Cancioneiro d'elrei D. Diniz/Prefação

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Cancioneiro d'elrei D. Diniz: Pela Primeira Vez Impresso Sobre o Manuscripto da Vaticana por Caetano Lopes de Moura
Prefação


Tão admirável, tão superior parece á alçada do humano entendimento a instituição e organização primitivadas sociedades, que todas as nações á porfia, e como de industria, se esmerárão em rodear de prodígios os seus primórdios. Os legisladores, e em geral, todos aquelles que lançárão os primeiros alicerces do edifício social, e fundárão republicas e impérios, forão reputados por outros tantos entes privilegiados, e inspirados dos deoses, e o respeito, que em todos os tempos lhes hão tributado os povos que viviã á sombra de suas leis, era justificado pela utilidade, que d'ellas lhes provinha, e pelos numerosos benefícios, que d'aquella nova ordem de cousas dimanavão. Com effeito devião parecer-lhes mais que homens aquelles, que d'entre os outros a tal ponto se estremavão.

De igual respeito forão credores os que com seus escriptos contribuirão para a instrucção, e civilização dos povos, e entre estes tivêrão sempre o primeiro lugar os poetas, não só porque o seu modo de dizer, sendo mui differente do vulgar, e mais expressivo e animado, devia necessariamente gravar-se mais profundamente na memoria, mas tambe por haverem os poetas precedido aos demais escriptores. Antes de possuir um orador ou historiador, teve a Grécia innumeraveis poetas, e entre os Romanos, antes de florecerem os Ciceros, Sallustios, Titos Livios e Cornelios Nepotes, houve Uvios Andronicos, Accios, Pacuvios, Afranios, Plautos, Ennios e Lucilios. Assim que, menos admiração nos causaria a serie immensa de escriptores, que illustrárão os séculos modernos, se tiveamos presentes na memoria os nomes e os escriptos dos que lhes preparárão o caminho nos antigos; que aquillo que se coíbe na éra presente, as mais das vezes, ha sido semeado nas passadas. Seria pois uma manifesta ingratidão, e uma flagrante injustiça, se, exaltando as producções dos autores Portuguezes, que illustrárão os felizes reinados d'ElRei D. João IIIº e de seus successores, e encarecendo o merecimento individual dos differentes partos de seus fecundos engenhos, deixássemos sepultados em silencio os nomes, e os escriptos d'aquelles, que lhes hão precedido na mesma carreira. E comtudo que se ha feito até agora, e para que servem as diversas collecções, que dos poetas portuguezes do seculo XVº em diante se hão publicado? Na verdade que nada mais são, do que edifícios sem alicerces, em quanto se não recolherem, e derem á estampa as poesias dos séculos antecedentes ; por isso que só então se poderá ter cabal conhecimento do progresso, e successivo aperfeiçoamento da língua, que ora falíamos e escrevemos, e de seus primeiros incrementos. Inteirado d'esta verdade, e persuadido que um grandecadebal daportugueza antiga linguagem e da historia da respectiva e primitiva litteratura jazia sepultado nas trévas do esquecimento, e escondido era diversos codices depositados nas livrarias publicas e particulares da Europa, o meritissimo editor da presente publicação, o Snr. J. P. Aillaud, tendo sido informado pelo Snr. J. I. Roquete, professor de litteratura portugueza no collegio Estanislao, que na livraria do Vaticano existia um codice, onde se achavão as poesias d'ElRei D. Diniz, determinou de encher em parte o vazio immenso, que se observava nesta parte tão essencial da litteratura portugueza, e teve a ventura de o pôr em effeito, graças á illustrada intervenção e patriotico zelo do Ex m° Snr. Visconde da Carreira, o qual no meio das importantes occupações annexas ao eminente posto que occupa, acha ainda tempo para empregar-se em tudo quanto diz respeito á antiga litteratura portugueza. A seus desvelos se devem etn grande parte a correcção e fidelidade, com que saem pela primeira vez á luz as poesias do Augusto fundador da universidade de Coimbra, do instituidor da ordem de Christo, que tanto contribuio para dilatar por estranhas terras o nome e a gloria da nação portugueza, d'El Rei D. Diniz emfim, o arbitro, o conselheiro de todos os reis, que no seu tempo imperavão nos diversos Estados, em que a Hespanha se achava repartida. Muito contribuio por certo para o aperfeiçoamento da lingua portugueza, e para o progresso que as lettras fizerão em Portugal no decurso do seculo XIIIo, a longa residencia que fez em Pariz El Rei D. Affonso IIIo, em quanto conde de Bolonha. Já nesse tempo a universidade d'esta antiga capital gozava d'uma bem merecida celebridade. Os privilégios, que lhe havião sido concedidos por Philippe Augusto, tinhão sido augmentados no reinado de São Luiz : fundárão-se novos collegios, onde se ensinavão as humanas e divinas lettras, e entre elles o da Sorbonna, instituído por José Sorbon, Cónego da Sé de Cambrai, confessor d'El Rei, natural d'um lugarejo do seu appellido. Com o favor, que o sancto rei dava ás lettras, acodiâo de toda parte da Europa á universidade de Pariz os homens mais eminentes em saber, e nella vinhão estudar e graduar-se. Nella vierão instruir-se São Thomás, e São Boaventura, e tambem o celebre Dante, e Bocacio. Casado em França com a condessa de Bolonha, viuva de Philippe o Crespo, filho d'El Rei Philippe Augusto, o infante portuguez teve todo o vagar de fazer um longo discipulado da sciencia de reinar, e de instruir-se nas lettras, praticando com os hometos mais illustrados da Atbenas da idade media, e com muitos dos seus conterrâneos já ecclesiasticos, já seculares, que o havião acompanhado, ou se lhe tinhão ajuntado, depois que se partira de Portugal- gozava naquella capital da reputação de instruido e igualmente de esforçado : assim que foi um dos principes, a quem o summo pontífice por bulia assignada em Lyão a 30 de janeito de 1244 rogou houvesse de acudir aos christãos da Allemanha e d'outros paizes do Norte da Europa, ameaçados d'uma proxima invasão dos Tartaros [1]

