Casa de Pensão/X

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Casa de Pensão por Aluísio Azevedo
Capítulo X


Dormiu mal; os sonhos não o deixaram em paz.

A princípio, todavia, foram agradáveis: ternos episódios de amores fáceis que se encadeavam confusamente, e nos quais as sensações vinham e fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois os sonhos maus, os pesadelos.

Nestes, as mulheres entravam por incidente, sempre duvidosas; vultos sinistros, de cabelos desgrenhados, rosto lívidos, surgiam em torno dele e iam-se aproximando, até lhe ficarem cara à cara, num contato frio e incômodo de carne morta. Depois sonhava-se em casa da família, voltando, porém, justamente do baile de Melo: tinha muita necessidade de repouso, queria continuar a dormir, mas a voz ríspida do pai berrava por ele da porta do quarto: "Anda daí, mandrião! Basta de cama! Vê se queres que eu te vá buscar!" E aquela voz terrível dava-lhe a todo o corpo tremor de medo, e, ao estrondo que ela fazia, vultos cor-de-rosa, e cabelos louros, fugiam espavoridos, como as rãs que se atiram na água, assustadas pelas presença de um boi.

Amâncio queria também fugir, mas suas pernas pareciam troncos de árvores seguros ao chão; queria gritar, mas a língua inchava-lhe na boca.

Acordou muito fatigado e aborrecido às duas horas da tarde.

Logo que apareceu na sala de jantar, Mme. Brizard fez-lhe entrega de um belo ramilhete, que lhe haviam remetido, a ele, com um cartão. Amâncio apressou-se a ler. O escrito dizia simplesmente: "Ao Dr. Amâncio de Vasconcelos — uma sua amiga."

Cruzaram-se os penetrantes risos adequados ao fato. O rapaz, intimamente lisonjeado, fingiu não se impressionar com aquela manifestação; leu, porém, o bilhete mais duas, três, quatro vezes.

Era letra de mulher, de Hortênsia sem dúvida. Estava ali a sua alma, o fogo de seus olhos. Ele cheirou o pequeno pedaço de papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na véspera, durante a valsa, o tinha penetrado até à medula.

Achavam-se presentes Dr. Tavares, Pereira, o gentleman e Lúcia. Disseram alguma coisa sobre aquelas flores, menos a última, que, junto à janela, parecia preocupada com um livro de capa roxa. O gentleman falou de botânica a propósito de uma dália vermelha que havia no ramo. Afiançou que esta flor possuía em si tantas flores quantas eram as pétalas de que constava.

— Flores perfeitas, com todos os órgãos, Sr. Amâncio — estames, cálice, tudo!

Amâncio, enquanto Lambertosa discorria sobre a dália, leu ainda uma vez o cartão, e, ao levantar à vista, reparou que Nini o fixava, cada vez mais insistente.

Amélia dera-se por incomodada e não veio à mesa.

O jantar correu, pois, muito frio e constrangido a princípio; pouco se conversava e quase ninguém tinha vontade de rir. Dir-se-ia que Amâncio a todos comunicava o seu fastio e o seu cansaço.

Só pela sobremesa Dr. Tavares narrou, como de costume, algumas anedotas jurídicas que presenciara na província. Uma delas tinha referência a uma certa velha que fora aos tribunais por haver desancado as costelas do genro.

Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou a ocasião para falar no marido de sua filha mais velha.

— Vai muito da educação e também um pouco do costume em que a gente os põe!... acrescentou ela autoritariamente. — Mas, genro, não queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini. — Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara fechada, nem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele só a chamava, a ela, de "mãezinha"; sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manhã, dava-lhe um beijo na testa, impreterivelmente! — Ah! Era uma santa criatura!

Nini suspirou e pôs-se a chorar em silêncio.

— Agora temos choro!... pensou Amâncio com tédio.

Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele e pediu perdão com um sorriso, ainda mais triste que o choro.

— Eu sou aqui da opinião do Sr. Amâncio de Vasconcelos... disse o gentleman a Mme. Brizard, em tom discreto.

Mme. Brizard não sabia, porém, do que tratava Lambertosa.

— Ah! volveu este. — Refiro-me ao que avançou anteontem o nosso ilustre companheiro, e indicou Amâncio com um gesto — que avançou a respeito da vantagem que um novo casamento traria, sem dúvida, à senhora sua filha.

— Ah! fez Mme. Brizard — já não me lembrava disso. O Sr...

— Lambertosa, minha senhora. Lambertosa...

— Sr. Lambertosa é então de opinião que o casamento convém às enfermidades nervosas?...

