Bom Crioulo/V

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Bom Crioulo por Adolfo Caminha
Capítulo V


Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual — certo amor à vida obscura daquela casa onde ultimamente quase ninguém ia, e que era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma voluptuosa. Não sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado às telhas, o Aleixo, e... nada mais! Enquanto Deus lhe conservasse o juízo e a saúde, não desejava outra coisa.

O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom­-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para compra de móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, coisas sem valor, muita vez trazidas de bordo... Pouco a pouco o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando- se de caixas vazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma “cama de vento” já muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as nódoas”.

Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada, rigorosamente metódica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo a terra duas vezes por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo a castigos ou recriminações. Até os oficiais estranhavam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. — “Isso é coisa passageira, insinuava o tenente Sousa. Breve têmo-lo aqui, bêbedo e medonho. Sempre o conheci refratário a toda norma de viver. Hoje manso como um cordeiro, amanhã tempestuoso como urna fera. Coisas do caráter africano...”.

O grumete, por sua vez, trazia a alma na perpétua alegria dos que não têm cuidados. Em terra ou a bordo, não tinha que se queixar: andava sempre limpo, ninguém o via deitado no convés ou emporca­lhando-se de alcatrão à proa. Felizmente o imediato escolhera-o para o serviço de cabo-marinheiro, em atenção à sua conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo do asseio, obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seu lugar predileto era o passadiço ou à ré cosendo bandeiras, tesourando flâmulas, aprendendo certos misteres do oficio. Às vezes tinha palestras com o oficial de quarto, narrando histórias de Santa Catarina, casos da província, do tempo em que ele era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os outros marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos maliciosamente. Havia um guarda-marinha, moço bem educado e muito democrata, que, uma vez por outra, dava-lhe dinheiro, níqueis para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tostão que “seu guarda-marinha lhe dera”. Todos a bordo lhe faziam festa; o próprio guardião Agostinho, seco e ríspido, tratava-o bem, com branduras na voz. Uma vida regalada!

Em terra, no quarto da Misericórdia, nem se falava! — ouro sobre azul. Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se à vontade na velha cama de lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali perto, sozinhos, numa independência absoluta, rindo e conversando à larga, sem que ninguém os fosse perturbar — volta na chave por via das dúvidas...

Uma coisa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo....

Aleixo amuou: aquilo não era coisa que se pedisse a um homem! Tudo menos aquilo. Mas o negro insistiu. Ninguém o levava a capricho: — Ou bem que somos ou bem que não somos... — Que asneira! Fez o grumete. Pôr-se agora nu em pêlo defronte do Bom-Crioulo! Está bem visto que tinha vergonha.

— Vergonha de quê? tornou o outro. Não és homem como eu? Donde veio essa vergonha?

— Decerto!...

— Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa.....

Havia luz no quarto, uma luz mortiça, no topo de uma vela de sebo.

— Nem se vê nada..., fez Aleixo choramingando, sem lágrimas.

— Sempre há de se ver alguma coisa...

E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de flanela, depois as calças, em pé, colocando a roupa sobre a cama, peça por peça.

Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em plena e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis... Belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada baiúca da rua da Misericórdia, onde àquela hora tudo permanecia numa doce quietação de ermo longínquo.

— Veja logo...., murmurou o pequeno, firmando-se nos pés.

Bom-Crioulo ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero...

Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea...

Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra-prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, con­tudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas de seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude.

— Basta!... suplicou Aleixo.

— Não, não! Um bocadinho mais...

Bom-Crioulo tomou a vela, meio trêmulo, e, aproximando-se, continuou o exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes, gabando-lhe o cheiro da pele, no auge da volúpia, no extremo da concupiscência, os olhos deitando chispas de gozo...

— Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente já, soprando a luz.

Seguiu-se, então, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas à surdina, e, quando Bom-Crioulo riscou o fósforo, ainda uma vez triunfante, mal podia ter-se em pé.

Tais eram os “desgostos” de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe admiravelmente, como um leve barco à feição...

D. Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho:— “o meu bonitinho” é como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular.

Achava uma graça infinita naquele pedacinho de homem vestido de marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essência, como uma rapariga que se vai fazendo mulher...

O pequeno, muito acessível a tudo quanto fosse carinho, mos­trava-se reconhecido, não subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias à portuguesa, abrindo-se com ela em franquezas ingênuas, deixando-se agradar.

Ele, D. Carolina e Bom-Crioulo eram como uma pequena família, não tinham segredos entre si, estimavam-se mutuamente.

Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha, encontrava naquela casa um asilo de amor, um paraíso de felicidade...

A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o dique.

Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um abismo natural, aberta à picareta no seio da rocha dura e implacável, começaram as obras.

Um martelar contínuo reboava ciclopicamente no interior daquela sepultura de pedra, como numa forja subterrânea; operários em mangas de camisa recomeçavam todos os dias a mesma faina brutal de calafetar o bojo da velha “barcaça”, enquanto os marinheiros iam, por outro lado, raspando o mexilhão que o calor apodrecia no fundo seco do dique. Sufocava, lá baixo, o cheiro forte dos mariscos em decomposição subindo como bafos de monturo, resistindo à potassa e ao ácido fênico.

Era justamenre em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.

Dir-se-ia que aqueles homens, operários e marinheiros, não tinham aparelho respiratório, não tinham pulmões, ou estavam satura­dos de miasmas.

Trabalhavam cantando e martelavam assoviando, com uma indi­ferença heróica, sem pensar no grande perigo que os ameaçava.

Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e então não havia remédio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como um formigueiro alvoroçado, tapando o nariz: — Foge! Foge! Olha a febre amarela!

Navio no dique, marinheiro à solta. O serviço diminuía, tinha-se mais liberdade, podia-se folgar à vontade, porque o campo era largo, o convés estendia-se pela ilha até certa distância. Dali para teria era um pulo, não faltavam botes de ganho; breus em quantidade atracavam próximo ao dique: vivia-se como em qualquer parte.

De vez em quando: “Seu tenente dá licença que eu visite um amigo, no hospital — Vá, mas não demore...”

O hospital ficava no topo da ilha, numa eminência que dava acesso por uma estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros naquela direção, subindo lentamente aos quatro, em procissões: iam visitar os companheiros, ou eram baixas que vinham da esquadra.

Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios à terra. Assíduo no trabalho, nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo suas obrigações com a mesma paciência de outrora, quando o futuro lhe sorria esperanças de vida melhor, reabilitava-se a olhos vistos de umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O imediato fazia-lhe concessões prevenindo-o que “tomasse cuidado, não fosse beber demasiadamente”.

Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um verdadeiro pai: a questão era andar direitinho, “portar-se como gente”.

E Bom-Crioulo, compreendendo isso, fazia o possível para o não descontentar, trabalhando sempre que havia serviço, de cara alegre, sem constrangimento, na certeza de ir à terra.

Um dia sim outro não, ei-lo no seu quarto da rua da Misericórdia, todo entregue ao descanso, livre, completamente livre de incômodos e obrigações.

Não esquecia de beber seu golito de “conhaque brasileiro”, mas sabia se conter evitando excessos. De resto, era tão calma sua vida, corria-lhe a existência tão doce, tão suave, que ele até estranhava.

Ultimamente começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longes de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qual­quer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos... Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia: — Estás magro, ó Bom-Crioulo, que diabo é isso?

— Eu, magro?... E passava a mão no rosto examinando-se. Estarei doente?

— Alguma crioula, hein?

— Qual crioula!

Um dia consultou ao grumete:

— Achas que estou emagrecendo?

Aleixo também foi de parecer que sim, mas “era pouca coisa”.

Bom-Crioulo não se importou: foi continuando a viver tranqüi­lamente, ora a bordo, ora em terra, numa grande paz de espírito, vendo crescer a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade, como quem estuda a evolução de uma flor curiosa.

Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelos de amante apaixonado.

Quase um ano de convivência fora bastante para que ele se identificasse absolutamente com o grumete, para que o ficasse co­nhecendo, e a convicção de que Aleixo não o traía entregando-se à fúria selvagem de qualquer marmanjo, a certeza de que era respei­tado pelo outro, comunicava-lhe essa tranqüilidade confiante de ma­rido feliz, de capitalista zeloso que traz o dinheiro guardado inviola­velmente.

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.

— Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.

Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo não era tolo nem nada... Tolo era quem se fiasse nele...

E o negro sorria orgulhoso, com as seus dentes de marfim, meio aguçados, como presas de tubarão.

A corveta saíra do dique, indo amarrar numa bóia por trás do morro de S. Bento com fronte ao Arsenal.

Em todo caso sempre era mais perto de terra que no poço, no ancoradouro dos navios de guerra, onde a gente não tinha liberdade.

Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio — um de aço, muito conhecido pelo seu maquinismo complicado e pela sua formidável artilharia; belo conjunto de forças navais, que fazia desse couraçado um dos mais poderosos do mundo.

Bom-Crioulo desapontou —“... que os pariu! Nem se tinha tempo de conhecer bem os navios: hoje num, amanhã noutro... Até parecia brincadeira!”

E furioso, amarrando o saco de lona, trombudo:

— Por isso é que um marinheiro fica relaxado; por isso...

Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa a proa, tranqüilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa praça, lá ia para o couraçado — aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o Aleixo, sem o seu Aleixo... Vivera tantos meses ali a bordo da corveta mais o pequeno, e agora, de repente, sem quê nem para quê: — Passe... Era mesmo uma perversidade!

Mas, Deus é grande! pensava Bom-Crioulo. Deus sabe o que faz: a gente não tinha remédio senão obedecer calado, porque marinheiro e negro cativo, afinal de contas, vêm a ser a mesma coisa.

Aleixo consolava-o, resignado: paciência, homem, o mundo não se acabava. Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso é que tinham alugado quarto. Um dia sim outro não podiam se encontrar do mesmo modo em terra......

— Agora vê lá se vais fazer alguma..., preveniu o negro.

Renasciam-lhe os zelos; aquela separação brusca e inesperada irritava-o, acordando no fundo de sua alma um egoísmo exacerbado, uma desconfiança vaga no futuro. — É verdade que o grumete já não era criança para se deixar iludir, mas, meu amigo, podia o rapaz se entusiasmar por algum oficialzinho bonito, e, adeus, Bom-Crioulo!...

Com o espírito cheio de apreensões, o olhar triste e a face carrancuda, estreitou ao peito o seu querido Aleixo, e, sem proferir palavra, mudo na sua tristeza, como um preso que deixa uma prisão para entrar noutra, viu desaparecerem os mastros da corveta e a sombra do grumete que lhe acenava de longe, na penumbra crepuscular, vaga e nebulosa, como a própria saudade.

O couraçado lá estava encoberto pela ilha, muito grande e solene, com o seu belo aspecto de casamata flutuante, aproado à maré, respeitável e glorioso.

— Rema força, que é tarde!

E a pequena embarcação, impelida vigorosamente, ia deixando atrás, sem o saber, a alma de Bom-Crioulo, terna e dolente...