Bom Crioulo/XII

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Bom Crioulo por Adolfo Caminha
Capítulo XII


Quase nenhum movimento ainda na rua da Misericórdia; sujeitos mal vestidos, operários e ganhadores, desciam com um ar miserável e bisonho de ovelhas mansas que seguem fatalmente, num passo ronceiro, numa lentidão arrastada, numa quase indolência de eu­nucos. A vaca do leite, com as grandes tetas pesadas, um chocalho ao pescoço, ia no seu giro quotidiano, muito dócil, o ventre bojudo, uma baba a escorrer-lhe do focinho em fios d’espuma. A carrocinha do lixo, pintada de azul, andava na sua faina matinal, parando aqui, parando acolá.

Nenhum esto de vida quebrava a monotonia do quarteirão, somente o ruído dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração. Os primeiros reflexos do sol batiam nas vidraças obliquamente acordando os ­moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas de ouro, dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista como fulgurações quentes de revérbero; e já se começava a sentir um calorzinho brando, uma tepidez morrinhenta, um princípio de mormaço.

Abriam-se botequins preguiçosamente, lojas de negócio, es­tabelecimentos de madeira, carvoarias, quitandas.

O movimento, porém, aumentava com a luz; multiplicavam-se os transeuntes numa confusão bizarra de cores e toilettes: daqui, dali, surgiam caras estranhas, fisionomias amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço.

A vida recomeçava.

Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, cal­culando a distância, lento e lento, rumo do sobradinho. Já o avistava: era o mesmo de outrora, o mesmíssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e lá, no alto, lá cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase...

Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como coisa que lhe en­trasse n’alma, a dor de uma ingratidão muito velha, quase apagada. Sim, a dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha aprendido a amar, a “querer bem”...

E murmurava entre dentes, banhado no eflúvio das suas remi­niscências, levado pelo fio inquebrantável das doces recordações: — “Aquele sobradinho, aquele sobradinho!....”

Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram do cruzeiro e lá foram juntinhos, para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o português, de febre amarela. Oh! tinha tudo na cabeça; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ingênuos de Aleixo, a cena da vela... — tudo estava gravado em sua imaginação, tudo!

Enchiam-se-lhe os olhos d’água, turvava-se-lhe a vista, nem era bom pensar...

Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital, voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente. — “Ah! era assim, hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou amanhã. A gente é como um copo d’água: vai-se enchendo, vai-se enchendo, até não poder mais!”

Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por trás da névoa úmida das lágrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia, como um epiléptico: vinham-lhe cóleras, ímpetos, aflições... Quase não se podia conter diante daquela casa, que era como o túmulo mesmo das suas ilusões. Transfigurava-se, enlouquecia de ódio, espumava de cólera, de raiva, de ciúme! O aspecto das coisas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus olhos viam naquela hora de amargura, o próprio sol, a própria luz torrencial do dia causava-lhe um tédio imenso; arrancando-lhe blasfêmias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. Não tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os logo gelado: — “Era ali mesmo, tal e qual!”

Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma coisa desagradável, incômoda e amofi­nadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue... Passou a mão nos olhos, trêmulo, encostando-se à coluna de um gás; quase não podia ter-se em pé: estava sem forças, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosa­mente, o “maldito hospital”. — “Nunca mais havia de lá pôr os pés, nunca mais!”

A porta do sobrado estava fechada; em cima, a meia vidraça de uma janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral, desoladora!

Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atônito, sem consciência do meio em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar por ali acima.

De repente — “Ah! a padaria!” Já se não lembrava; era a mesma também, a mesmíssima, com o seu grande letreiro na fachada —Padaria Lusitana, com as suas três portas, debaixo de um sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha lá dos fundos um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de pão quente.

Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de além-mar.

— O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma portuguesa?

D. Carolina?

— Essa mesma: uma gorda, bonitona...

— Mora, pois não! disse o outro com um quê de malícia nos olhos.

— E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis...?

— Também Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam sair juntos à noite...

— Saem juntos?

— Pois não! A mim me parece que o menino é bem espertinho...

Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo, agora, pela boca do caixeiro: a ocasião era a melhor, porque o dono do estabelecimento andava fora.

