Bom Crioulo/III

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Bom Crioulo por Adolfo Caminha
Capítulo III


À calmaria equatorial da véspera sucedera, felizmente, uma viração fresca e reparadora, crispando a larga superfície d’água, enchendo as velas e dando a todas as fisionomias um aspecto novo de bom humor e jovialidade.

O céu tinha uma cor azul esgazeada, limpo de nuvens, alto e imenso na eterna glória da luz... Avezinhas de colo branco acompanha­vam a corveta, pousando n’água, trêfegas e alvissareiras, misturando sua alegria ruidosa com o surdo marulhar das vagas, num rápido es­panejamento d’asas.

Agora, sim, todos regozijavam com a esperança de chegar breve, em paz e salvamento, à Guanabara, lá onde havia sossego e abastança, lá onde a vida corria suave e cheia de tranqüilidade, porque se estava perto da família, defronte da cidade, sem os cuidados de quem anda no alto-mar... E depois já era tempo! Vinte dias a bordejar estupidamente, sem ver um pedaço de terra, uma ilha sequer, passando mal como cão! Já era tempo...

Só uma pessoa desejaria que a viagem se prolongasse indefinida­mente, que a corveta não chegasse nunca mais, que o mar se alargasse de repente submergindo ilhas e continentes numa cheia tremenda, e a velha nau, só ela, como uma coisa fantástica, sobrevivesse ao cata­clismo, ela somente, grandiosa e indestrutível, ficasse flutuando, flutu­ando por toda a eternidade. Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno desta única idéia — o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... — Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas, enfim, ia-se vivendo... E agora? Agora... hum, hum!... agora não havia remédio: era deixar o pau correr....

E vinha-lhe à imaginação o pequeno com os seus olhinhos azuis, com o seu cabelo alourado, com as suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador.

Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caísse fogo em brasa do céu, ninguém lhe tirava da imaginação o petiz: era uma perseguição de todos os instantes, uma idéia fixa e tenaz, um relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!...

Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se de um modo incrível, sentindo ferroar-lhe a carne, como a ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava, esse desejo veemente — uma sede tantálica de gozo proibido, que parecia queimar-lhe por dentro as vísceras e os nervos...

Não se lembrava de ter amado nunca ou de haver sequer arriscado uma dessas aventuras tão comuns na mocidade, em que entram mulheres fáceis, não: pelo contrário, sempre fora indiferente a certas coisas, preferindo antes a sua pândega entre rapazes a bordo mesmo, longe de intriguinhas e fingimentos de mulher. Sua memória registrava dois fatos apenas contra a pureza quase virginal de seus costumes, isso mesmo por uma eventualidade milagrosa: aos vinte anos, e sem o pensar, fora obrigado a dormir com uma rapariga em Angra dos Reis, perto das cachoeiras, por sinal dera péssima cópia de si mesmo como homem; e, mais tarde, completamente embriagado, batera em casa de uma francesa no largo do Rocio, donde saíra envergonhadíssimo, jurando nunca mais se importar com “essas coisas” ...

E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?

Tudo isto fazia-lhe confusão no espírito, baralhando idéias, repugnando os sentidos, revivendo escrúpulos. É certo que ele não seria o primeiro a dar exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir... Mas — instinto ou falta de hábito — alguma coisa de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre convés... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! Não valia a pena sacrificar o grumete, uma criança... Quando sentisse “a necessidade”, aí estavam mulheres de todas as nações, francesas, inglesas, espanholas ...... a escolher!

Caía em si, arrependido e frio, escrupulizando as coisas, traçando normas de proceder, enchendo-se de uma ternura por vezes lânguida e piedosa – o olhar erradio no azul inconsútil.

O castigo por causa de Aleixo trouxera-lhe outro prejuízo: no mesmo dia deixou ele o cargo de gajeiro de proa , o que afinal era um descanso, um alívio de trabalho. Tudo quanto lhe fizessem estava muito bem feito, contanto que o deixassem no seu canto, no seu ramerrão: nunca pedira favores a ninguém!

