Bom Crioulo/VII

Wikisource, a biblioteca livre
< Bom Crioulo
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Bom Crioulo por Adolfo Caminha
Capítulo VII


Bom-Crioulo não estava satisfeito no couraçado, naquela formidá­vel prisão de aço, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina — um horror de trabalho — privava-o de ir a terra hoje sim amanhã não, como nos outros navios. Ah! mil vezes a corveta, mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda uma gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e felicidade!... Era bem certo o ditado: não há bem que sempre dure...

Enchia-se de ódio contra os superiores: — Uma cáfila! Todos a mesma coisa; faziam do pobre marinheiro um burro.... Ninguém os entendia. — Revoltava-se principalmente contra o quartel-general que o mandara passar da corveta para o couraçado. Não lhe custava nada ir ao ministro, contar uma história muito grande e pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam enga­nadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...: “—... que os pariu!...”

Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar a bordo: seu nome fora recomendado ao imediato em bilhete especial: — “Muita cautela com o Amaro (Bom-Crioulo). É uma praça irrepreensível! quando não bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos”. Houve logo prevenção entre os oficiais.

— Era bom não o deixar ir a terra muitas vezes. Um homem daqueles até metia medo!

E ficou assentado que ele só teria licença uma vez por mês. Passar o primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sábado.

— Seu imediato, eu precisava ir a terra, implorou o negro perfilado, a mão em pala no boné.

— Ainda não, resmungou o oficial, sem prestar-lhe atenção. Quando chegar a sua vez eu direi.

— Mas seu imediato...

— Já lhe disse, não amole!

Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convés, mordicando o beiço. Ia cheio de uma cólera muda, jurando vingança talvez..... — Ah! era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar......

E no dia seguinte pela manhã ofereceu-se ao guardião parar remar no escaler que ia às compras. Embarcou, sem dar a perceber cálculo algum, e lá foi remando na voga, o boné carregado pra frente, muito sério, teso na sua bancada.

O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhas da baía, o Pão d’Açúcar, os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhavam-se na eteral limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela.

Bela manhã para um bródio sobre a água! O vulto de um paquete alemão ia saindo barra fora, impassível e misterioso... O mastro do Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda, silenciosos e imóveis.

Era quase dia...

— Leva! manobrou o patrão do escaler. Tinham chegado ao cais. Os marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um movimento igual, dentro da embarcação.

Daí ao mercado era perto. Começaram a atracar escaleres doutros navios. Pouco a pouco ia clareando... A praça, entretanto, permanecia quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques.

Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de “fazer uma necessi­dade”, prometendo voltar logo.

— Era um pulo...

Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos companheiros, estugou o passo em direção à rua da Misericórdia, resmungando insultos que ninguém ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater, im­paciente, dando fortes punhadas na porta.

O caixeiro da padaria, defronte, veio espiar quem é que batia com todo aquele desespero.

— Quem havia de ser? Um negro!...

Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspensórios, com cara de réu, e que se afastou para deixar passar o marinheiro.

— Bom dia!

— Bom dia! correspondeu o barbaças.

— Quem é? perguntou lá de cima a voz abafada da portuguesa.

— Sou eu, D. Carolina desculpe a maçada.

— Ah! é o Bom-Crioulo? Que maçada o quê! Por aqui tão cedo? Ninguém o vê mais!... A chave está no prego...

— Obrigado...

E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: — Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. Não era nenhum burro de carga!...

Veio-lhe à mente o grumete: — Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque neste mundo a gente vive enganada... Quando mais se estima uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo, não caíra do céu...

Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tate­ando... O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d’água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.

— Eu faço idéia!... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual. Eu faço idéia!...

Nesse instante o carrilhão de S. José começou a bimbalhar os “Sinos de Corneville”, enchendo o espaço de uma alacridade sonora e festiva, que multiplicava-se em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares... Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta:

Dlingo, dlingo, dlingo
Dlingo, dlingo, dlão!

No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com ímpetos de criança brejeira, como um pássaro solto... Estranhava-se até! Há muito não amanhecia tão bem disposto...

O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais “republicanos”, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo...

Acendeu um cigarro e deitou-se.

— Ah! isso era outra coisa! Não lhe fossem falar em navios de guerra: preferia sua cama, seu bem-estar, seu descanso.

Pela janela entrava agora uma réstia de sol, e o carrilhão continuava o seu interminável estribilho .......

Dlingo, dlingo, dlingo,
DIingo, dlingo, dlão!

— Bom-Crioulo, ó Bom-Crioulo!

— Anh!..Que é?

— Acorda, rapaz, olha que não tarda meio-dia.

— Meio-dia?

— Sim, pois não vês o sol como vai alto?