O gentleman concentrou a fisionomia, limpou o bigode ao guardanapo, ergueu uma faca, e principiou a emitir o seu judicioso e meditado parecer.

Surgiram logo as contendas. Lúcia marcou a página do livro de capa roxa e olhou muito séria para os outros, pronta a dar a sua réplica. Mme. Brizard, enquanto os mais discutiam, tamborilava com os dedos sobre a mesa, a fitar um queijo de Minas, com um gesto profundo e repassado de filosofismo. Pereira comia consecutivos pedaços de pão, sem abrir os olhos, e Amâncio procurava uma evasiva para se escafeder.

Afinal, Coqueiro, que havia já formado um grupo à parte com Dr. Tavares, quis fechar a discussão; mas o advogado ergueu-se de súbito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos, e desencadeou a sua eloquência.

Em pouco, só ele falava, esquecido, como de costume, do lugar e da situação. Imaginava-se já num tribunal, em pleno exercício de suas funções.

Pintou floreadamente o lamentável estado de Nini. Qualificou-a de "vítima inocente dos impenetráveis caprichos de Deus"; descreveu a dolorosa expressão do semblante da "infeliz moça"; disse que os olhos dela falavam a misteriosa linguagem do amor, e, quando se dispunha a dar afinal a sua esperada opinião sobre o casamento, a pobre enferma, muito vendida com o que vociferava o tagarela a seu respeito, abriu a soluçar estrepitosamente.

A francesa ergueu-se, de mau humor, para pedir ao Dr. Tavares que se deixasse daquilo "por amor de Deus!". Doutro lado Coqueiro também lhe suplicava que se calasse.

Mas o demônio do homem já não se podia conter. As palavras borbotavam-lhe da língua, como o sangue de uma facada. Fez imagens poéticas sobre o casamento, citou nomes históricos, e jurou, à fé de suas convicções "que aquela desventurada criatura precisava de um esposo, mais do que as flores carecem do orvalho; mais do que as aves carecem do ar; mas do que os cérebros carecem de luz!"

E, erguendo as mãos trêmulas, recuou dois passos e foi dar de encontro ao copeiro que, por detrás dele, embasbacado, o escutava atentamente, com a bandeja do café nos braços, à espera de uma ocasião para apresentar as xícaras.

Mme. Brizard assustou-se, o gentleman deu um salto para não sujar as calças; rolou ao chão uma garrafa, e César, o menino sublime, vendo que os mais velhos faziam tanta bulha, também se pôs a berrar.

Coqueiro gritava que se acomodassem por piedade.

— Aquilo não tinha jeito! Parecia haver ali uma súcia de doidos! Oh!

A mucama acudiu da cozinha, e Amélia, com um lenço amarrado na cabeça, apareceu na porta de seu quarto, muito intrigada com o motim. Só Pereira continuava, inalteravelmente, a comer pedaços de pão; é verdade que abriu os olhos duas vezes, mas tornou logo a fechá-los e, segundo todas as probabilidades, adormeceu.

Amâncio tratou de aproveitar a confusão para fugir da varanda.

— Que espécie de gente esquisita!... dizia ele a caminho do quarto. — Nada! Aqui ainda estou pior do que na casa do Campos!

Antes de chegar ao gabinete, percebeu que alguém o seguia com dificuldade. A sala de visitas estava já totalmente às escuras. Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre ele um corpo gordo e mole.

Era Nini.

Amâncio, surpreso e contrariado, quis arredá-la, mas a histérica passou-lhe os braços em volta do pescoço e desatou a chorar, com o rosto escondido no seu colo.

— Hein?! disse Amâncio. — Que história é esta?!

Mas lembrou-se logo das recomendações de Mme. Brizard: "Qualquer contrariedade poderia provocar à infeliz rapariga uma crise perigosa!"

— Ora esta!... pensou ele aborrecido. — Ora esta!...

E procurou afastar Nini, brandamente. E, como a teimosa não quisesse obedecer e continuasse a chorar, ele disse-lhe palavras amigas, pediu-lhe, quase com ternura, que voltasse à varanda; lembrou que não era prudente ficarem ali, sozinhos e no escuro. — Podiam ser surpreendidos! Esta idéia o aterrava mais pelo ridículo do que pela responsabilidade daquela situação.

Nini entretanto, parecia não ouvir coisa alguma e continuava a abraçá-lo freneticamente, com ímpetos nervosos.

Amâncio perdeu de todo a paciência e arrancou-se violentamente dos braços dela.

— Deixe-me! gritou, e correu para o quarto.