— Olha, dizia ele ao grumete com uma ironia na voz conselheira: não te metas com oficiais. São muito bons, muito amigos da gente, enquanto precisam de nós, só enquanto precisam, mas depois — adeus, hein! — dão-nos com o pé no focinho.

Aleixo estava satisfeitíssimo com a vida que ia levando naquele céu aberto da corveta, querido, estimado por todos, invejado por meia dúzia. Nada lhe faltava, absolutamcnte nada. Era mesmo urna espécie de principezinho entre os camaradas, o “menino bonito” dos oficiais, que o chamavam de boy. Habituando-se depressa àquela existência erradia, foi perdendo o acanhamento, a primitiva timidez, e quem o visse agora, lesto e vivo, acudindo à manobra, muito asseado sempre na sua roupa branca, o boné de um lado, a camisa um poucochinho decotada na frente, deixando ver a cova do pescoço, ficava lhe querendo bem, estimava-o deveras. Essa metamorfose rápida e sem transição perceptível foi obra de Bom-Crioulo, cujos conselhos triun­faram sem esforço no ânimo do grumete, abrindo-lhe na alma ingênua de criançola o desejo de conquistar simpatias, de atrair sobre a sua pessoa a atenção de todos.

Gabando-se de conhecer “o mundo”, Bom-Crioulo cuidou pri­meiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio de Janeiro — “para que ele visse quanto era bonito”. O pequeno mirou-se e... sorriu, baixando o olhar. — Que bonito o quê!... Uma cara de carneiro mocho! — Mas não abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem guarda um objeto querido, uma preciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se, deitando a língua fora, examinando-se cuidadosa­mente, depois de ter lavado o rosto.

Bom-Crioulo compreendeu o efeito da experiência e tratou de completar a “educação” do marinheiro. Ensinou-lhe como se dava laço na gravata... (gravata não, dizia ele, isso não se chama gravata, chama-se lenço...), aconselhou-o que nunca usasse o boné no meio da cabeça. — Um marinheiro deve usar o boné de lado, com certa graça...

E a camisa? — Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para mostrar a debaixo, a de meia. O hábito faz o monge.

O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a razão de todo esse esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos, cheirando a suor, mas eram poucos. Havia os que até usavam essências no lenço e óleo no cabelo.

No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom-Crioulo contemplava-o com esse orgulho de mestre que assiste ao desenvolvi­mento do discípulo.

Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco, segundo a tabela, o grumete foi o último a subir para a mostra. Vinha irrepreensível na sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, calças boca-de-sino, boné de um lado, coturnos lustrosos.

Bom-Crioulo, que já estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo. — Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Estava mesmo apto! Então o espelhinho sempre servira, hein?

E com um gesto rápido, nervoso disfarçando a concupiscência:

— Bonitinho!

O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d’alto a baixo, risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra.

Depois, terminada a leitura do Regulamento, feita a revista, Bom-Crioulo chamou-o à proa, e entraram numa longa palestra, deliciosa para o negro a julgar pela expressão cada vez mais fulgurante de sua fisionomia.

O mar estava relativamente calmo, apenas eriçado por uma viração branda que ameigava o mormaço. Nuvens aglomeravam-se para o sul, crescendo em bulcões pardacentos, como impelidas pela mesma força, longe ainda, rente com o horizonte. Em cima, no alto do grande hemisfério que a luz do meio-dia incendiava, o azul, sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso...Parecia que se estava muito perto de terra, porque no mesmo horizonte da corveta ia passando uma velinha triangular de jangada, microscópica e fugitiva. Pela alheta de boreste vinha-se chegando também o vulto sombrio de um grande vapor de dois canos.

Bom-Crioulo e Aleixo conversavam à sombra da bujarrona, lado a lado, indiferentes à alegria dos outros marinheiros, cuja atenção volvia-se agora para o transatlântico. Todos, menos os dois, queriam saber de que nacionalidade era “o bruto”. Uns afirmavam que era inglês, por causa do tamanho; outros viam na cor dupla das chaminés o distintivo das Messageries Maritimes: devia ser o Equateur ou o Gironde — um dos dois. Faziam-se apostas, enquanto o monstro se aproximava silenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pouco...