Voltando para Portugal, logo que o infante D. Diniz, seu filho primogenito, começou a medrar em annos, tratou aquelle illustrado monarca de provêl-o de habeis mestres, e fez entre outros escolha do celebre Aimerico d'Ebrard, filho d'um fidalgo francez chamado Guillermed'Ebrard, senhor de São-Sulpicio em Quercy, o qual foi ao depois elevado por seu real discípulo á dignidade de Bispo de Coimbra em 1279, no mesmo anuo em que succedeo no throno a seu augusto pai[2]. Tinha então o novo monarca 1 annos de idade, e achava-se cercado d'uma roda de fidalgos velhos, que havião brilhado na corte de seu pai por seus talentos e virtudes, e cujos filhos se ensaiavão para mais tarde iIlustrar a sua : assim que, seguindo os vestígios de seu illustre progenitor, promoveo em Portugal os estudos, e antes de fundar a universidade, augmentou o numero dos mestres escolas, estabelecidos nas cathedraes e collegiadas, por cuja conta corria a instrucção da mocidade, e pelo mesmo teor o dos conventos e mosteiros, ondeseensinaváoas artes liberaes, talvez a medicina, e com certeza a lógica, como se deprehende da que para esse effeito compoz o celebre Pedro Julião, que, passados annos, veio a assentar-se na cadeira pontifícia com o nome de João XXI.