Nini acompanhou-o chorando, e conseguiu agarrá-lo de novo, pelo paletó.

Estava muito nervosa e dispunha agora de uma força extraordinária.

— Isto não será um inferno?! exclamou o rapaz, puxando a roupa das mãos de Nini. E, vendo que ela não o largava: — Solte-me, com a breca! Ora essa! Que diabo quer a senhora de mim?! Solte-me! Arre!

A enferma não fez caso e apertou-lhe os pulsos; seus dedos pareciam tenazes. Amâncio debatia-se brutalmente, ouvindo-a bufar, muito agoniada, e sentindo-lhe de vez em quando o suor frio do pescoço e do rosto.

Na sala de jantar serenara a discussão; só a voz de Tavares ainda se destacava. De repente puseram-se todos a chamar por Nini.

— Olhe disse-lhe Amâncio. — Lá dentro a estão chamando! Vá! Vá!

Ela, nem assim.

— Ora pílulas! resmungou o estudante, desprendendo-se com um empurrão. E ganhou o quarto, puxando a porta sobre si.

Ouviu-se então o baque surdo do corpo pesado de Nini, que foi por terra; em seguida gritos muito agudos.

Correram todos para a sala de visitas; acenderam-se os candeeiros. Nini escabujava no chão, a gritar, esfrangalhando as roupas e mordendo os punhos.

Coqueiro e Mme. Brizard apoderaram-se logo da infeliz. Amâncio apareceu com um frasquinho de vinagre; Lambertosa receitou uma dose homeopática e correu ao quarto em busca da botica (a homeopatia era uma de suas paixões); Lúcia voltou para a varanda. "Que a desculpassem, mas não podia assistir, a sangue frio, a cenas daquela ordem... Não estava mais em suas mãos!"



Pereira já se havia levantado da mesa e ressonava na costumada preguiçosa.

Lúcia, ao passar por ele, atirou-lhe um olhar de tédio e disse consigo:

— Olha que estafermo!...

Ela às vezes tomava-lhe grande nojo, não o podia ver com aquele ar mole, de mulher grávida, com aquelas pálpebras descaídas, a comerem-lhe os olhos, com aquele sorriso apalermado, aquela voz derramada pelos cantos da boca, que nem um caldo frio e seboso.

De quando em quando sofria de insônias, e, justamente nessas ocasiões, nas horas compridas da noite em claro, é que mais detestava Pereira. Punha-se a contemplá-lo longamente, com asco, fartando-se de olhar para aquele "pamonha", aquele "coisa inútil", que ali ao seu lado, dormia todo encolhido, com as mãos entre as coxas. Vinham-lhe frenesis de enchê-lo de pescoções. Já lhe não podia suportar o cheiro doentio do corpo; não lhe podia sentir a umidade pegajosa do suor e a morna fedentina do hálito.

A sua ligação àquele mono era uma história muito triste e muito sensaborona. Poucos, bem poucos a sabiam, porque Lúcia se esforçava quanto lhe era possível por escondê-la, como quem esconde uma chaga vergonhosa.

Ela, "a mísera senhora", vinha, entretanto, de gente honesta e bem conceituada, se bem que muito pouco escrupulosa em pontos de educação. Deram-lhe professores de francês, de música, de desenho; entregaram-lhe enfiadas de romances banais e livros de maus versos; e, todavia, não lhe deram moral, nem trataram de lhe formar o caráter. A desgraçada percorreu bailes desde pequena; ouviu o primeiro galanteio aos dez anos de idade; teve a primeira paixão aos doze; aos quinze julgava-se desiludida e sonhava com o túmulo; aos vinte, como é natural, sucumbiu ao palavreado de um primo em segundo grau e bacharel pelo Pedro II.

O primo, assim que a viu pejada, azulou para o Rio Grande do Sul, onde tinha a família, e nunca mais lhe deu sinal de si.

Foi então que surgiu em Lúcia a idéia de utilizar-se de Pereira. Entre as pessoas que frequentavam a casa de seus pais, era ele o único aproveitável para casamento. Nesse tempo vivia o dorminhoco às sopas de um tio suspeito de riqueza aferrolhada, e de quem mais tarde, diziam, havia de herdar o dinheiro. Lúcia meteu as mãos à obra, mas, por pouco que não desanimou; Pereira não dava de si coisa alguma, parecia não compreender as provocações. Era quase impossível tirar algum partido daquele animalejo! Ela, porém, não se quis dar como vencida, e lutou.