— Mas, olhe, você não queira negócio com outra pessoa, dizia Bom-Crioulo. O Rio de Janeiro é uma terra dos diabos... Se eu o encontrar com alguém, já sabe...

O rapazinho mordia distraidamente a ponta do lenço de chita azul-escuro com pintinhas brancas, ouvindo as promessas do outro, sonhando uma vida cor-de-rosa lá nesse Rio de Janeiro tão falado, onde havia uma grande montanha chamada Pão d’Açúcar e onde o imperador tinha o seu palácio, um casarão bonito com paredes de ouro...

Tudo avultava desmesuradamente em sua imaginação de mari­nheiro de primeira viagem. Bom-Crioulo tinha prometido levá-lo aos teatros, ao Corcovado (outra montanha donde se avistava a cidade inteira e o mar...), à Tijuca, ao Passeio Público, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da rua da Misericórdia, num comodozinho de quinze mil-réis onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo só uma, larga, espaçosa... Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seu soldo. Podia-se viver uma vida tranqüila. Se continuassem no mesmo navio, não haveria coisa melhor; se, porém, a sorte os separasse dava-se jeito. Nada é impossível debaixo do céu.

— E não tem que dizer isto a ninguém, concluiu o negro. Caladinho: deixe estar que eu toco os paus.....

Nesse momento o transatlântico defrontava com a corveta, içando à ré a bandeira inglesa, um grande lenço de tabaco, encarnado, e saudando com três guinchos medonhos o navio de guerra, cuja bandeira também flutuava na popa, verde e ouro.

Um mundo de gente movia-se na proa do inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.

E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham-se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.

A montanha de nuvens, que há pouco erguia-se fantasticamente lá longe, ao sul, alastrava o céu, aproximando-se cada vez mais, cor de chumbo, tempestuosa, desdobrando-se em contornos de feição bizarra, como uma barreira enorme que de repente se levantasse entre a corveta e o horizonte. Meio encoberto já, o sol coava sua luz triste através das nuvens, irisando-as de uma faixa multicor e brilhante, espécie de auréola, que descia para o mar.

O aguaceiro estava iminente.

— Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial do quarto.

A essa voz o movimento foi geral. Imediatamente soaram apitos, e a tolda encheu-se de marinheiros e oficiais, que surgiam das escotilhas num alvoroço, correndo, empurrando-se. A figura do guardião Agostinho destacava à proa, calma e solene, medindo a mastreação.

— Arria, carrega!

Trilaram de novo os apitos num desespero de manobra açodada; avalanches de marinheiros precipitaram-se de um bordo e doutro, alan­do os cabos, atropelando-se em correrias de horda selvagem, batendo os pés, ao barulho dos moitões que chiavam como carros de bois na roça.

— Aguenta o leme! avisava o oficial todo embuçado na sua capa impermeável.

O tempo escurecera completamente, e a ventania, refrescando, esfuziava na mastreação de modo sinistro, com a força extraordinária de titãs invisíveis. Mar e céu confundiam-se na escuridão, formando um só conjunto negro em torno da corveta, abarcando-a em todos os sentidos, como se tudo ali dentro fosse desaparecer debaixo das águas e das nuvens... Passavam grandes ondas altaneiras, rugindo sob a quilha, dançando uma dança medonha e vertiginosa na proa, cada vez que o navio mergulhava o bojo com risco de se abrir pelo meio... Chuva copiosíssima alagava o convés obrigando os marinheiros a se arregaçar, encharcando as pilhas de cabo, numa baldeação geral e inesperada.

A corveta ficara somente em gáveas e mezena, e corria, agora, sobre o mar, como se fosse um simples iatezinho de recreio, leve, enfunada, cavalgando as ondas — a borda quase rente com a água...