Entrava já nesse tempo a língua portugueza em sua adolescencia, com quanto ainda se não achasse de todo em todo depurada das fezes gothicas e dos vocabulos que da Italiana e Catalã na puericia recebera, com a vinda das Bainhas D. Mafalda e D. Dulce, e começava a tomar posse de quanto se publicava, ou fosse historico, ou judicial, posto de parte o latim barbaro, que até então havia estado em voga em toda a Península, como nol-o estão delatando visivelmente um semnumero de documentos d'esse feliz reinado, e com especialidade a memoravel circular, que no 1º d'Agosto do anno de 1281 fez El Rei D. Diniz passar ácerca da rectidão e brevidade com que os juizes e officiaes de justiça a devião administrar ás partes. A comparação d'esta importante peça, escripta em portuguez, assaz culto para aquelle tempo, e de certo intelligivel com os fragmentos, que se conservão da carta d' Egas Moniz para a sua dama, e mais alguns monumentos remanescentes das primeiras épocas da monarchia, nos fará ver quão sensíveis erão já os progressos, que naquelle reinado havia feito o dialecto portuguez; porêm o monarca que havia ouvido as lições da sabio Aimerico, e que praticava familiarmente com D. Domingo Jardo, um dos homens mais instruídos d'aquelle tempo, graduado na Universidade de Paris e bispo primeiro d'Evora* e ao depois de Lisboa, não devia limitarr-se a favorecer e amparar as lettras durante o seu reinado, mas sim assegurar-lhes o mesmo favor e amparo nos vindouros, fundando em Lisboa, no anno de 1290, os Estudos Geraes, que se transferirão depois para Coimbra. Com a fundação da Universidade aperfeiçoou-se ainda mais a língua portugueza, e conseguintemente a respectiva litteratura, por isso que só então se lançárão as bases de toda a erudição sagrada e profana. Para ambas estas cousas devião grandemente contribuir os sabios estrangeiros , que forão chamados para reger as diversas cadeiras, e as muitas traducções que aquelle illustrado monarca mandou fazer á sua custa de livros hespanhoes, arabes e latinos. Entre os primeiros citaremos o das Leis das Sete-Partidas, trasladado em portuguez pelo celebre Gregorio Lopes, e entre os segundos a obra do Arabe Rhasis. Assim que, com estes auxílios, a língua gallizíana, que era commum aos Gallegos lutenses e bracharenses, se veio a converter, em razão das modificações que nesse tempo se lhe introduzirão, e com a admissão e adopção de novos vocabulos, em um dialecto distincto, que com o andar dos seculos tinha de vir a ser uma das línguas mais harmoniosas do antigo, e novo mundo.

Não contribuirão menos para o aperfeiçoamente do dialecto portuguez e de sua litteratura as relações d'amizade, que d'ha muito subsistião entre a côrte de Portugal e a de Aragão, cujos monarcas imperavão na Provença; onde desde o reinado de Raimundo IV florecião as lettras, e com especialidade a poesia vulgar. Creadores do Parnaso moderno, os trovadores deverião occupar o primeiro lugar entre os poetas da Europa moderna, se o titulo de inventor fosse sempre uma prova indubitavel do merito do invento. Como quer que seja, este unico titulo foi sufliciente para que os trovadores fossem o objecto do respeito e da veneração de todos aquelles, que amavão as lettrase a poesia. O que certo não nos deve causar admiração, se reflectirmos, que nessas eras rudes, sendo tudo escripto em latim, lingua peculiar aos sabios e desconhecida da maior parte da gente, as poesias dos trovadores, por serem escriptas na vulgar, devião de ser naturalmente recebidas com universal applauso. Era um novo prazer, um novo genero de divertimento , inventado para recreio do espirito em um tempo, em que poucos havia, que não fossem encaminhados á satisfação material dos sentidos. Assim que, forão os trovadores mui bem aceitos em todas as côrtes, convidados a todas as festas, amados dos grandes e das damas, e a muitos (Telles esse dote do engenho foi occasião para se enriquecerem.

Debaixo de tão faustos auspícios, a reputação dos trovadores se espalhou por toda a Europa, de sorte que os proprios soberanos se desvelárão em imitál-os. El Rei D. Affonso o Sábio de Castella, e depois d'elle ElRei D. Diniz forão entre os monarcas da Peninsula os que mais se estremárão neste genero de poesia, de que só poderemos fazer um justo conceito, transportando-nos em pensamento aos seculos, em que elle estava em voga. Com effeito, se, sem attendermos a esta consideração, nos deliberarmos a ler as poesias eroticas de tão remotas éras, assentaremos entre nós, que aquelles paladins que as antigas chronicasnos representão como outros tantos guerreiros intrepidos e indomaveis , nada mais erão que uma multidão d'bomens effeminados, e engolfados nos prazeres sensuaes: o que de certo seria manifesto engano; que bem se vê, que não era na ociosidade e molleza dos Sybaritas, que se poderião ter formado aquelles corpos robustos, e aquellas almas varonís, e que, se no remanso da paz elles se recreavão trovando, assim o fazião por isso que em todos os tempos os homens mais sensatos tiverão de amoldar-se ao gosto dominante do seculo, em que viverão. De sorte que, com serem outros tantos Achilles, a lyra que pulsavão era a de Anacreonte; que não estava em poder d'elles servirem-se de outra. Demais que nessas eras ingenuas, nesses seculos de fé o amor e a devoção erão os unicos assumptos que se tratavão em versos. Sempre em seu principio toda a poesia foi amorosa; o amor era pois tudo para a maior parte dos trovadores, e o monarca portuguez teve de amoldar-se ao gosto do seu seculo, e seguindo o exemplo de Tibullo invocava as musas com a unica esperança de ser bem succedido em seus amores, dizendo como elle :

Ad dominam faciles aditus per carmina quero,
   Ite procul, Musac, si nihil ista valent.