Lutou, empregando os meios mais ardilosos para injetar nos nervos daquele sonâmbulo uma faísca magnética de amor. Trabalho inútil! Afinal, vendo que o pedaço de asno era incapaz de qualquer ação ou reação, tomou ela a parte agressiva; e a coisa resolveu-se no mesmo instante.

Depois, como não havia tempo a perder e porque já conhecia bem a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao encontro dele, meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um escândalo dos diabos, se o "sedutor" não tratasse, quanto antes, de tomar uma resolução muito séria a respeito de casamento.

Pereira não tratou de tomar coisa alguma desta vida e nem se abalou com a presença de Lúcia. Aceitou-a, como aceitaria outra qualquer imposição, porque ele era dos tais que, às maçadas da cura, preferem os incômodos da moléstia. Só no fim de quatro dias de lua-de-mel, como Lúcia insistisse nas suas idéias matrimoniais, o pachorrento declarou, com toda a calma, que não lhe podia fazer a vontade nesse ponto, em virtude de que, desde aos dezoito anos, o haviam casado com uma velha, uma fúria, que Pereira não sabia, nem queria saber, por onde andava.

Lúcia perdeu os sentidos; esteve à morte. Os pais, envergonhados com o procedimento indigno da filha, tinham-se ido refugiar na cidade de Campos. Foi o tio de Pereira, o tal das riquezas aferrolhadas, quem a salvou; era um velho ainda bem forte e muito mais esperto que o sobrinho. Deu-lhe casa, comida, roupa e dinheiro.

Uma irmã dele, senhora de inveterado amor a crianças, solteirona, de quarenta a cinquenta anos e que, com o olho no testamento, desejava a todo o transe ser agradável ao mano, encarregou-se do filho do bacharel.

Correram quatro anos. Lúcia não viu mais a família; apenas visitava o filho, de quando em quando.

Pereira continuava às sopas do tio, indiferentemente, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito. Acordava, quer dizer, levantava-se às dez horas, tomava no quarto o seu banho morno, depois um copo de leite fervido, almoçava às onze, fazia a digestão estendido no sofá da sala; às duas horas dormia, depois passeava pela chácara à espera do jantar, cujo quilo era de rigor ser feito a sono solto em uma rede que ele tinha no quarto.

À noite, quando conseguia levantar-se jogava o gamão com o tio. Cochilavam ambos, até que se servia o chá, e cada um se retirava para a cama.

— A noite fez-se para dormir! Sentenciava um deles.

— E o dia para se descansar, resmungava o outro espreguiçando-se.

E recolhiam-se.

O velho morreu de repente; uma congestão que lhe sobreveio ao encontrar Lúcia no fundo do jardim às voltas com um estudante da vizinhança.

— Bom! dissera Lúcia, alijada afinal daquela obrigação que já lhe ia pesando demais. E fariscou o testamento. Mas o velhaco apenas deixava algumas dívidas à praça e dois terrenos hipotecados ao Banco Predial. A coisa única que ela aproveitou foi Cora, mulatinha de criação, cuja matrícula e cuja escritura de compra estavam em seu nome.

Era preciso, pois, deixar a casa; os credores reclamavam tudo que pudesse dar dinheiro. Pereira sacudia os ombros; dir-se-ia que não houvera a menor alteração na sua vida. Continuava a dormir tranquilamente, como se as sopas do tio ainda o fossem procurar às horas da refeição.

Lúcia compreendeu que não devia contar com ele, e tratou em pessoa um cômodo para os dois, num hotel de arrabalde. Sentia-se resoluta e forte: era ela agora o cabeça do casal; tinha belos projetos de trabalho: daria lições de piano, de desenho e de francês, até que aparecesse um homem para substituir o estafermo do Pereira.

O homem, porém, não aparecia, como não apareciam os discípulos.

Principiou então para eles um viver perfeitamente de boêmios. Sem trastes, nem dinheiro, nem futuro, nem relações constituídas, andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora, que adorava a senhora, a percorrer as casas de pensão: sempre sobressaltados, sempre perseguidos pelos credores que iam deixando atrás de si.

Em cada lugar se demoravam o maior tempo que podiam, dois, três, quanto muito quatro meses; até que lhe suspendiam o crédito e os dois levantavam novamente o vôo, deixando a dívida em aberto e o dono da casa lívido, colérico, sem saber ao menos que direção tomavam os vagabundos.

Nesse peregrinar, Lúcia teve uma contrariedade mais profunda — achou-se grávida de novo. Cora deu-lhe conselho, trouxe-lhe remédios para fazer abortar; nada entretanto, produziu efeito. O demônio da criança parecia disputar o seu quinhão de vida com uma persistência desesperadora.