Que orgulho para o oficial do quarto! Como ele sentia-se bem naquele momento, debaixo de seu sueste, molhado té a ponta dos pés, todo olhos para que o navio não saísse fora do rumo, cheio de responsabilidade, calmo no seu posto, enquanto os outros descansavam na praça d’armas! De vez em quando olhava para a popa e via, com grande júbilo d’alma, a larga esteira de espuma que a corveta ia deixando atrás. Sentia-se forte, sentia-se homeml — Decididamente a Marinha é, por excelência, uma escola de coragem! pensava.

Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerrada e insistente, de revés, que parecia não acabar mais. O céu abriu-se de repente, claro e azul; a luz tornou a iluminar os horizontes; e pouco a pouco foram desaparecendo os últimos vestígios da “brincadeira”, como dizia, depois, o tenente Sousa, o da calmaria, que entrava de quarto.

O vento, porém, continuava rijo, açoitando os cabos, fustigando a superfície d’água, gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico, em lufadas que faziam estremecer todo o navio.

Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas por hora.

— Cuidado com o leme!

Marinheiros vassouravam o convés, enquanto outros iam passando o lambaz onde já não havia água. De cima, da tolda, ouvia-se a voz dos oficiais conversando na bateria, sentados por ali numa desordem grotesca, fumando, rindo.... O comissário, um de suíças longas, magro, estudava clarinete, embaixo, na praça d’armas, com admirável paciência, equilibrando-se. A chuva reanimara-os a todos, oficiais e marinheiros, desentorpecendo-lhes o corpo.

Bom-Crioulo, cansado da faina, descera à coberta, e conversava também com Aleixo, de quem só se separava na hora do serviço.

A umidade, o frio que entrava pelas escotilhas, aquele ambiente glacial comunicava-lhe um desejo louco de amor físico, um enerva­mento irresistível. Unido ao grumete num quase abraço, a mão no ombro de Aleixo que, àquele contacto, experimentava uma vaga sensação de carícia, o negro esquecia todos os seus companheiros, tudo que o cercava para só pensar no grumete, no “seu bonitinho” e no futuro dessa amizade inexplicável.

— Tiveste muito medo?

— De quê?

— Do tempo...

— Não, nem por isso.

E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar um caso de vento sul em Santa Catarina — Tinham saído, ele e o pai, numa canoa de pesca, assim pelo meio-dia. De repente o mar começa a encrespar, o vento desaba..., e agora? Estavam sozinhos perto da ilha dos Ratones dentro de uma canoa que era ver uma casquinha de noz. O velho, coitado, não teve dúvida, não! puxou pelo remo: — vuco, te vuco..., vuco, te .vuco... — Segura-te, meu filho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no ouvido que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supetão, um golpe de vento medonho, e quando ele, Aleixo, quis agarrar-se ao pai, era tarde: a canoa emborcou!

Bom-Crioulo fingiu grande admiração:

— Emborcou?

— Emborcou de verdade, pois então? Sei bem que fui ao fundo e voltei à tona Aí perdi o sentido... quando acordei estava na praia, são e salvo, graças a Deus!

— Assim mesmo foste feliz, disse o negro com interesse. Podias morrer afogado...

Bom-Crioulo também quis contar sua história e a conversa prolongou-se té ao anoitecer, quando todos subiram para a distribuição do serviço.

Em vez de abrandar, o sueste soprava com mais força, duro e tenaz, ameaçando levar tudo quanto era cabo e pano. A corveta, o “velho esquife”, como a chamavam, ia numa vertigem por aqueles mares, arfando suavemente, oscilando às vezes, quando o vagalhão era maior, com os seus dois faróis de cor — o encarnado a boreste, o verde a bombordo — e a lanterninha do traquete, pálida e microscópica no alto do estai da giba.

Sempre em gáveas e mezena, vento em popa, grande e sombria na noite clara, espectral e silenciosa, ela voava desesperadamente a caminho da pátria.

A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princípio, depois fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão, melancolizava o largo cenário das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro, comunicando-lhe a saudade infinita dos que navegam

E nada de serenar o vento!

Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Coisa talvez de um dia mais...

