Carolina/III

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Carolina por Casimiro de Abreu
Capítulo III: A Volta


Estamos em 1849.

Numa tarde de fevereiro, levado por toda a velocidade de seu bom cavalo, seguia um cavaleiro a estrada de Lisboa a ***, estrada onde ficava essa linda quinta com sua casa, no meio de perfumes e de verdura.

Esse cavaleiro, era Augusto.

Quando ainda de longe ele avistou a casa, seus olhos disseram é ali, seu coração indeciso, murmurava: aquela?!...

Ai! já não era a mesma quinta bela e verdejante, que ele tinha deixado na primavera! O inverno havia-a transformado horrivelmente.

Os ramos das faias e dos choupos gigantes já não se debruçavam sobre o muro. A natureza estava triste. As árvores não tinham folhas: apenas erguiam seus ramos despidos que vergavam com o vento.

Uma tristeza involuntária apoderou-se do mancebo.

Prendeu ao muro o seu cavalo coberto de suor e poeira e pôs-se a cantar com uma voz trêmula:

"Ó querida, estou de volta,
Venho-te um abraço dar;
Enxuga teus lindos olhos,
Sê minha, que eu sei-te amar."

Nenhuma voz respondeu à sua copla apaixonada. Um silêncio profundo reinava nas alamedas; só os ramos das árvores se agitavam. Dir-se-ia ser um cemitério.

Augusto teve um pressentimento; sua fronte empalideceu por um instante, mas continuou repetindo:

"Enxuga teus lindos olhos,
Sê minha, que eu sei-te amar."

O mesmo silêncio terrível. Só o eco repetia triste suas últimas palavras: "Sê minha, que eu sei-te amar."

Saltou o muro e alongou a vista impaciente.

Que tristeza! As alamedas estavam desertas, o jardim já não florescia, o lago já não tinha o seu cisne, a natureza já não sorria!

Foi direito ao caramanchão, ele lá estava no mesmo lugar com o seu banco de cortiça, mas a fonte que dantes murmurava parecia gemer agora!

Augusto sentou-se no banco com a cabeça encostada a uma das mãos e olhou para tudo com uma indizível tristeza.

Ai! os pássaros já não cantavam, nem a brisa brincava travessa!

Então o pranto correu-lhe livre, o seu coração dizia-lhe que chorasse.

— Foi aqui, murmurava ele, foi aqui que me despedi dela, foi aqui que prometi torná-la a ver. Meu Deus! quantas lágrimas não derramei quando atravessava o Oceano, que me separava da pátria, onde ficara a minha alma! E agora, que torno a ver a terra onde nasci, agora, que devia ver a minha Carolina, não sei por quê, sinto uma vontade imensa de chorar. Carolina! Carolina! bradou ele, vem ver o teu Augusto, vem dizer-lhe que sempre o amaste, vem dar ao desgraçado que chorou os prantos da saudade, o teu beijo de amor: e os soluços abafaram-lhe a voz no peito.

Mas o mesmo silêncio lúgubre continuou; nem uma voz, nem um som respondeu aos gemidos do amante.

Ergueu-se pálido e trêmulo e caminhou vagaroso pela alameda que ia dar ao jardim, cantando sempre com a sua voz comovida aquela copla, que tão bem exprimia os desejos do seu coração.

Chegou ao jardim e olhou. A casa tinha as portas e as janelas todas fechadas. Também estava deserta.

— Mudaram-se, disse ele, Carolina já aqui não está!

E volta pensativo para o caramanchão e parou diante da fonte.

— Onde está Carolina? perguntou ele, como se a fonte pudesse responder-lhe.

— Onde está Carolina? perguntou ele às árvores, e parecia esperar a resposta.

Mas a fonte continuava a correr e as árvores a agitar os ramos.

— Então adeus, meu caramanchão, minha fonte, meu jardim, adeus!

E Augusto saltou o muro e quis passar por diante da casa onde estivera a sua amada. Quando aí chegou, parou e pôs-se a olhar para a janela onde a tinha visto a primeira vez.

— Jesus! Meu Deus! aquele não é o senhor Augusto? dizia uma saloia, que passava por ali, a seu marido.

— Parece que é, respondeu o saloio.

Ao ouvir o seu nome, Augusto olhou para o lado donde partiram as vozes e reconheceu-os. Depois de os cumprimentar perguntou logo:

— Diga-me, o senhor Ferraz já aqui não mora?

— Há que tempos! mudaram-se pelo Natal.

— Sabe para onde?

— Isso é que não sei; tanto ele como a senhora estavam muito tristes, e tinham razão, aqueles desgostos não são para menos.

— Então eles tiveram algum desgosto? perguntou Augusto, que pressentia a morte de Carolina.

— E muito grande. Sua filha, a senhora D. Carolina, fugiu...

— Carolina fugiu? perguntou Augusto com uma voz que assustou a pobre mulher.

— Sim senhor, respondeu ela, foi no meado do mês de dezembro. Custa a creditar, que uma menina tão boa deixasse sua mãe. E daí pode ser que fosse roubada, quem sabe!

Augusto já nada ouvia; estava louco.

— Oh meu Deus! meu Deus! murmurou ele.

— Jesus! que é isso, senhor Augusto? perguntou a mulher vendo-lhe a extrema palidez e o chamejar sinistro dos olhos.

— E eu que a amava tanto! continuou ele em voz baixa.

A saloia compreendeu-o e afastou-se murmurando:

— Pobre rapaz! o que lhe fui eu dizer!

