Cartas Chilenas/XIV

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Cartas Chilenas por Tomás Antônio Gonzaga
Epístola a Critilo

Qual seja o original. Dentro em minha alma

Vejo, ó Critilo, do chileno chefe,

Tão bem pintada a história nos teus versos,

Que não sei decidir qual seja a cópia,

Qual seja o original. Dentro em minha alma

Que diversas paixões, que afetos vários

A um tempo se suscitam! Gelo e tremo,

Umas vezes de horror, de mágoa e susto;

Outras vezes do riso apenas posso

Resistir aos impulsos. Igualmente

Me sinto vacilar entre os combates

Da raiva e do prazer. Mas ah! que disse!

Eu retrato a expressão, nem me subscrevo

Ao sufrágio daquele, que assim pensa,

Alheio da razão, que me surpreende.

Trata-se aqui da humanidade aflita;

Exige a natureza os seus deveres.

Nem da mofa ou do riso pode a idéia

Jamais nutrir-se, enquanto aos olhos nossos

Se propõe do teu chefe a infame história.

Quem me dirá que da estultice as obras

Infestas à virtude e dirigidas

A despertar o escândalo conseguem,

No prudente varão, mover o riso?

Eu veio que um Calígula se empenha

Em fazer que de Roma ao Consulado,

Se jure o seu cavalo por colega.

Vejo que os cidadãos e as tropas arma

O filho de Agripina, que os transporta

Em grossos vasos sobre o Tibre e logo

Por inimigos lhes assina os matos,

Que atacar manda com guerreiro estrondo.

Direi que me recreia esta loucura?

Que devo rir-me e sufocar o pranto

Que pula dos meus olhos? Não, Critilo,

Não é esta a moção que n'alma provo.

Por entre estes delírios, insensível,

Me conduz a razão, brilhante e sábia,

A gemer igualmente na desgraça

Dos míseros vassalos, que honrar devem,

De um tirano o poder, o trono, o cetro.

Se Talia e Melpômene nos pintam,

Nos seus teatros, paixões humanas,

Ao ridículo gesto, ou ao semblante

Da cena que o coturno me apresenta,`

Eu me conformo ao interesse, quando

Aborreço a maldade e quando rendo

À formosa virtude os dignos votos.

Despedace Medéia os caros filhos,

Guise Atreu de seus netos as entranhas,

Eu terei sempre horror às impiedades.

Jamais da irreligião, da fé mentida

Me hão-de enganar os pérfidos rebuços

Ou da fingida cena os vãos adornos.

Devo pois confessar, Critilo amado,

Que teus escritos, de uma idade a outra

Passarão, sempre de esplendor cingidos:

Que a humanidade, enfim desagravada

Das injúrias que sofre, por teu braços,

Os ferros soltará, que desafrouxa,

Tintos do fresco, gotejado sangue.

Súditos infelices, que provastes

Os estragos da bárbara desordem,

Respirai, respirai: ao benefício

Deveis do bom Critilo a paz suave,

Que a vossa liberdade alegre goza,

Sim, Critilo, são estes os agouros

Que, lendo a tua história, ao mundo faço.

De pejo e de vergonha os bons monarcas,

Que pias intenções sempre alimentam,

De reger como filhos os seus povos,

Tocados se verão. Prudentes, sábios,

Consultarão primeiro sobre a escolha

Daqueles chefes, que a remotos climas

Determinam mandar, deles fiando

A importante porção do seu governo.

Prevenidos que a vã, brutal soberba

Só nas obras influi destes monstros,

Pelo escrutínio da virtude espero,

Que regulados os seus votos sejam.

De uma estéril mortal genealogia

Que o mérito produz de seus maiores,

Eles, amigo, argumentar não devem

Propalados talentos. A virtude

Nem sempre aos netos, por herança, desce.

Pode o pai ser piedoso, sábio e justo,

Manso, afável, pacífico e prudente:

Não se segue daí que um ímpio filho,

Perverso, infame, díscolo e malvado,

Não desordene de seus pais a glória.

Nem sempre as águias de outras águias nascem,

Nem sempre de leões, leões se geram,

Quantas vezes as pombas e os cordeiros

São partos dos leões, das águias partos!

Para reger, ó rei, os vossos povos,

Debalde ides buscar brasões e escudos

Entre os vossos dinastas. Roma, Roma

As fasces, as secures, mais as outras

Imperiais insígnias só tirava

Da provada virtude. Se das togas

Distinguia uma e outra espécie, Atenas

! quem a todas o caráter dava.