Enquanto não chegava a hora triste do silêncio oficial, a hora do sono, que se prolongava té o romper d’alvorada, marinheiros divertiam-se à proa, cantando ao som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja, rindo, sapateando, a ver quem melhor improvisava modinhas de pé quebrado, “cantigas do mato”... — Não se perdia um luar como aquele! Tinham trabalhado muito: era preciso folgar também. Deitados no convés, de ventre para o ar, outros em sentido contrário, queixo nas mãos — um sentado pacatamente, aquele outro de pernas cruzadas fumando — todos em plena liberdade, formavam roda em cima do castelo, enquanto era cedo.

O oficial do quarto passeando, passeando, escutava-os en­ternecido, cheio de contemplação por aquela pobre gente sem lar nem família, que morria cantando, longe de todo carinho, às vezes longe da pátria, onde quer que o destino os conduzisse. Aquelas cantigas assim rudes, assim improvisadas, quase sem metro e sem rima, tinham, contudo, o sabor penetrante de frutos natais e o miste­rioso encanto de confissões ingênuas... Fazia bem ouvi-las, como que o coração dilatava-se numa hipertrofia de saudade terna e con­soladora.

Deixá-los cantar, os pobres marinheiros, deixá-los esquecer a vida incerta que levam — deixá-los cantar!

Geme a viola, soluça uma alma em cada bordão; ressoam cantares em desafio no silêncio infinito da noite clara...

O tempo voa, ninguém se apercebe das horas, ninguém se lembra de dormir, de fechar os olhos à paisagem translúcida e fria do luar tropical varrida pelo vento sul. Misterioso instrumento essa viola, que fazia esquecer as agruras da vida, embriagando a alma, tonificando o espírito!

Bom-Crioulo não tomou parte no folguedo. — Estava cansado de ouvir cantigas: fora-se o tempo em que também gostava de fazer seu pé-de-alferes, dançando o baião, fazendo rir a rapaziada.

E quando a sineta de proa badalou nove horas, viram-no passar esgueirando-se felinamente, sobraçando a maca. Ia depressa, furtando-se à vista dos outros, mudo, impenetrável, sombrio... Embarafustou pela escotilha, escadas abaixo, e sumiu-se na coberta.

Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma traição? — Nada: Bom-Crioulo tratava de se agasalhar como qualquer mortal, o mais comoda­mente possível — Lá cima fazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta sempre era um pouco mais quente. O seguro morreu de velho...

Abriu a maca, estendeu-a sobre o convés cautelosamente, com mãos de mulher, examinou o lençol, e, sacando fora a camisa de flanela azul, deitou-se com um largo suspiro de conforto. — Ah! estava como queria. Boa noite!...

Nem uma voz rompia o silêncio regulamentar, senão a do oficial, de hora em hora.

Ventava forte ainda.

O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem, entorpecida pelo tra­balho, caíra numa sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras, encardidas como panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. De vez em quando uma voz entrava a sonambular coisas ininteligíveis. Houve um marinheiro que se levantou, do meio dos outros, nu em pêlo, os olhos arregalados, medonho, gritando que o queriam matar. No fim de contas o pobre-diabo era vítima de um pesadelo, nada mais. Tudo voltou ao silêncio.

E lá cima, no passadiço, o oficial do quarto, vigilante e imper­turbável, de hora em hora:

— Barca!

Havia um rebuliço ligeiro, o guardião apitava acordando a gente de serviço: — Levanta, levanta! Olha a barca!.. e as horas iam correndo assim, monotonamente.

Bom-Crioulo estava de folga. Seu espírito não sossegara toda a tarde, ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega.

Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe o organismo; mas o pequeno fazia-se esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. — Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-se sério!

Nesse dia Príapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer — Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relações.

Era preciso resolver “aquilo”.

— Aquilo quê? perguntou o rapazinho muito admirado.

— Nada; o que eu quero é que não te zangues comigo.

E precipitadamente:

— Onde vais dormir esta noite?

— Lá bem à proa, na coberta, por causa do frio.

— Bem havemos de conversar.

Às nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente...

Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer a meia distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores.

Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, con­chegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de mumurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho da rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse — uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade.

Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.

E consumou-se o delito contra a natureza.