Bom Crioulo/IX

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Bom Crioulo por Adolfo Caminha
Capítulo IX


Vida triste era a de Bom-Crioulo, agora, no hospital, longe da rua da Misericórdia e do seu único afeto, obrigado a um regímen conven­tual, alimentando-se parcamente, ouvindo a toda hora gemidos que lhe entravam na alma como uma salmodia agourenta, como a dorida expressão de seu próprio abandono, metido entre as paredes de uma lúgubre enfermaria — ele que amava a liberdade com um entusiasmo selvagem, e cujo ideal era viver sempre na companhia de Aleixo, do ingrato Aleixo......

A figura do rapazinho, rechonchuda e nédia, esvoaçava-lhe na imaginação provocadoramente, seduzindo-o, arrastando-o para um mundo de gozos, para uma atmosfera de lubricidade, para o silêncio misterioso de uma existência devotada ao amor clandestino, ao regalo soberano da carne, a todos os delírios de uma paixão que chegava à loucura.

A ausência aumentava-lhe o desespero, aquela vida triste de hospital enchia-o de aborrecimentos, era um castigo sem nome para quem, como ele, reclamava liberdade e amor — liberdade absoluta de proceder conforme o seu temperamento, amor físico por uma criatura do mesmo sexo que o seu, extraordinariamente querida como Aleixo... Nunca mais tivera notícias dele, nunca mais o vira, nunca mais haviam trocado um simples olhar.....

Entretanto, que de recordações povoavam-lhe o cérebro, à noite, quando, só ele Bom-Crioulo, d’olhos abertos no escuro, fitando o teto da enfermaria, velava, ele só, ali dentro! Que de recordações, meu Deus! Via, como se estivesse vendo na realidade, as formas do grumete, o seu olhar azul e a face branca, o quartinho morno da rua da Misericórdia, trepado, lá cima, no sótão, à beira do telhado, a cama de lona, o retrato do imperador, pregado à parede, muito sério, com um ar de suprema bonomia, e tudo que o cercava no voluptuoso ambiente, onde vivera tantos dias de felicidade... Ficava horas e horas pensando, horas e horas mergulhado numa abstração vagarosa, num êxtase calmo, recordando, capítulo por capítulo, a história de seu amor. Daí um profundo e inexplicável desgosto, uma idiossincrasia especial feita de ciúme e de ternura dolente. Imaginava coisas de homem que perdeu o juízo: — Aleixo ainda o estimaria? Não, com certeza. Se ainda o estimasse, tê-lo-ia procurado, onde quer que ele, Bom-Crioulo, estivesse; mas Aleixo nunca mais se importara, desde o dia da separação. Quem sabe? novos amores..

O negro enchia-se de ódio ao mesmo tempo que sentia aumentar dentro do coração o desejo de possuir eternamente o rapazinho.

Desejava-o, sim, mas virgem de qualquer outro contacto que não fosse o dele, queria-o como dantes, para si unicamente, para viver a seu lado, obediente a seus caprichos, fiel a um regímen de existência comum, serena e cheia de dedicações mútuas.

Era-lhe impossível abandonar o grumete; e agora principalmente, agora é que esse amor, essa obsessão doentia redobrada com uma força prodigiosa impelindo-o para o outro, acordando zelos que pareciam estagnados, comovendo fibras que já tinham perdido antigas energias. O Bom-Crioulo da corveta, sensual e uranista, cheio de desejos inconfessáveis, perseguindo o aprendiz de marinheiro como quem fareja urna rapariga que estréia na libertinagem, o Bom-Crioulo erotômano da rua da Misericórdia, caindo em êxtase perante um efebo nu, como um selvagem do Zanzibar diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano — ressurgia milagrosamente.

Ele ali se achava no hospital, abandonado e só, gemendo tristezas inconsoláveis, arrastando os farrapos de sua alma, ganindo — pobre cão sem dono — blasfêmias contra a sorte que o desligara de Aleixo, contra Deus, contra tudo!