Igualmente civil jurisconsulto

Que instruído guerreiro, era mandado

Um cidadão que da província as rédeas

Manejasse fiel. Daqui os Fábios,

Daqui os Cipiões e os bons Emílios,

Os Césares daqui, que os fastos ornam.

Quão diferentes, hoje, os nossos grandes!

É filho do marquês, do conde é filho,

Vá das Índias reger vasto império.

() Deus! e que infelices os vassalos

Que tão longe do trono prostitui

O vosso império aos abortivos chefes!

Lá vai aquele, que de avara sede

E por gênio arrastado: que tesouros

Não espera ajustar! Do alheio cofre

Se há-de esgotar a aferrolhada soma.

Desgraçada Justiça! Da igualdade

Tu não sabes o ponto: é a balança

Do interesse que só por ti decide.

Que despachos injustos, que dispensas.

Que mercês e que postos não se compram

Ao grave peso de selada firma!

Outro vai que, lascivo, e desenvolto

Só da carne as paixões adora e segue.

Honras, decoros, vós sereis despojos

Do seu bruto apetite. Em vão, cansados

Pais de família, zelareis vós outros

Da vossa casa o pundonor herdado.

Aos vis ataques do atrevido orgulho

Hão-de ceder as prevenções mais fortes;

Vítimas da voraz sensualidade

Vossas filhas serão, vossas mulheres.

Que direi do soberbo, do vaidoso,

Do colérico e de outros vários monstros,

Que freio algum não conhecendo, passam

A sustentar no autorizado cargo

Tudo quanto a paixão lhes dita e manda!

Não sofre aquele, que o vassalo oculte

os cabedais que à sua indústria deve

E que a seus filhos e a seus netos, possa

Deixar, morrendo, uma opulenta herança.

Um falso crime lhe figura, aonde

Esgote as forças, que levar procura

Alem das frias, apagadas cinzas.

Este medita que a nobreza ilustre

Sufocada se veja. A prisão dura,

O distante degredo é que promete

Da prevista vingança o fim prescrito.

Ó senhores! ó reis! ó grandes! quanto

São para nós as vossas leis inúteis!

Mandais debalde, sem julgada culpa,

Que o vosso chefe, a arbítrio seu, não possa

Exterminar os réus, punir os impios.

É c’os ministros de menor esfera

Que falam vossas leis. Nos chefes vossos

Somente o despotismo impera e reina.

Gozar da sombra do copado tronco

É só livre ao que perto tem o abrigo

Dos seus ramos frondosos. Se se aparta

Da clara fonte o passageiro, prova

Turbadas águas em maior distancia.

Mas ah! Critilo meu, que eu estou vendo,

Que já chegam a ler as cartas tuas:

Estes bárbaros monstros são cobertos

De vivo pejo, ao ver os seus delitos,

Que em tão disforme vulto, hoje aparecem.

Destro pintor, em um só quadro a muitos

Soubeste descrever. Sim, que o teu chefe

As maldades de todos compreende.

Aqui vê-se o soberbo, que pensando

Do resto dos mais homens nada serem,

Mais que humildes insetos, só de fúrias

Nutre o vil coração e a seus pés calca

A pobre humanidade. Aqui se encontra

O ímpio, o libertino, que ultrajando

Tudo que é sagrado, tem por timbre

Ao público mostrar, que o santo culto

Que nos intima a religião, somente

Aos pequenos obriga, e que por arte

Os conserva a ilusão no fanatismo,

Porque da obediência às leis se dobrem;

Aqui se acha o lascivo; é o vaidoso,

! o estúpido, enfim é o demente

O que ao vivo aparece nesta empresa.

Tu, severo Catão, tu repreendes

Com teu mudo semblante a pátria Roma.

Nem seus teatros de lascívia cheios

Sofrem teus olhos nobremente irados.

Pede o congresso, de terror ferido,

Que o rígido censor o circo deixe

Ou que se não produza a torpe cena.

Este, ó Critilo, o precioso efeito

Dos teus versos será, como em espelho,

Que as cores toma e que reflete a imagem,

Os ímpios chefes de uma igual conduta

A ele se verão, sendo argüidos

Pela face brilhante da virtude,

Que, nos defeitos de um, castiga a tantos.

Lições prudentes, de um discreto aviso,

No mesmo horror do crime, que os infama,

Teus escritos lhes dêem. Sobrada usura

É este o prêmio das fadigas tuas.

Eles dirão, voltando-se a Critilo:

Quando devemos, ó censor fecundo,

Ao castigado metro, com que afeias

Nossos delitos, e buscar nos fazes

Da cândida virtude a sã doutrina!