contra o teto e parou a tempo de não quebrar o pescoço. Colocou a garrafa no chão dizendo para si mesma:

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“já é o bastante—espero que não cresça mais—gostaria de não ter tomado tanto!”

Mas já era tarde demais: ela foi crescendo e crescendo e logo ela teve de se ajoelhar. Noutro minuto já não tinha espaço para isso e ela tentou se deitar com um ombro contra a porta e um braço ao redor da cabeça. Mesmo assim ela foi crescendo e como ultima ideia ela colocou um braço fora da janela e um pé na chaminé e disse: “Agora já não posso fazer mais nada—o que vai ser de mim?”

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Felizmente para Alice, a garrafa mágica já tinha feito seu efeito total e ela parou de crescer: ainda assim era bem desconfortável e já que não parecia ter chance de sair do quarto, não é de se surpreender que ela tenha ficado triste. “Era melhor em casa,” pensou a pobrezinha, “quando não se ficava maior e nem menor e recebendo ordens de camundongos e coelhos—eu quase desejaria que não tivesse ido naquele buraco de coelho, e ainda assim, ainda assim—esse tipo de vida é bem curiosa. Imagino o que aconteceu comigo! Quando eu costumava ler contos de fadas, imaginava que esse tipo de coisa nunca aconteceria, mas olha só onde me enfiei! Deverá existir um livro sobre mim! E quando eu crescer, escreverei um—mas já estou crescida.”, ela disse num tom triste. “Pelo menos não tem mais espaço aqui para crescer”. “Mas então,” pensou Alice, “eu nunca vou ficar mais velha do que agora? Isso é até que bom de certa forma—nunca ser uma mulher velha—mas então—sempre ter lições para aprender! Oh, eu não devia gostar disso!”

“Oh sua boba!” ela recomeçou, “Como você iria aprender algo aqui? Mal tem espaço para você e não teria espaço para nenhum livro!” Então ela continuou, ficando de um lado e então de outro fazendo uma conversa daquelas consigo mesma, mas depois de alguns minutos ela ouviu uma voz vindo de fora, o que a fez parar para escutar.

“Mary Ann! Mary Ann!” disse a voz. “Dê-me as luvas nesse momento!” Então veio um som de batidas de pés nas escadas: Alice sabia que era o coelho vindo procurar ela e ela tremeu de forma que sacudiu a casa, até esquecendo que agora ela estava umas mil vezes maior do que o coelho e não tinha motivo para temê-lo. O coelho chegou na porta e tentou abri-la, mas já que abria para dentro e o ombro da Alice estava contra ele, a tentativa foi um fracasso. Alice ouviu-o dizer para si mesmo: “Então vou dar a volta e entrar pela janela.”

Isso você não vai!”, pensou Alice e, depois de esperar ela ouviu o coelho abaixo da janela e

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bateu com sua mão. Ela não segurou nada, mas ouviu um pequeno grito seguido por uma queda e vidro quebrando, do qual ela concluiu que ele havia caído numa armação de pepino ou algo do tipo.

Depois veio uma voz brava—do coelho—“Pat, Pat! Onde está você?” E então uma voz que ela nunca ouviu antes: “Estou aqui! Procurando por maçãs, sua honra!”

“Procurando por maçãs, de fato!” disse o coelho de forma irritada. “Aqui, venha me ajudar com isso!” — Som de mais vidro quebrando. “Agora, diga-me Pat, o que está saindo da janela?”

“Certeza que é um braço, sua honra!” (Ele pronunciou “brraço”.)

“Um braço seu ganso! Quem já viu um braço desse tamanho? Enche toda a janela, não vê?”

“Claro que sim, sua horta, mas é um braço tudo isso.”

“Bem, não há nada o que fazer: tire isso dali!”

Depois disso teve um longo silêncio e Alice só pode ouvir alguns sussurros uma hora ou outra, tais como: “Tenho certeza de que não sei o que é!”, “Faça como te digo, seu covarde!” e no fim ela sacudiu sua mão outra vez e acertou algo no ar. Dessa vez teve dois pequenos gritos e mais vidro quebrando—"Devem haver muitas armações de pepino!” pensou Alice. “Me pergunto o que vão fazer depois! Quanto me tirar da janela, gostaria que eles pudessem! Tenho certeza de que eu não quero ficar aqui por mais tempo!” Ela esperou por algum tempo sem ouvir mais nada. Então veio o barulho de pequenas rodas de carroça e o som de várias vozes falando ao mesmo tempo. Ela entendeu as palavras: “Onde está a outra escada?—Pois eu não tive de trazer a outra, já que o Bill a pegou—aqui, coloque-a nesse cando—não, amarre primeiro—ainda não está alta o bastante—oh, vai funcionar—aqui, Bill! Pegue esta corda—o telhado vai aguentar?—não se importe com esse estado—oh, está caindo! Cuidado com a cabeça!—“(uma batida alta) “agora, quem fez isso?—Foi o Bill, imagino—Quem vai descer na chaminé?—Nem, eu não! Você faça isso!—Isso eu não vou—Bill precisa descer—Aqui, Bill! O mestre diz que você precisa descer na chaminé!”

“Oh, então Bill vai descer pela chaminé, não é?”, Alice disse para si mesma. “Porque eles estão jogando tudo em cima do Bill! Eu não ficaria no lugar dele por nada: a lareira é bem apertada, mas eu acho que poderia dar um chute!”

Ela esticou a chaminé da melhor forma possível e esperou até

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ouvir um pequeno animal (ela não conseguiu adivinhar o tipo) se arrastando e lutando na chaminé perto e acima dela. Então, dizendo à si mesma: “Esse é o Bill”. Ela deu um chute e esperou para ver o que aconteceria.

A primeira coisa foi um coro de “Ai vai o Bill!” seguida pela voz do coelho: “Você ai na cerca, pegue-o!”. Então silêncio, outra confusão de vozes: “Como vai, velho amigo? O que aconteceu? Diga-nos.”

Por fim veio uma voz estridente e fraca (“É o Bill.” pensou Alice) que disse: “Bem, mal sei—estou bem envergonhado—algo veio como uma caixa surpresa e no próximo minuto estava voando feito um foguete!” “Exatamente assim, velho amigo”, disseram os demais.

“Devemos queimar a casa!” disse o coelho, e Alice falou o mais alto possível: “Se você fizer, vou mandar a Dinah para cima de você!” Isso causou outro silêncio, e enquanto Alice pensava: “Mas, como vou trazer a Dinah aqui?” ela descobriu para sua felicidade que encolhia: logo ela podia sair da posição desconfortável em que ela esteve deitada e em dois ou três mais minutos ela estava de novo com sete centímeros de altura.

Ela correu da casa o mais rápido que podia e encontrou um pequeno grupo de animais esperando no exterior—porquinhos-da-índia, camundongos brancos, esquilos e “Bill” um pequeno lagarto verde, que estava sendo segurado por um dos porquinhos-da-índia, enquanto outro estava dando algo parecido com uma garrafa. Eles correram até ela no momento que apareceu, mas Alice correu mais rápido do que podia e logo se encontrou numa floresta densa.

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