As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos Órgãos, abriam para o fundo melancólico da baía. Na sala umas dez camas de ferro, colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se com os seus cobertores de lã vermelha dobrados a meio e pondo uma nota viva de sangue na brancura dos lençóis. Aí, como em todos os alojamentos do hospital, predominava um cheiro erradio de desinfetantes, o vago odor característico das casas de saúde e dos necrotérios, insuportável, às vezes, como uma exalação de sepultura aberta. Os doentes, em seu uniforme branco de algodão, erguiam-se e tinham licença para recrear fora, nas dependências do estabelecimento, licença especial do médico a quem estavam entregues. Cada enfermaria tinha o seu especialista. Bom-Crioulo fora recolhido à seção dos escrofulosos, à grande sala que dizia para o mar e donde se gozava um belíssimo aspecto de natureza americana. Indiferente a tudo que não fosse o grumete, cuja lembrança infligia-lhe as maiores torturas, ninguém o vira sorrir depois que baixara ao hospital.

Carrancudo, o olhar atrevido e ameaçador — fugindo à com­panhia dos outros, não podia esquecer, não podia apagar do espírito aquela idéia-pesadelo: o grumete nos braços doutro homem... Ah! bastava isso para tirar-lhe o sossego, para fazer dele um ente miserável, contorcendo-se nas angústias de um crime bárbaro. Aleixo fazia-o padecer noites inteiras, dias sucessivos, como ave que se debate em estreita gaiola de ferro. — Amava muito, decerto, queria um bem louco ao pequeno, preferia-o a todas as mulheres bonitas do mundo!

Enquanto iam-lhe cicatrizando as feridas roxas do corpo tatuado pela chibata, abria-se-lhe na alma rude de marinheiro um grande vácuo: terrível sensação de desespero acometia-o cada vez que pensava no outro, nesse grumete sem alma que o iniciara no amor e que o fazia sofrer as amarguras de uma vida de condenado... Bom-Crioulo sentia-se transformar inteiramente; alguma coisa profunda e grave, que ele próprio não sabia explicar, assim como um prenúncio fatal de desgraça, punha-o triste, arrebatava-o às alegrias da camaradagem, dando-lhe um aspecto estranho de malvadez rebuçada.

— Aquilo não era hospital, aquilo era um inferno! monologava crispando o beiço em assomos de raiva feroz. Estava-se-lhe esgotando a paciência.

Já uma vez pedira alta; se o queriam levam a capricho, então adeus!... Morria, mas não dava parte de fraco... Era homem, que diabo! e um homem deve mostrar para que veio ao mundo...

Embirrava com toda gente, afinal: — Enfermeiros brutos! Cozi­nheiros de frege! O próprio médico, assim que lhe dava as costas, era logo insultado.

Seu consolo nesse abandono de galé, nessa espécie de viuvez d’alma, era o retrato de Aleixo, uma fotografia de baixo preço tirada na rua do Hospício, quando ele e o pequeno moravam juntos na corveta. Representava o grumete em uniforme azul, perfilado, teso, com um sorriso pulha descerrando-lhe os lábios, a mão direita pousada frou­xamente no espaldar de uma larga cadeira de braços, todo meigo, todo petit-jesus... Bom-Crioulo guardava essa miniatura religiosamente, com cautelas de namorado, e à noite, quando se ia deitar, despedia-se dela com um beijo úmido e voluptuoso. Habituara-se àquilo do mesmo modo que se habituara a fazer o sinal-da-cruz antes de fechar os olhos. Uma superstição pueril de amante cheio de ternuras..... Agora, porém, esse amuleto inestimável acompanhava-o a toda parte. Durante o dia mesmo, ele sacava-o fora do bolso e punha-se numa contemplação mística, num vago enleio ideal, a olhar o retrato de Aleixo, como se daquele cartão inanimado e frio lhe pudesse vir um raio de amor, um luar de esperança...

Achava-o muito parecido com o original, oh! mesmo muito... Os olhos, a boca, o sorriso, o nariz.., tudo! Como é que se podia, num momento, copiar assim as feições de uma criatura! Era ele, exatamente o Aleixo!

E ficava admirado, ficava idiota, perdia a cabeça, quando seus olhos caíam sobre o pequeno “registro”... Ria-se, às vezes, para ele, sem que ninguém visse, retirado para um canto obscuro, longe dos outros.

E cada dia que passava era como se fosse um ano, um século, uma eternidade!

Lembrou-se de pedir a alguém que lhe escrevesse um recado ao grumete, duas palavras, uma linha...

Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo... Falou a um rapazinho, empregado no hospital: era favor, sim? um favorzinho... E ali mesmo, na enfermaria, perto da janela que olhava para os Órgãos, quase ao escurecer, traçaram estas palavras:

Meu querido Aleixo
Não sei o que é feito de ti, não sei o que é feito do meu bom e carinhoso amigo da rua da Misericórdia. Parece que tudo acabou entre nós.. Eu aqui estou, no hospital, já vai quase um mês, e espero que me venhas consolar algumas horas com a tua presença. Estou sempre a me lembrar do nosso quartinho... Não faltes. Vem amanhã, que é domingo.
Teu
Bom-Crioulo”

Somente isto. — Queria ver agora como se portava o “senhor Aleixo”, se ainda o estimava, se era o mesmo da corveta, o mesmo da rua da Misericórdia, meigo e dócil, carinhoso e reconhecido.

No dia seguinte, pela manhã cedo, o primeiro escaler que largou da ilha para terra conduzia o bilhetinho cautelosamente fechado, escrito numa garatuja desigual, tortuosa, indecifrável, que o empregado traçara ao crepúsculo, defronte do mar e à pressa.

O negro ficou ansioso pela resposta, numa inquietação de namorado que espera o desejado momento de abraçar a sua ela, contando as horas minuto por minuto, frenético às vezes, quando, por uma ilusão do ouvido, julgava perceber a voz do outro, animado agora e depois completamente desanimado, à proporção que as horas iam passando, fazendo cálculos ideais, balbuciando monólogos imper­ceptíveis, indo e vindo pelos corredores, pelas dependências do hospital como um idiota, como uma pessoa inconsciente. — E se ele não viesse? Ah! decididamente é porque já não o estimava: é porque o desprezava. Mas, ao menos, havia de responder fosse o que fosse.

Não podia acreditar que ele, sempre tão amável, tão bom e solícito, rasgasse o bilhete sem dar uma respostazinha, um sim ou um não. Qual!...

Tinha penteado o cabelo, mudado a roupa, e de instante a instante fazia uma chegada ao espelhinho, ao seu miserável caco de espelho, um traste que possuía no fundo da maca.

Passou a hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! — Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!

Começava a perder a esperança. — Amigos! fie-se a gente em amigos!...

Crescia-lhe a inquietação moral, crescia-lhe o desespero como uma onda que vai pouco a pouco intumescendo, empolando-se, até se desfazer em espuma, quebrar-se de encontro à rocha... — Não almo­çara, não jantara, e o resultado era aquele: o senhor Aleixo divertia-se!

E quando as corvetas da esquadra fizeram sinal de “arriar a bandeira”, quando o portão do hospital fechou-se às visitas, uma tempestade de ódio levantou-se no interior daquele homem capaz de todas as dedicações e de todos os horrores.

Bom-Crioulo rugiu interiormente; alguma coisa espedaçou-se dentro dele, tamanho foi o abalo do seu corpo. Entrara-lhe no espírito a convicção, a certeza absoluta de que o pequeno estava com “outro”, abandonara-o. Recolheu-se à enfermaria taciturno, cheio de cólera, num delírio de raiva surda, numa febre de vingança que até lhe incendiava o rosto por fora, queimando a pele...

Veio a noite e ele não pôde dormir, nem fechar os olhos.

Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que lhe enchesse os pulmões, numa terrível crise de nervos, como se estivesse a lutar com fantasmas, ora repuxando os lençóis, ora desco­brindo-se todo na agonia de uma formidável dispnéia. — Abandonado, ele! abandonado por aquele que o devia estimar como a um pai! Abandonado por Aleixo, pelo seu querido Aleixo!...

Parecia-lhe incrível! Desespero igual nunca ele experimentara. Só lhe vinham à imaginação coisas tristes, idéias lúgubres. E, para maior infelicidade, para maior desgraça, ouviu toda a noite alguém gemer na enfermaria vizinha — uma voz de homem, grossa, abafada, inimitável, chamando pelo nome de Jesus e que a ele, Bom-Crioulo, parecia a sua própria voz de amante infeliz apelando para a suprema bondade de Deus... O desgraçado, quem quer que fosse, gemia, gemia sem trégua, cortado de dores horríveis.