Augusto ficou ainda algum tempo imóvel com os olhos turvos e o peito arquejante, mas depois erguei a fronte de repente e bradou com uma explosão terrível de dor:

— Ah! mulher, mulher! tu me mataste!

Desprendeu seu cavalo, montou e desapareceu na estrada. Ainda olhou de longe uma vez para aquela quinta deserta e triste, que lhe inspirava tantas recordações...

O MUNDO!

O esplêndido sol dum dia de junho de 1852 brilhava com toda a sua força.

Lisboa—a ufana—curvada graciosa para o Tejo, que lhe beija as plantas, oferecia alegre as suas torres, seus palácios, suas praças, suas ruas, aos raios ardentes desse astro vivificador.

Entranhemo-nos por essa Lisboa, labirinto como tantos outros que se chamam Paris, Londres, etc. Vereis por toda a parte desonra, infâmia, crime! Vereis a virtude esmagada pelo vício! Vereis a par da mais deslumbrante opulência, a mais horrível miséria! Vereis o pobre ajuntar as migalhas dos festins e das orgias do rico! Vereis desacatada a religião, profanado o templo, insultado o Cristo!

— E vive-se nesse inferno?! perguntareis vós.

— Vive-se sim, porque esse abismo alcatifado de flores, tem uma atração a que ninguém resiste. Vive-se sim, porque aí pode o malvado esconder a fronte criminosa no meio da multidão, que se agita e ruge como o oceano em um dia de cólera. Vive-se sim, porque a mulher, que o mundo perdeu, pode aí facilmente furtar-se à vista daqueles, que a conheceram no seu tempo de candura e d’inocência.

— Vinde.

— Por aqui?!...

— Sim, por aqui; causam-vos nojo estas ruas estreitas, tortuosas e lamacentas? Também a mim. Reparai como estes prédios denegridos exalam um fétido insuportável. Tudo respira orgia, vício! Não vedes essas mulheres, que nos atraem com seus olhares voluptuosos, seus sorrisos d’amor, seus requebros lascivos? São mulheres perdidas. Coitadas! Arrojaram-nas nesse abismo de devassidão, e não há mão, que as salve! Hão-de morrer revolvendo-se nesse lodaçal imundo! Desçamos esta calçada.

Não vedes além, aquela jovem pálida e linda encostada à sua janela? Tem seus olhos negros fitos no céu; talvez esteja passando pelo pensamento toda a sua vida. Quem sabe?

Olhai! também tem sobre a fronte o cunho da prostituição.

Mas reparai bem: não vos parece, assim como a mim, tê-la já visto?... Esperai! Foi...há-de haver quatro anos...numa linda quinta...chamava-se...chamava-se...Carolina...

Carolina!! Aquela virgem que passeava pensativa e bela no seu jardim...inocente como uma pomba?... Oh o mundo!...O mundo!...

E foi um miserável que a perdeu!...

Fernando! Fernando! o que fizeste!...

Onde está teu filho, malvado?!

Meteste-o na roda! Vai, mostro, vai ver se o encontras agora, no meio dessas crianças condenadas a viver, sem jamais receberem uma carícia de sua verdadeira mãe, sem que na hora derradeira se recordem que os beijos maternos lhe roçassem as faces na sua infância.

E quando um dia, um homem puser sobre teu peito a ponta do seu punhal, exigindo-te a—bolsa ou a vida,— terás a certeza de que esse bandido não seja o teu filho?...

Ah! Fernando! Fernando! a virgem, que louca, se confiou na tua lealdade,— seduziste-a!

A mulher, que com vergonha da sua família, deixou por teus conselhos a casa paterna, — abandonaste-a!

E a desgraçada, numa noite tempestuosa, vertendo prantos de dor e arrependimento, bradou desesperada: “Fernando! Fernando! tu m’ enganaste! Augusto, perdão! Meu Deus, valei-me! que hei-de eu fazer? Oh! a culpa não é minha, levo a consciência tranqüila!”

E lançou-se no vício!...

E não houve um braço que a sustivesse à borda do precipício!...

E as turbas, que vêm e vão, quando passam, chamam-lhe—prostituta!...

Covardes! não insulteis essa mulher. Foi um homem que a perdeu.

Lembrai-vos que ela já foi virgem; lembrai-vos que essa rosa, hoje pálida, desbotada, murcha e estendida no solho dum lupanar, já foi um botão mimoso, que entreabria risonho num jardim florido, e que o vendaval da vida derrubou.

Não a insulteis! resgatai-a do vício; tirai-lhe o labéu infamante, que lhe pesa sobre a fronte e Deus vos recompensará.

Não a insulteis, que aquele pobre coração há-de sofrer tormentos horríveis. Quantas vezes não terá ela chorado lágrimas de sangue, lembrando-se das carícias de sua mãe, do amor de seu pai, dos seus dias sossegados e felizes passados no lar doméstico! Quantas vezes não terá pensado no seu Augusto, que tanto a amava e que talvez agora a amaldiçoe!...

E essa infeliz, ralada por sofrimentos horríveis, não terá, na última hora, mão amiga, que lhe venha cerrar as pálpebras?!...

Ah! mundo! mundo! abismo insondável, que tragas tantas vítimas!...

Ah! Sociedade estúpida! que escarneces da desgraça!...

Ah! Justiça! Justiça! palavra irrisória, que nunca punes o criminoso!...

Mas há a de Deus, e essa... é justa!