Ou como o mesmo poeta se exprime em outro lugar :

Ite procul, Musae , si non prodestis amanti.

Assim que, o defeito essencial d'aquelle genero de poesia, e por ventura o verdadeiro motivo por que as dos trovadores jazerão tanto tempo sepultadas nas trévas do esquecimento, é talvez a propria uniformidade do assumpto, e do modo com que de ordinario o tratarão; não que o amor não desperte em nossas almas os mais elevados pensamentos, e as mais doces recordações , porêm as mesmas pinturas e imagens, por mais encantadoras que ao principio nos pareção, acabão por enfastiar-nos, e causarnos abhorriniento, se sem discontinuar porfião de nol-as apresentar aos olhos do corpo e do entendimento. Pede comtudo a razão, que attentemos na época em que forão compostas as trovas, ou poesias, de que tratamos; que nos lembremos, que nascidos em tempos rudes e apagados, os trovadores se abalançárão a abrir un novo caminho, que trilhárão com gloria sem mestre, e sem ensino; que a essas repetições, que tanto nos dissaboreão, devemos os estribilhos das cantigas d'agora; que não deixão de ter alguma propriedade, ou antes que são outras tantas bellezas poéticas, por isso que exprimem ao vivo a paixão; que não crê o vulgo na dor que é muda, e para o vulgo é que escrevião os trovadores.

Muitos são os autores que hão feito menção das poesias ou trovas d'ElRei D. Diniz. Citaremos por agora os seguintes: Rodrigo Mendes da Silva, no Catalogo da família Real d'Hespanha, vindo a fallar d'este monarca, diz o que se segue : «Este Rey compuso los primeros versos en lengua portuguesa.» Duarte Nunes de Leão, na Chronica do mesmo monarca (a pag. 133), expressa-se quasi nos mesmos termos, dizendo: «Foi o primeiro que na língua portugueza sabemos escreveo versos.»O mesmo chronista, n'um opusculo, que corre com o titulo: Censura in libellum de Regum Portugaliae origine, qui fratris Josephi Teixeira nomine circumfertur (Lisboa, 1595, in-4°), diz a respeito das poesias d'El-Rei D. Diniz o seguinte : Exstant hodie multa ejus carmina, varia mensura, tam de profanis amoribus, quam de laudibus beatissimee Virginis Deiparce, ex quibus apparet imitatum fuisse Lemovices et Avernos poetas. Vasconcellos (Anacephal. Reg. Lusitan., pag. 79), tratando do mesmo monarca, se exprime nos seguintes termos : «Latina Poeseos adeo studiosuá, ut propensionem a natura ejus congenitam facile inspi ceres, quam cum mira arte et industria excotuerit ex iis quae poetam omnibus numeris absolvunt in summo Rege desideratum est. Lusitanas porro Musas in illo tempore rudes et incultas ab agresti inconcinnitate ad floridos ac lepidos rhythimosvindicare tentavit, negue caepiis ingenium abfuit.