Nasceu afinal, no quarto de um português na Fábrica das Chitas, entre os cuidados mercenários do locandeiro e o obséquio de alguns amigos, que Lúcia fora conquistando com as simpatias de seu talento musical.

O diabinho pouco durou, felizmente. Desapareceu uns trinta dias depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na rua, quando os pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da Fábrica das Chitas para uma casa de pensão na Rua do Catete.

Cora encarregou-se de atirá-lo ao mar. Ninguém viu. Seriam duas horas da madrugada e as brisas marinhas pulverizavam no ar um chuvisco miúdo, de fevereiro.

O menino fora muito franzino e muito mole; saíra o pai, Pereira. Durante o seu pobre mês de vida só abriu os olhos uma vez, ao expirar.

A casa de pensão do Coqueiro era a sexta que Lúcia percorria com o suposto marido. Apresentavam-se sempre como casados; ele muito tranquilo de sua vida, feliz; ela inquieta, sôfrega pelo tal sujeito, que com tanto empenho procurava.

Quando constou a Lúcia que Amâncio era rico e atoleimado, uma nova esperança radiou-lhe no coração.

— É agora!... disse.



E preparou-se para o combate.

Foi por isso que o estudante recebeu, no dia seguinte ao baile do Melo, aquele ramilhete, tão falsamente atribuído a Hortênsia, e porque, uma semana depois outro ramo, bastante parecido com o primeiro, se achava às onze horas da noite no quarto do rapaz, sobre a cômoda.

— Olé! disse ele.

E, satisfeito com a intriga, principiou a fazer conjeturas.

— De quem viriam aquelas flores!... Ah! exclamou, descobrindo um bilhetinho, escondido entre duas rosas.

E leu:

"Não saibam nunca espíritos indiferentes, nem mesmo tu, adorado fantasista, quem te envia estas pobres flores. Não o procures descobrir; deixa que o meu segredo viceje e cresça na tepidez do mistério, à semelhança das plantas melancólicas que reverdecem nas sombras ignoradas dos rochedos. Eu te amo!"

— Seria de Amélia, seria de Lúcia, ou seria de Hortênsia?... De Nini é que não podia ser, porque a desgraçada, com certeza, não sabia escrever coisas daquela ordem!

Não dormiu essa noite; as palavras de ramilhete voejavam-lhe dentro da cabeça, como um bando de mariposas.

— De quem seria?... De Amélia não, não era de se supor; pois que a bonita menina, longe de o provocar, fugia sempre que ele por qualquer modo tentava abrir-se com ela em questões de amor; de Hortênsia também não, não era natural que fosse, porque, em tal caso, Mme. Brizard, ou qualquer outra pessoa de casa, teria visto o portador. Além disso, a mulher de Campos não seria capaz daquilo; estava caidinha — é certo! mas não levaria a leviandade ao ponto de escrever e enviar-lhe semelhante declaração. O que, porém, não sofria dúvida é que os ramos tinham a mesma procedência.

E Lúcia?... É verdade! E Lúcia? Com certeza não era de outra! Sim, tudo estava a dizer que o tal bilhetinho saíra de suas mãos!... aquelas frases poéticas, aquele mistério, aquela franqueza de confessar o seu amor em duas palavras... Não tinha que ver! era da mulher de Pereira!

E um apetite brutal, inadiável, substituiu logo a calma simpatia que lhe inspirara Lúcia.

Desde que se capacitou de que eram dela os ramilhetes, desejou-a com urgência; queria que ela surgisse ali, naquele mesmo instante, na silenciosa escuridão daquele quarto.

E voltava-se de um para outro lado da cama, sem conseguir pegar no sono.

Esperar até o dia seguinte o momento de estar com ela afigurava-se-lhe um sacrifício enorme, quase invencível. Como podia lá descansar, dormir, com semelhante preocupação a remexer-se-lhe por dentro, como um feto doido que lhe mordesse as entranhas?

Definitivamente não conseguia adormecer. Levantou-se, acendeu um cigarro, abriu a janela, e pôs-se a olhar para a lua que estava boa essa noite. Vieram-lhe logo as conjeturas sobre o como seria a situação, no caso que Lúcia aparecesse ali, naquele instante. "Que sucederia?... Que fariam eles?..."

Duas horas bateram na sala de jantar.

— Diabo! resmungou Amâncio, sentindo arrepios por todo o corpo. — Desta forma perco a noite inteira, e amanhã estou impossibilitado de ir à academia!...