Pairava na atmosfera calma do hospital um cheiro muito vivo de alfazema queimada, assim como um vago odor de câmara mortuária. Bom-Crioulo que nunca, em sua vida, tivera medo, e que sempre desafiara a morte corajosamente, não pôde evitar, essa noite, um calefriozinho de pavor. Houve um momento em que se revoltou contra o pobre doente que gemia. — Diabo! Não se podia dormir com aquele agouro!... Se tinha de morrer, morresse logo...

Mas, arrependeu-se: — Coitado! era algum desgraçado como ele, algum pobre marinheiro sem amigo na terra....

Os gemidos foram pouco a pouco cessando, pouco a pouco diminuindo — triste monodia que se cala no silêncio da noite. Pela madrugada sentia-se ainda o cheiro de alfazema, enjoativo e penetrante, mas o doente cessara de gemer. Quem sabe se teria morrido? Foi embalado por essa idéia desoladora que Bom-Crioulo caiu no sono...

Davam três horas.

Nesse dia, como nos outros, a mesma preocupação, a mesma idéia fixa, obstinada e mortificante, encheu a alma do pederasta. Ele próprio se admirava de como é que “aquilo” renascera — ele que se julgava forte para não se impressionar com tolices, ele que supunha tudo fácil, tudo passageiro na vida! — Porque afinal (refletia) quando se ama uma rapariga bonita, uma mulher nova, branca ou mesmo de cor — vá! Um homem perde a cabeça, e com razão; mas, andar uma pessoa triste, sem comer, sem dormir, sem fazer pela vida, por causa de outro homem, por causa de um “individuozinho” que se abre para todo mundo — é uma grande loucura...

Mas embalde procurava iludir-se: a imagem de Aleixo agarrava-se-lhe ao espírito e cada vez o torturava mais; borboleta importuna, esvoaçava em torno dele, provocando-lhe o apetite sensual, estimu­lando-o como um afrodisíaco milagroso, fazendo-lhe renascerem todas as forças vivas do organismo genital, que ele julgara enfraquecidas pelo excesso, pela intemperança.

Sentia-se forte ainda para grandes cometimentos, para maiores provas de virilidade, e nenhuma criatura humana, fosse a mais bela de todas as mulheres, alcançaria proporcionar-lhe tanto gozo, tanta fe­licidade, num só momento, como Aleixo, o delicioso e incomparável grumete, que era, agora, o seu único desejo, a sua única ambição no mundo. Havia de o possuir, havia de o gozar, como dantes, por que não? Morto ou vivo, deste ou daquele modo, Aleixo havia de lhe pertencer!

Começou a imaginar um meio de fugir, de abandonar o hospital em procura do grumete. — Ora, adeus! o que tem de ser sempre é! Já não podia suportar cheiro de hospital. Para castigo bastava...

Mas, como fugir? como iludir a vigilância das sentinelas? Uma vez embaixo, no cais, era fácil tomar um bote de ganho, ou mesmo ir a nado...

E os dias passavam, uns após outros, com a mesma uniformidade, cheios de monotonia, cheios do sol quente de estio, e Bom-Crioulo não achava ocasião oportuna de realizar o seu plano de fuga.

Ia-se-lhe tornando cada vez mais insuportável a existência naquela espécie de convento de inválidos. Estava magro, visivelmente magro: —“estava acabado!” E que sonhos horríveis, que pesadelos! Uma noite sonhou que Aleixo tinha morrido com uma facada no coração; que ele, Bom-Crioulo, via o pequeno ensangüentado numa cama de vento, nuzinho, os beiços muito roxos..., e que a portuguesa, D. Carolina, chorava perdidamente, enxugando os olhos com um grande lenço de tabaco... — Já viram que extravagância?...

E outros e outros sonhos... Se continuasse ali naquele presídio, acabava maluco, era capaz de morrer doido. — Oh! sim, queria fugir, não tolerava mais aquilo. “— ... que os pariu!...”

E todos os dias a mesma coisa, o mesmo penar, a mesma serie de idéias vagas, incompletas, as mesmas oscilações, as mesmas dúvidas. Uma noite ia sendo preso quando tentava escalar o muro do hospital...