O autor da Bibliotheca Lusitana, no artigo consagrado a D. Diniz, faz menção do Cancioneiro de varias obras d'este monarca, o qual, diz elle, appareceo em Roma, quando reinava em Portugal D. João III, e funda-se na autoridade de Duarte Nunes de Leão e de Brandão na Monarchia Lusitana. D. Antonio Caetano de Sousa, no tomo 1ª das Provas da Historia genealogica, pag. 564, publicou uma Memoria dos livros do uso d'ElRei D. Duarte, que disse se conservava n'um livro anti goda livraria da Cartuxa d'Évora, donde a fez copiar o conde da Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes, na qual se aponta entre os demais livros o das trovas d'ElRei D.Diniz, assas recompensado do trabalho, que com ella tivemos, pelos novos conhecimentos que adquirimos no concernente a uma materia tão abstrusa, como na verdade é a de que estamos tratando, e pela satisfação que experimentamos todas as vezes que atinamos com a verdade, e que podemos rectificar os erros, ou reparar os descuidos dos que nos precedêrão, como agora fazemos no concernente aos diversos biographos d'ElRei D. Diniz. Todos o apregoão pelo primeiro que na língua portugueza escrevera versos; todos lhe conferem a palma de haver sido o primeiro trovador da sua nação, sem advertirem que a poesia, contemporanea da creação, era semelhante ao fogo de Vesta, que depois de accendido nunca mais se apagava; que se logo no principio da monarchia o celebre Egas Moniz versejava, devia necessariamente de ter havido d' ali em diante uma serie não interrompida de trovadores tanto mais excellentes, quanto mais aperfeiçoado era o dialecto em que escrevião, e que achando-se o Portuguez já entrado em sua adolescencia, como deixámos ponderado, na regencia e successivo reinado d'ElRei D. Affonso IIIo, devia de ser grande o numero d'esses antigos, se bem que ainda rudes alumnos das Musas. O codice da Vaticana n° 4803, cujo papel é grosseiro e com barbas, a lettra toda da mesma mão, vermelha a encadernação, e o formato in-4° com obra de dous dedos de grossura, encerra alêm das poesias d'ElRei D. Diniz as de outros muitos trovadores tanto Hespanhoes, como Portuguezes. Pondo de parte os primeiros, de que talvez tenhamos occasião de fallar n'uma dissertação particular, que intentamos dar á luz sobre as poesias dos trovadores em geral, citaremos entre os segundos os nomes de D. João d'Aboim, e de D. Diogo Lopes de Baiam, ambos commissarios nomeados no anno de 1264 para partirem juntamente com os commissarios d'ElRei de Castella a contenda que existia entre as duas corôas sobre os limites dos reinos de Leão e de Portugal [3] Depois d'estes vem os de D. Affonso Lopes Baiam, filho de D. Diogo, de Rodrigo Annes de Vasconcellos, D. João Soares Coelho, de Estevão Fernandes d'Elvas, de Fernão Fernandes Cogominho, contemporaneo d'ElRei D. Affonso IIIo, pois que foi um dos confirmantes da doação que no anno de 1261 o sobredito monarca fez a seu filho D. Affonso do castello de Marvão e outros lugares[4]. Apos estes seguem-se os nomes de Payo Gomes Charrinho[5] , João Lobeira[6], D. Pêro Gomes Barroso, Martim Peres d'Alvim, João Vaz[7], Estevão da Guarda[8] e outros muitos, os quaes todos composerão varias trovas que vem no referido codice. D'onde se segue que já no reinado d'ElRei D. Affonso IIIo andava corrente em Portugal o genero de poesia erotica adoptado pelos Trovadores; que já então o dialecto portuguez havia feito sensíveis progressos; que se ElRei D. Diniz não foi o primeiro que nelle escreveo versos, não se p[ode negar que levou a todos a palma na facilidade que teve peste particular, e que o codice da Vaticana é, senão o mesmo, uma copia antiga d'aquelle que o marquez de Santilhana disse haver visto sendo menino em casa de sua avó Dona Mencia de Cisneros.

Já dissemos era o dito codice escripto todo da mesma mão : a lettra, como se vê do facsimile, parece tambem ser antiquíssima, o que não obstante, os paleographos francezes que consultamos forão de parecer, que era do principio do seculo XVº, por ser ella mui parecida com a franceza, e ser o codice de que tratamos em papel, e não em pergaminho. Com quanto podessemos objectar-lhes, pelo que diz respeito ao papel, com o autor do Elucidario, que no tempo d'ElRei D. Diniz já esta materia era bem conhecida em Portugal, pois que no Tombo velho de São Simão da Junqueira se achou uma provisão Real em papel do anno de 1315, e que o mesmo monarca dez annos antes, e no decurso do de 1305 ordenou por lei aos tabelliões de escreverem as notas em livro de papel: o que concorda com o que diz Dom de Vaines em seu Diction. diptomal, raisonné. Ninguem se atreveo até aqui a determinar a época da primeira vez que o papel foi empregado, diz este sabio diplomatista, porém póde-se, sem receio de incorrer em erro, affirmar que se não póde fixar a invenção do papel antes do seculo XIIIo, nem o seu uso ordinario além do XIVo, se bem que já elle se houvesse introduzido nos tribunaes e nos archivos, muito tempo antes de se ter estabelecido uma differença entre o papel que servia para os actos publicos, e o que era destinado para os particulares[9]. Quanto ao caracter e talho da lettra, que muito se conforma com a franceza, poderíamos tambem allegar com o já mencionado autor os muitos amanuenses, que em consequencia da decisão tomada pelo concilio de Leão celebrado, segundo o mesmo autor, em 1090, ou mais provavelmente, conforme se encontra escripto na Arte de verificar as datas, em 1091, se mandárão vir de França para copiarem em lettra franceza todos os livros ecclesiasticos, abolida por uma vez a gothica, lombarda ou toletana que Ulphilas, Bispo dos Godos, havia posto em voga, e que é mui natural que dos livros ecclesiasticos passasse este novo modo de escrever para as escripturas particulares; não que pertendamos sustentar, que o uso da lettra e escriptura franceza se tornasse d'ali em diante universalmente adoptado em todo o Portugal; mas o certo é, que a maior parte dos Portuguezes se sujeitárão á decisão do Concilio, como se deprehende da lei promulgada por ElRei D. João Io, em virtude da qual era defeso aos tabelliões mouros de fazerem escripturas publicas em lettra arabica, ou qualquer outra, e pelo mesmo teor aos Judeos em lettra hebraica, mas sómente em lettra christenga portugueza.