A idéia do estudo apresentava-se-lhe sempre com um sabor muito amargo de sacrifício. Lembrou-se, todavia, de aproveitar a insônia para correr uma vista de olhos pela lição; acendeu a vela, corajosamente, assentou-se à mesinha que havia no quarto e abriu um compêndio. Mas não conseguia prestar atenção à leitura; percorreu distraído duas ou três páginas e ficou a olhar a chama trêmula da vela, cada vez mais abstrato e mais febril.

Sentiu vontade de beber. — Se não estava enganado — a garrafa de conhaque ficara sobre o aparador, na varanda.

Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu da alcova.

O sangue não lhe queria ficar quieto. A continuar daquele modo, o remédio que tinha era pôr-se ao fresco e vagar pelas ruas, até encontrar sossego.

O conhaque não estava no aparador, Amâncio, contrariado, desceu à chácara, e foi assentar-se a um banco de pedra. — Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou ele, resolvido a organizar no dia seguinte um bufê no seu próprio quarto.

A lua escondia-se agora entre nuvens; as árvores rumorejavam; tudo parecia concentrado e adormecido.

Debaixo viam-se as janelas dos quatro cômodos do segundo andar, que davam para a chácara. Lá estava o n.os 8, 9, 10 e 11. Começou a pensar nos hóspedes daqueles quartos: o 11 era do tal Correa, o médico que só aparecia ali de quando em quando, "para fazer uns trabalhos que os filhos não lhe permitiam em casa da família"; o 10 era do gentleman — Bom maçante! Amâncio lembrou-se de que lhe prometera acompanhá-lo uma noite qualquer ao Passeio Público. — Havia de ir, disseram-lhe que às vezes se encontravam aí boas coisas!...

O 9 é que ele não se lembrava a quem pertencia... Ah! era do tal Melinho, "a pérola", como o qualificava João Coqueiro constantemente.

E o 8 de Lúcia! da misteriosa Lúcia!

Ela estava ali!... fazendo o quê... pensando nele talvez... talvez dormindo... talvez até nem dela fosse o bilhetinho amoroso e os dois ramilhetes!... Quem, sabia lá!...

E esta dúvida o apoquentava.

— Ora adeus! disse. — A ocasião havia de chegar!...

Veio-lhe, porém, uma tentação aguda de subir ao n.º 8.

— Que mal podia vir daí?... O marido com certeza estava dormindo!... Que poderia acontecer?...

Levantou-se resolvido; mas as vidraças do quarto do tal médico, que só aparecia de quando em quando, acabavam de iluminar-se.

— Olá!... considerou Amâncio, detendo-se. É o n.º 11?

Por detrás dos vidros havia cortinas de cassa; nada se podia ver para dentro, apenas duas sombras difusas projetavam-se na cambraia, ora aumentando, ora diminuindo. Amâncio deixou-se ficar onde estava, mordido já de curiosidade.

Daí a uns dez minutos, pela escadinha do fundo, desciam cautelosamente, um sujeito alto, todo de escuro e mais uma mulher gorda, de enorme chapéu, cujas abas lhe caíam sobre os olhos, ensombrando-lhe o rosto.

Vinha um atrás do outro, porque a escada era estreita. Atravessaram a chácara, falando em voz baixa, e entraram no corredor.

Amâncio acompanhou-os, de longe, e tripetrepe.

A porta da rua estava aberta, como de costume; um carro esperava pelos dois lá fora; o cocheiro dormia na boléia. O sujeito do n.º 11 deu a mão à mulher das grandes abas, ajudou-a a entrar na carruagem e, em seguida entrou também. O cocheiro fechou sobre eles a portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o seu posto e tocou os animais.

— E que tal?... interrogou Amâncio de si para si, quando os viu partir.

Lembrou-se então do que lhe dissera o velhaco de Coqueiro por ocasião de mostrar-lhe a casa: "Quanto a certas visitas... isso tem paciência... lá fora o que quiseres, mas, daquela porta para dentro..."

— Hipócritas! pluralizou o estudante.



E encaminhou-se para o segundo andar.

Subiu pela escadinha do fundo, não a do médico, mas pela outra do lado oposto; porque havia duas.

O primeiro andar continuava em completo silêncio; no segundo apenas se ouvia, de espaço a espaço, um tossir seco e agoniado, que vinha naturalmente do n.º 7, onde morava o tal moço doente. O pobre diabo piorava à falta absoluta de meios.

Amâncio entrou às apalpadelas no corredor que dividia os oito quartos. O luar filtrava-se a custo pelas venezianas e pelas vidraças da janela e sarapintava o chão de pequeninos pontos brancos.