— O senhor não estará enganado? tornou ele, muito curioso, precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.

E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: — Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d’olhos grandes, que alugava quartos...

— Essa mesma, homem!

— O outro não tinha barba, era meio criança ainda, olhos azuis, muito alvo, bonitinho...

— Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, à Tomada da Bastilha. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...

Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma história de mulher! Bom-Crioulo ficou imóvel, calado, perdido nas suas idéias. —Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era inacreditável, era um desaforo sem nome, um desrespeito, uma falta de vergonha, um escândalo!

— Está admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora uma dolorosa, uma extraordinária, uma indizível expressão de melancolia e surpresa. Não se admire, não, que é o que todos dizem...

E logo, interrompendo-se, com o braço estendido:

— Olhe, nem de propósito: aí vem ele, o pequeno...

Aleixo ia saindo porta fora tranqüilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a calça justa.

O negro teve um daqueles ímpetos medonhos, que o acometiam às vezes; garganteou um — oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de cólera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. Não via nada, não enxergava nada, tresvairado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a razão do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço.

Tremia numa crise formidável de desespero, os olhos conges­tionados, um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente.

O pequeno estacou surpreendido:

— Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro, como estou acabado... Olha, olha!

E apertava bruscamente o outro, sacudindo-o como se o quisesse atirar ao chão.

— Vê lá se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!

O efebo debatia-se, pálido, aterrado:

— Me largue! Não me provoque, senão eu grito!

— Anda pr’aí, grita, se és capaz! Grita, safado, sem-vergonha... mal-agradecido!

Sua voz tomava uma inflexão voluptuosa e terrível ao mesmo tempo a palavra saía-lhe gaguejada, estuporada e trêmula.

— Grita, anda!

O outro mudava de cores, recuava trôpego, a língua presa, quase a chorar, numa aflição de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:

— Me largue, repetiu. Eu lhe peço: me largue!

Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela posição, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo não falava alto, que todos ouvissem, não dava escândalo, não fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e histérico, um regougo abafado, longínquo e profundo.

— Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!

— Me solte! continuou o efebo trêmulo, acovardado. Me largue!

— Não te largo, não, coisinha ruim, não te largo, não! Bom-Crioulo, este que aqui está, não é o que tu pensas...

— Mas eu não fiz nada! Me solte, que é tarde!

Os olhos do negro tinham uma expressão feroz e amargurada, muito rubros, cruzando-se, às vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.

Um sujeito parou defronte, a olhá-los; vieram depois outras pessoas, outros curiosos; um marinheiro da Capitania, um italiano carregado de flandres, um guarda-municipal, crianças, mulheres...

Houve logo um fecha-fecha, um tumulto, um alvoroço. Trilaram apitos; vozes gritavam — rolo! rolo! e a multidão crescia no meio da rua, procurando lugar, empurrando, abrindo caminho, precipitando-se, formando um grande círculo de gente ao redor dos dois marinheiros, invisíveis agora.

Os bondes paravam. Senhoras vinham à janela, compondo os cabelos, numa ânsia de novidade. Latiam cães. Um movimento cheio de rumores, uma balbúrdia! Circulavam boatos aterradores, notícias vagas, incompletas. Inventavam-se histórias de assassinato, de cabeça que­brada, de sangue. Cada olhar, cada fisionomia era uma interrogação. Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se portas com estrondo.

Alguma coisa extraordinária tinha havido porque, de repente, o povo recuou, abrindo passagem, num atropelo.

— Abre! abre! diziam soldados erguendo o refle.

De cima, das casas, mãos apontavam pra baixo.

E D. Carolina, que também chegara à janela com a vozeria, com o barulho, viu, entre duas filas de curiosos, o grumete ensanguentado...

— Jesus! Meu Deus!

Uma nuvem escureceu-lhe a vista, correu-lhe um frio pelo corpo, e toda ela tremia horrorizada, branca, imóvel.

Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.

Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.

A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas calçadas. Era uma curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um desejo irresistível de ver, uma irresistível atração, uma ânsia!

Ninguém se importava com “o outro”, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos, porém, todos queriam “ver o cadáver”, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...

Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, té cair tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.