Cartas de Marx ao Dr. Kugelmann/10 de Junho de 1867

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Cartas de Marx a Kugelmann por Karl Marx
10 de Junho de 1867
Tradução (a partido do inglês) do publicado no Marxists Internet Archive (CC-BY-SA)


10 de Junho de 1867

Caro amigo

O atraso dessa carta me coloca sob a suspeita, mais ou menos "bem fundamentada", de ser um "amigo da onça". Como atenuante, só posso dizer só estou "residindo" em Londres há alguns dias. Antes disso eu estava com Engels em Manchester. Mas você e sua querida esposa me conhecem bem o suficiente para reconhecer que pecados epistolares são o normal comigo. Mesmo assim, estive com vocês todos os dias. Conto a minha estadia em Hanôver dentre os mais belos e prazerosos oásis no deserto da vida.

Não tive problemas em Hamburgo exceto que, apesar de todas as precauções, fui apresentado ao senhor Wilhelm Marr.[1] Ele é, no que se refere à sua personalidade, uma edição cristã de Lassale, de valor bem menor, é claro. Também, o senhor Niemann[2] estava tocando nos poucos dias que passei lá. Mas eu estava muito mimado pela companhia em Hânover para querer visitar o teatro em sociedade menos agradável. Então perdi o senhor Niemann.

À propos. Meissner[3] está preparado para imprimir a brochura médica que você pretende escrever. Só tens que enviar-lhe o manuscrito e mencionar meu nome. Quanto aos detalhes, você terá que fazer os demais arranjos por conta própria.

Excecto pelo tempo ruim no primeiro dia, o caminho de Hamburgo a Londres foi bastante agradável. Algumas horas antes de alcançarmos Londres, uma garota alemã, que já atraíra minha atenção por seus trajes militares, anunciou que pretendia viajar de Londres a Weston-Super-Mare naquela mesma noite e não sabia como, com toda sua bagagem, ela devia proceder. O caso era ainda pior, visto que no Sabbath, faltam mãos uteis na Inglaterra. Ela mostrou-me o nome da estação de trem em Londres da qual ela viajaria. Amigos haviam anotado num cartão. Era a estação Noroeste, que eu também tinha que passar. Então, como um bom cavaleiro, ofereci para deixá-la na estação. Aceitado. Então me ocorreu que Weston-Super-Mare fica a Sudeste, enquanto a estação que eu deveria passar e que estava escrito para a garota era Noroeste. Eu consultei o capitão. E o resultado é que ela devia ir a uma parte de Londres que fica em direção totalmente oposta à que eu queria ir.[4] Mas eu esta comprometido a fazê-lo e tive que fazer bonne mine à mauvais jeu.[5] Chegamos às duas da tarde. Levei a donna errante[6] à estação, e descobri que o trem dela não partiria até oito da noite. Como não havia escapatória, tive que matar seis horas com Mademoiselle, caminhando no Hyde Park, visitando sorveterias, etc. Acontece que ela se chama Elizabeth von Puttkammer, uma sobrinha de Bismarck, com quem ela havia acabado de passar algumas semanas em Berlim. Ela tinha todo o Army List com ela, pois esta família provê ao nosso "bravo exército" em abundância, com cavalheiros de honra e boa estirpe. Ela era uma garota alegre e estudada, mas aristocrática e preto-e-branca até a ponta do nariz.[7] Qual não foi a surpresa dela em descobrir que caiu em mãos "vermelhas". Mas garanti a ela que nosso rendezvous passaria "sem derramamento de sange" e a a vi partir, saine et sauve,[8] da estação. Imagine só que forragem minha conspiração com Bismarck daria a Blind[9] ou outros democratas vulgares!

Hoje enviei a 14ª correção. Eu recebi a maioria delas enquanto estava com Engels, que está extraordinariamente satisfeito com elas, e com exceção das folhas 2 e 3, encontrei-as escritas de maneira muito fácil de entender. O veredito dele me acalmou os ânimos, já que costumo achar minhas coisas desagradáveis a mim, especialmente num primeiro olhar.

Estou enviando à sua querida esposa, a quem eu peço que transmita meus agradecimentos especiais pela recepção amistosa e cordial, a fotografia da minha segunda filha, Laura, já que não há outras sobrando, e temos que tirar novas. Engels também terá novas cópias feitas das fotografias dele de Wolff.[10] Ele estava bastante satisfeito pelos seus despachos.

Minhas melhores felicitações à "Madämchen",[11] Eleanor está na escola, do contrário escreveria para ela. E agora, Adio!

Seu,


Karl Marx

Notas[editar]

  1. Wilhelm Marr (1819-1904) – publicitário alemão. Na década de 1840 era apoiador ativo do movimento revolucionário dos artesãos suíço-alemães. Após 1870, um fanático antissemita. [Marx-Engels-Lenin Institute]
  2. Possivelmente Albert Wilhelm Karl Niemann (1831-1917), um dos tenores alemães de ópera mais famosos do período. [MIA]
  3. Otto Karl Meissner (1819-1902) – editor de Hamburgo que lançou o "O Capital" de Marx e vários outros trabalhaos de Marx e Engels. [Marx-Engels-Lenin Institute]
  4. A estação Noroeste é Euston, a estação final em Londres da London North-Western Railway; a linha que atende Western-Super-Mare saía de Paddington, o estação final em londres da Great Western Railway. [MIA]
  5. "Fazer cara boa para jogo ruim". [Marx-Engels-Lenin Institute]
  6. "Donzela perdida"
  7. [vestia] as cores prussianas. [Marx-Engels-Lenin Institute]
  8. "Sã e salva". [Marx-Engels-Lenin Institute]
  9. Karl Blind (1826-1907) – publicitário alemão e democrata pequeno-burguês. Mais tarde, apoiador de Bismarck. [Marx-Engels-Lenin Institute]
  10. Wilhelm Wolff (1809-1864) – Filho de um servição silesiano. Amigo próximo de Marx e Engels. Ativo na Revolução de 1848, era editor associado da Neue Rheinische Zeitung. Fugiu para a Inglaterra após a revolução. Marx dedicou-lhe o primeiro livro d'O Capital. [Marx-Engels-Lenin Institute]
  11. "Madamezinha" [Tradução wikisource], a filha de Kugelmann. [Marx-Engels-Lenin Institute]