O n.º 5, onde residia Paula Mendes com a mulher, era o único que tinha luz; uma forte claridade rebentava por cima da porta fechada e ia projetar-se na parede do n.º 10 que lhe ficava fronteiro. Mas ainda assim o corredor estava bem escuro.

Amâncio parou defronte do n.º 8. — Era ali!

Encostou o ouvido à fechadura; nem sinal de vida. — Lúcia com certeza dormia profundamente.

— Dormia! pensou o estudante. — Dormia, sem preocupações nem cuidados; ao passo que ele, por não encontrar descanso, errava pelos corredores desertos, como uma alma penada! — Para que então se lembrara aquela mulher de ir mexer com ele?!... Se a sua intenção era dormir, para que o foi provocar? para que lhe foi bulir com o sangue? Oh! aquele silêncio do n.º 8 o irritava! Aquela indiferença afigurava-se-lhe uma afronta ao seu amor próprio, um atentado contra o seu orgulho!

E, quando mais se convencia da impossibilidade de falar essa noite a Lúcia, mais e mais os seus sentidos se assanhavam! Afinal, já não fazia grande questão de ser com ela própria; aceitaria qualquer outra que o arrancasse daquela ansiedade em que se via entalado, como se estivesse dentro de uma armadura em brasa.

— Que inferno! dizia ele consigo, rangendo os dentes. — Que inferno!

E, sem ânimo de ir embora, permanecia encostado à porta do n.º 8, deixando-se comer aos bocadinhos pela febre do seu desejo; ao passo que o corpo inteiro lhe arfava com o resfolegar aflitivo dos pulmões.

— Todavia, pensou ele — quantas mulheres não o desejariam ter junto de si naquele momento?... Donzelas até, quantas, naquele instante, não se estorceriam no leito e não morderiam os travesseiros, desvairadas pelo isolamento?

E saborosas lembranças de amores extintos, que o tempo e a ausência tornavam mais perfeitos e mais desejáveis, acudiam-lhe simultaneamente ao espírito, para lhe aumentar as torturas da carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais atraentes e formosas; em todas elas não havia um lábio sem sorriso, um olhar sem fogo, era tudo opulento de graça e de meiguice, era tudo encantador e completo.

Pôs-se a arranhar devagarinho a porta, dizendo quase em segredo o nome de Lúcia. Nada, porém, respondia; o mesmo silêncio compacto enchia as trevas do corredor.

Seu desejo, estimulado e tonto, evocava então todos os meios de saciar-se; descobria hipóteses absurdas, inventava possibilidades que não existiam. Amâncio chegou a pensar em Amélia, em Mme. Brizard, na macuma, e até, que horror! em Nini!

— Ai, meu Deus! gemeu nesse instante o doente do n.º 7.

O estudante deixou a porta de Lúcia e seguiu em ponta de pé pelo corredor. Ao passar defronte do quarto de Paula Mendes, suspendeu o passo; a luz continuava com a mesma intensidade; o curioso não resistiu a uma tentação e espiou pela fechadura.

O pobre homem trabalhava, vergado sobre uma mesinha estreita e toda coberta de papéis de música. Ao lado, pelas cadeiras e sobre um sofá de couro negro encostado a um biombo, havia folhas esparsas e cadernetas empilhadas.

Recebera nessa tarde a encomenda de organizar uma sinfonia, que tinha de ser executada daí a quatro dias em uma festa fora da cidade. O Imperador prometeu que iria.

Mendes estava ainda organizando as partes cavadas. Ouvia-se o ranger da pena no papel grosso de Holanda, o tique-taque de um despertador de metal branco, pousado sobre a cômoda, e o grosso ressonar da mulher, que dormia por detrás do biombo. O rabequista parecia menos triste aquela ocasião do que nas outras em que o vira Amâncio.

— É porque a mulher está dormindo, calculou este, lembrando-se do mau gênio de Catarina. E considerou sobre a existência ordinária que levariam ali, encurraladas no mesmo cubículo, aquelas criaturas tão opostas.

Mendes, sem desprender a pena do papel, começou a solfejar em voz baixa o que escrevia; mas, como lá dentro cessassem os roncos da mulher e esta se remexesse na cama, resmungando, ele incontinente, calou a boca e prosseguiu em silêncio no seu trabalho.

— Ainda estás com isso?! perguntou ela, afinal, depois de uma pausa.

O marido respondeu afirmativamente.

— Pois, homem, vê se acabas com essa porcaria! Bem sabes que, enquanto houver luz no quarto, não posso pregar o olho!