D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acordá-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o boné sobre os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, imóvel... Pendiam-lhe os braços numa frouxidão cadavérica. A mulher ao entrar no quarto recuou pálida. — Jesus! estaria morto? O negro, porém, ressonava alto. — Que susto. Aproximou-se timidamente para o não sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco.

— Acorde, seu preguiçoso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro. Vamos, levante-se, que isto não são horas de dormir.

Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na boca.

— Então que foi isso hoje? perguntou a portuguesa.

— Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braços num bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licença.

— Que loucura, filho! São capazes de mandar-te prender.......

— ... que os pariu! Não sou escravo de ninguém. Fujo quantas vezes quiser; ninguém me proíbe...

— Modera-te, rapaz. É preciso ir com jeito.......

— Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio ainda não tive descanso. Isso também é demais!

— Ora, meu filho, paciência. Deus há de ajudar.......

— É a tal história: fia-te na Virgem e não corras...

— Vocês lá se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do imperador, como se nunca o tivesse visto.

— Uma coisa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo a terra?

— Veio quinta-feira, se me não engano...

E o outro contando os dedos:

— Quinta, sexta, sábado, domingo: ontem era dia dele vir...

— Agora vocês vivem sempre desencontrados. Não combinam...

— Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma coisa, ou já almoçaste?

— Nada, vou petiscar ali no frege.

— Manda-se comprar...

— Não, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer exercício.

— Cuidado! Olha algum oficial...

E dirigindo-se para a escadinha:

— Bom, vim apenas te acordar. Até logo.

— Té logo, madama. Então o pequeno só veio uma vez, hein?

— Uma vezinha, coitado...

E o negro ficou pensando no grumete, sentado à mesa, de crista caída, esgravatando maquinalmente a unha com um fósforo. — “Aquilo” não ia bem... Precisava tomar uma resolução: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se com uma rapariga de sua cor e viver tranqüilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...

E, tomando o boné, com uma expressão de aborrecimento:

— Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanhã.

Bateu a porta, deu volta à chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos, com desespero.

D. Carolina estava para dentro e lá ficou estendendo uma roupinha no corador.

Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomeração de gente e cada transeunte que passava era mais um curioso, um basbaque.

Os moradores debruçavam-se às janelas, esticando o pescoço com uma interrogação no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o lugar do “acontecimento”. Gente punha-se em pé nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou à porta, com um lápis atrás da orelha, arrastando os chinelos.

Bom-Crioulo supôs logo que fosse algum “rolo” e precipitou-se, abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensangüentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas.

Caíra de repente, ao sair da venda.

— Tinha bebido muita cachaça, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse, não teria vendido...

Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquearam.

— Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!

— Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocês também não pres­tam pra nada...

O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas mãos e levá-lo no ombro à Santa Casa de Misericórdia, sem grande esforço, como se pegasse uma criança.

Fez-lhe pena ver aquele pobre homem caído ali assim, no meio da rua, cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o coração, fê-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse algum pai de família, coitado, algum infeliz... Um horror, a tal gota! já noutra ocasião salvara uma mulher bêbeda que ia sendo pisada por um bonde.

E o português da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava casualmente, o dono do açougue, todos gabavam o pulso do negro.

“— Sim senhor, tinha força para desancar um burro! — Essa gente do mar é uma gente perigosa! — Dois guardas não puderam com o homem, no entanto só o negro fez tudo! — A marinha sempre é a marinha...”

Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:

— Não senhor, não era tanto assim. Cá e lá más fadas há... No exército também se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente fraca, rapazinhos de papelão...

Ninguém disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se a duas ou três pessoas que ficaram por ali conversando.

Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os braços, o boné derreado como de costume, a face radiante. — Na verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas não poderem com ele. Olhem que eram dois guardas!

E, dirigindo-se ao vendeiro:

— Uma terça, faz favor...

O português, muito amável, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a medida. — Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal...

Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: —Puah!... fez com repugnância. — Arre, diabo, que isto é mesmo que beber fogo!

Desatou a ponta do lenço, onde costumava trazer o cobre — um triste lenço enxovalhado, com desenhos na margem.

— São os últimos vinténs; resto do soldinho, do miserável soldinho... Felizmente eu não me aperto enquanto existir uma portu­guesa chamada Carolina...

O bodegueiro piscou o olho: Ahn, ahn!... Como era fino, hein?...

— Que quer,meu amigo, faz-se pela vida...

Tinha a cabeça muito fraca, muito leve: um golo de aguar­dente, uma dose insignificante de líquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao cérebro. E, quando bebia demais, em pândega, lá uma vez ou outra — santo Deus! ninguém podia com ele: redobrava de força, não conhecia os amigos, insultava a humanidade, ameaçando, brandindo o punho fechado, carregando o boné, gingando o corpo — medonho, terrível!

Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar proposi­talmente. Pouco depois de engolir a cachaça, meio tonto, empinando-se para não demonstrar fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na língua, retirou-se da venda sem rumo certo, para os lados do cais Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas em duplicata rodando em tomo de sua cabeça, encostando-se à parede, monologando coisas imperceptíveis, transfigurado já.

Confundiam-se-lhe as idéias numa turva agitação de quem vai perder o juízo; os objetos começavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado.

— Eu daqui vou direitinho mas é para bordo, murmurava. Hei de mostrar à canalha! Vou porque quero, porque sou livre!

E batia com força no peito.

— ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora podem falar! Papagaio de noite não tem olho, como dizia seu comandante... já não me lembra o nome......

Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazéns de madeira, todas as casas de negócio, com exceção de raríssimos cafés, estavam trancados àquela hora dominical.

Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha lenta de gado que recolhe à tardinha, calados, pensando na vida...

Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar atenção a ninguém. Mas, ao desembocar no largo do Paço, um cachorro vadio começou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros cães vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos açulavam a canzoada com as­sobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. — Ora quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralhão, o marinheiro!

No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equili­brando-se, investindo contra os cães, ameaçando-os à pedra, ganindo insultos: “—... que os pariu!”

Viram-no se dirigir para o cais.

— Ó do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcação de guerra imóvel sob os remos, ao largo.

Ninguém respondeu.

Havia calma no mar. A água reluzia como aço polido. Abafava!

Defronte, lá muito longe, em Niterói, via-se a torre branca de urna igreja, pequenina, esguia como um obelisco.

Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados uns aos outros, na lingüeta de mar, entre as estações das barcas, quietos, modorrentos...

— Ó do escaler! bradou o negro.

A embarcação não se movia: era como se não houvesse ninguém à bordo. Os marinheiros fingiam-se distraídos.

— Cambadas de burros! Atraca essa porcaria!

E abriu a boca numa tremenda explosão de impropérios, fe­chando o punho ameaçadoramente, desenrolando todo o vocabulá­rio imundo e obsceno das tarimbas contra os companheiros, ber­rando em alta voz “que era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!...”

— Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada!

Mas, ao voltar, deu de ombro com um português, que estava a seu lado rindo tranqüilamente, segurando um remo.

— E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo, dando um empurrão no homem.

O português carregou o rosto, medindo o negro d’alto a baixo, sem dizer palavra.

— E não tem que olhar, não! Se duvida faço-o beber água salgada.

— Vá-s’embora, homem de Deus! murmurou o outro com bene­volência. Vá-s’embora...

—O quê?

— Mal vai a coisa...

— O quê, seu galego, o quê?

E “abotoou” o português, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o boné.

— O senhor não me provoque...

— Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!

O homem perdeu a calma. Nos seus olhos fulgurou um clarão de raiva, o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mão, e, investindo para Bom-Crioulo, quis derrubá-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda.

Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espaço entre as duas estações rnarítimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoroçada, que vinha de todos os ângulos da praça numa precipitação de avançada: — “Rolo! Rolo!”

E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo, afastando-se daquele ponto insustentável, onde não se podiam mover livremente, sem risco de cair n’água, abraçados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte — iguais na envergadura muscular.

O escaler de guerra tinha se aproximado.

Havia grande rebuliço nos botes: o alarma era geral no cais e imediações.

— Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.

Assobios, canzoada, berros: — Não pode! não pode! confundiam-se num alvoroço descomunal, reboando na praça.

De repente, com um safanão medonho, Bom-Crioulo separa-se do português e rápido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cós um objeto: logo toda gente viu, com espanto, reluzir na mão do marinheiro o aço de uma navalha.

— É agora! disse uma voz no meio do povo.

A multidão espalhou-se, recuando, abandonando o campo de luta. O clamor aumentava: — Pega! Pega! Não pode!

O português, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximar polícias, brandindo a arma, furioso, ameaçou:

— Quem for homem, venha!

A figura do “galego” tinha desaparecido: sua cólera voltava-se agora contra o povo e contra a polícia. Ninguém ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo...

Quatro horas no relógio da estação.

Daí a pouco saltou no cais um oficial de marinha. Bom-Crioulo esperou-o a pé firme: — Não venha, que leva!

Era um primeiro-tenente; acompanhavam-no marinheiros.

— Segurem aquele homem, ordenou, parando a distância.

— Não venha! Não venha! exclamou o negro, gingando, com a navalha no ar.

Os homens dividiram-se, três para cada lado, e marcharam impavidamente, de prancha desembainhada.

Foi um momento de ansiedade e assombro.

A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de arame. — Não venha! Não venha!...

Mas, quando, num formidável arranco, salta à direita, um pulso mais forte “gruda-o” pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencível Bom-Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz!

O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem receio de agressões, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado à beira d’água por uma onda de curiosos.

Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.

Afinal, lá o conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...