Cartas de Amor ao cavaleiro de Chamilly/Carta Primeira

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Cartas de Amor ao cavaleiro de Chamilly por Mariana Alcoforado, traduzido por Morgado de Mateus
Carta Primeira


CARTA PRIMEIRA
Considera, meu Amor, quam excessivo foi o teu descuido de prever o que havia de suceder-nos!

Ah, infeliz! foste enganado, e me traíste, por lisonjeiras esperanças mentirosas.

Uma afeição sôbre que tinhas fundado tantos projectos deleitosos, e da qual te prometias infinito prazer, põe-te agora numa desesperação mortal, sómente comparável em crueldade à da ausência, que é dela causa.

E há-de esta ausência, para a qual ainda a minha dôr, por mais engenhosa que seja, não soube achar nome assaz funesto, ¿há-de ela privar-me de contemplar aqueles olhos em que divizava tanto amor, e que me faziam conhecer afectos, que enchiam meu peito de alegria, que eram tudo para mim, tudo supriam, e enfim me satisfaziam?

Ai de mim! os meus ficaram privados da única luz que os animava, só lhes restam lágrimas nem eu lhes dou outro exercício senão o de chorar continuamente, desde o instante que soube estares resolvido a uma separação, para mim tam insofrível, que em breve tempo me acabará.

Parece-me, porém, que de algum modo me afeiçôo a infortúnios, dos quais és a única causa.

Dediquei-te a minha vida apenas te vi, e sinto algum gôsto em fazer-te dela sacrifício.

Milhares de vezes no dia a ti envio meus suspiros, que te procuram por tôda a parte, e não me trazem outra recompensa de tantas inquietações, mais do que um aviso, por demasia sincero, da minha má Fortuna, a qual cruamente não consente que eu me lisonjeie, mas repete-me a cada instante: «Cessa, cessa, ó Mariana desditosa, de consumir-te em vão, e de procurar um amante que jàmais tornarás a ver, que passou os mares para fugir de ti, que vive em França entregue ás suas delícias, e que nem um só momento cuida nas tuas mágoas, que te dispensa de todos êsses transportes, e não sabe agradecer-tos…»

Mas não, eu não posso resolver-me a formar de ti um conceito tam afrontoso, e tenho nímio interêsse em justificar-te. Não quero mesmo imaginar que te esqueceste de mim.

¿E não sou eu já assaz desaventurada, sem que ainda me deixe atormentar por falsas suspeitas?

¿Para que fazer esforços para apagar da memória todos os desvelos, com que anelaste a dar-me provas do teu amor?

Ah! todos estes desvelos tanto me encantaram, que eu seria uma ingrata, se não te amasse com o mesmo arrebatamento a que me impelia a minha paixão, quando gozava dêsses testemunhos que me davas reciprocamente da tua.

¿Como é possivel que lembranças de momentos tam agradáveis se tornassem tam crueis? ¿E que hajam de necessidade, em despeito da sua própria natureza, servir sómente para tiranizar o meu coração?

Ai de mim! A tua última carta o reduziu a um estado miserando; as suas palpitações foram tam sensíveis, que pareciam-me como esforços para separar-se de mim, e reunir-se a ti.

Fiquei tam abatida destas comoções violentas, que caí em um desmaio por mais de três horas, perdidos os sentidos…

Lutava assim contra a vida que não queria recobrar, pois devo perdê-la por ti, já que não posso conservá-la para ti…

Enfim, tornei de mau grado a ver a luz…

Comprazia-me o sentir que morria de amor… e demais estimava cessar para sempre de sofrer as angústias de um coração, despedaçado pela dôr da tua ausência.

Depois dêste acidente, padeci muitas e diversas indisposições; ¿mas como posso eu existir sem males, enquanto não torno a ver-te?

Sei suportá-los sem murmurar, porque de ti provêm.

Como? ¿É essa a retribuição que me dás por haver-te amado com tam extremada ternura?

Não importa.

Estou resolvida a adorar-te tôda a minha vida, e a não ver mais pessoa alguma… e certifico-te que farias bem de não amar juntamente ninguém.

¿Acaso poderias contentar-te com outra paixão menos ardente do que a minha?

Encontrarias talvez mais formusura — ainda que em outro tempo me disseste que me não faltava gentileza, — mas nunca acharias tanto amor… e tudo o mais é nada.

Deixa de encher as tuas cartas de ociosidades: não me escrevas que me lembre de ti.

Eu não posso esquecer-te, nem tam pouco me esqueço da esperança, que me déste, de vir passar comigo algum tempo.

Ah! ¿porque não queres tu passar assim tôda a vida?

Se me fôsse possível sair desta amaldiçoada clausura, não esperaria certo em Portugal o cumprimento das tuas promessas; mas partiria desconcertadamente a buscar-te, seguir-te, e amar-te por todo o mundo.

Não ouso lisonjear-me desta possibilidade, e não quero nutrir uma esperança, que me daria seguramente algum gôsto, pois só quero ser sensivel aos meus pesares.

Confesso, todavia, que meu irmão, oferecendo-me uma ocasião de escrever-te, causou-me a surprêsa de alguma sensação de alegria, e suspendeu por um instante a desesperação em que estou.

¿Conjuro-te de dizer-me para que te aplicaste com tanta eficácia a encantar-me, como fizeste, sabendo mui bem que devias abandonar-me?

Ah! dize, ¿porque motivo te assanhaste em fazer-me desgraçada?

¿Porque me não deixaste tranquila no meu claustro?

¿Que injúria ou mal te havia eu feito!?

Mas perdôa.

Não te imputo culpa alguma.

Não me sinto fôrças de cuidar na minha vingança; acuso únicamente o rigor de meu acerbo destino.

Parece-me que, separando-nos, fez-nos todo o mal que podiamos temer.

Separar nossos corações não poderia. O amor, mais poderoso do que êle, os ligou por tôda a nossa vida.

Se tens algum interêsse na conservação da minha, escreve frequentemente.

Bem mereço atenção e cuidado de me participares o estado de teu coração, e da tua fortuna.

Sobretudo… vem a ver-me.

Adeus! não posso largar êste papel, que há-de ir ás tuas mãos.

Bem quisera ter a mesma dita…

Ai! que loucura é a minha! Percebo, ainda mal, que isso não é possível…

Adeus! não posso mais…

Adeus!

Ama-me constantemente, e faze-me padecer inda maiores males.