Casa, não casa/VI

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Cerca de seis semanas foram assim correndo sem resultado algum prático.

Um dia, achando-se em conversa com um primo de Isabel, perguntou-lhe se teria gosto em vê-lo na família.

— Muito, respondeu Fernando (era assim o nome do primo).

Júlio não deu explicação da pergunta. Instado respondeu:

— Fiz-lhe a pergunta por uma razão que saberá mais tarde.

— Quererá talvez casar com alguma das manas?...

— Não posso dizer nada por ora.

— Olha aqui, Teixeira, disse Fernando, a um terceiro rapaz, primo de Luísa, e que nessa ocasião se achava em casa de D. Anastácia.

— Que é? perguntou Júlio assustado.

— Nada, respondeu Fernando, vou comunicar ao Teixeira a notícia que o senhor me deu.

— Mas eu...

— É nosso amigo, posso ser franco. Teixeira, sabe o que me disse o Júlio?

— Que foi?

— Disse-me que vai ser meu parente.

— Casando com alguma irmã tua.

— Não sei; mas disse isso. Não te parece motivo de congratulação?

— Sem dúvida, concordou Teixeira, é um perfeito cavalheiro.

— São obséquios, interveio Júlio; e se eu alguma vez alcançasse a fortuna de entrar...

Júlio interrompeu-se; lembrou-se que Teixeira podia ir contar tudo à prima Luísa, e fosse inibido de escolher entre ela e Isabel. Os dois quiseram saber o resto; mas Júlio preferiu convidá-los a jogar o solo, e não houve meio de arrancar-lhe palavra.

A situação porém devia acabar.

Era impossível continuar a vacilar entre as duas moças, que ambas lhe queriam muito, e a quem ele queria com perfeita igualdade não sabendo qual delas escolhesse.

“Sejamos homem, disse Júlio consigo. Vejamos: qual delas devo ir pedir? A Isabel. Mas a Luísa é tão bonita! Será a Luísa. Mas é tão formosa a Isabel! Que diabo! Por que razão não há de uma delas ter um olho furado? ou uma perna torta!”

E depois de algum tempo:

“Vamos, Sr. Júlio, dou-lhe três dias para escolher. Não seja tolo. Decida com isto por uma vez.”

E enfim:

“Verdade é que uma delas há de odiar-me. Mas paciência! fui eu mesmo que me meti nesta embrulhada; e o ódio de uma moça não pode doer muito. Avante!”

No fim de dois dias ainda ele não tinha escolhido; recebeu porém uma carta de Fernando concebida nestes termos:

Meu caro Júlio.
 
Participo-lhe que brevemente casarei com a prima Isabel; desde já o convido para a festa; se soubesse como estou contente! Venha cá para conversarmos.

Fernando.


Não é preciso dizer que Júlio foi às nuvens. O passo de Isabel simplificava muito a situação dele; todavia, não queria ser assim despedido como um tolo. Exprimiu a sua cólera por meio de alguns murros na mesa; Isabel, por isso mesmo que já não a podia possuir, parecia-lhe agora mais bonita que Luísa.

— Luísa! Pois será Luísa! exclamou ele. Essa sempre me pareceu muito mais sincera que a outra. Até chorou, creio eu, no dia da reconciliação.

Saiu nessa mesma tarde para ir visitar Luísa; no dia seguinte iria pedi-la. Em casa dela foi recebido como sempre. Teixeira foi o primeiro a dar-lhe um abraço.

— Sabe, disse o primo de Luísa apontando para a moça, sabe que vai ser a minha noiva?

Não me atrevo a dizer o que se passou na alma de Júlio; basta dizer que jurou não casar, e que morreu há pouco casado e com cinco filhos.