Como porêm não fossemos idoneos para dar talho em tão difficil questão, deixamos a decisão d'ella ao arbitrio dos paleographos portuguezes, unicos juizes competentes em tão importante assumpto.

Não cabe nos limites d'uma simples prefação mais longo arrezoado; assim que resistimos á tentação que nos impellia a fazer d'uma maneira succinta a historia dos nossos trovadores comparados com os da Hespanha , Italia e França, tanto provençaes como avernos; porém se esta publicação fôr bem recebida dos amigos da antiga litteratura, talvez o mentissimo editor d'ella se animará a dar á estampa uma collecçáo completa dos trovadores e poetas portuguezes anteriores ao seculo XVº, e então teremos occasião de pôr em effeito o nosso projecto.

Resta-nos solicitar a indulgencia de nossos leitores no concernente a uma producção de tão remota era, e esperamos que relevem as faltas que tivermos commettido, bem como a rudeza das poesias d'ElRei D. Diniz, lembrados de que escrevia em uma lingua, que ainda se não achava bem polida, e que com quanto se tenha aperfeiçoado no longo espaço de cinco seculos, conserva ainda algum ressabio de sua antiga rustiqueza, de sorte que podemos, dizer, como Horacio o dizia no tempo d'Augusto: Hodieque manent vestigia ruris.

Para facilitar a leitura, por conselho de pessoas bem entendidas nesta materia, assentou o editor de separar as diversas partes da oração que no Mss. se achavão unidas e confundidas entre si, supprindo com apostrophos as elisões, e fazendo um uso razoavel dos demais signaes orthographicos, pelo memo teor que hão feito em França em caso identico MM. Raynouard, de Roquefort, Paulin-Paris e outros muitos, e em Hespanha D. Thomas Antonio Sanchez.

Referências[editar]

  1. Torre do Tombo, liv. 1º das Bulias .fol. 15.
  2. Este sábio prelado, bem que cumulado de honras por seu real discípulo, não perdeo de todo o amor á sua pátria, e mandou á sua custa edificar um mosteiro, que dedicou á N. S. no valle chamado Paradis d'Espagnac, na diocese de Cahors, onde, segundo as suas ultimas vontades , foi sepultado. Devemos estas e outras particularidades, ao Senhor Ferdinand Denis, que tanto tem contribuído para vulgarizar em França as bellezas da historia e da litteratura portuguesa.
  3. Corpo diplom. portuguez, pelo senhor Visconde de Santarém. tom. Io, p. 16 e 24.
  4. Souza, Hist. geneal. tomo 1º das Provas, p. 62
  5. Livro velho das linhagens, p. 20
  6. Foi um dos confirmantes da carta de doação da villa da Lourinhã, passada por ElRei D Affonso IIIº, no anno de 1278, em favor de seu filho D. Affonso
  7. É autor das trovas que se encontrão a pag. 90 do Cancioneiro do collegio dos Nobres, e que começãm pelo seguinte verso: Muyt' ando triste no meu coraçon, etc.
  8. Estevam Guarda foi grande privado d'ElRei D. Diniz, e um dos seus testamenteiros. Vid. Sousa, Hist. geneal., t. Iº das Provas, p 104.
  9. Vid. obra cit., tom IIº, p. 171.