E, fazendo ranger as tábuas da cama, virou-se de um lado para outro, acrescentando com a sua voz de homem:

— Deixa isso! Anda! E apaga o diabo dessa luz!

— Não, filha, respondeu o artista brandamente. — É preciso que este serviço fique pronto amanhã...

E depois de um muxoxo da mulher:

— Sabes o quanto precisamos deste dinheiro... A diretora do colégio ainda ontem protestou que despediria a pequena, se eu não lhe arranjasse alguma coisa por conta do que devemos; Joãozinho, coitado, há quase dois meses pediu-me que lhe levasse um sobretudo, porque lá no trapiche onde ele agora está trabalhando, faz pela manhã um frio de rachar; Mme. Brizard, você não ignora, tem-nos apoquentado e...

— É isto! interrompeu a mulher. — É sempre a mesma cantiga! — De tudo você se lembra, menos do que eu preciso!

— Ah! se me lembro, filha! mas é que nem sempre a gente pode fazer o que deseja... Descansa, porém, que as coisas hão de endireitar e tu possuirás de novo o teu piano de cauda! Tem um pouco de paciência...

— Já me tardava essa música! Já me tardava a "paciência"! A paciência inventou-se para consolar os tolos! Farte-se você com ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero obras e não palavras!

Mendes não respondeu e continuou a trabalhar, meneando a cabeça resignadamente. Catarina remexeu-se com mais agitação e rangidos de cama, e, daí a pouco levantou-se de um salto, gritando:

— Arre, com os diabos! que nem se pode dormir!

— Olha os vizinhos, filha!... arriscou o marido. — Lembra-te de que são três horas da madrugada...

— Os vizinhos que se fomentem! Berrou ela, embrulhando-se na colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos de granadeiro. — Não como em casa deles, não preciso deles para nada!

E, depois de ir beber um copo d'água ao fundo do quarto:

— Tinha graça! que eu, além de tudo, não pudesse falar à minha vontade! Melhor seria, nesse caso, que me amarrassem uma bala aos pés e mandassem atirar comigo ao mar!

— Estás de mau humor, filha! Vê se descansas.

— Não é de espantar, levando a vida que eu levo! sempre numas porcarias de quartos! Se precisa de qualquer coisa, é um "ai Jesus!". Nunca há dinheiro! O almoço é aquilo que se sabe; o jantar pior um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, não há quem me traga um caldo! não há quem me dê um remédio! Arrenego de tal vida, diabo!

— Ó Catarina!... disse Mendes ressentindo-se. — Pois eu não estou aqui?... Algum dia já me afastei de teu lado, ao te sentires incomodada?

— E antes que se afastasse, creia! porque já me custa suportá-lo quando estou de saúde, quanto mais doente. Casca! — atirar-me em rosto uns miseráveis serviços que qualquer uma faria!... Pois não os faça, que até é favor! Passo muito melhor sem eles!

— Está bom, senhora, está bom! Não precisa arreliar-se! Veja se descansa, que eu agora tenho que fazer!

— Descansada queria você me ver, mas era no Caju, por uma vez, seu malvado! Pensa que encontraria o demônio de alguma tola que caísse na asneira em que eu caí de amarrar-se a um homem de sua laia? Um pingas! que anda sempre com sela na barriga!

E avançando para o marido de olhos arregalados e um punho no ar:

— Mas, podes perder as esperanças, que eu não morro, antes de ti, Mané Bocó! Primeiro hás de ir tu, entendes? — Ah! Supunhas que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava por aí, enquanto ficavas por cá a te lamberes de contente! — Um sebo! Hei de ir, sim, as depois de te haver feito amargar também um bocado, meu burro velho!

— Ó mulher! cala essa boca do diabo! gritou, afinal, Mendes, arrojando a pena e empurrando os papéis que tinha defronte de si. — Arre! É muito! Arre!

O moço doente do n.º 7 expectorou com mais força e pôs-se a gemer.

— Ora, com um milhão de demônios! gritou o guarda-livros, que morava no n.º 6. — Não é possível sossegar neste inferno! Quando não é a tosse e o gemido da direita, é a resinga e a briga da esquerda! Apre! Antes morar num hospital de doidos.

Mendes levantou-se, segurando a cabeça com ambas as mãos, e começou a passear agitado pelo quarto.

Catarina continuava a sarrazinar, atirando com os pés o que topava no meio da casa. O marido parou de súbito, sacudiu a cabeça, depois foi-se chegando para a mulher e correu-lhe a mão pela espádua nua e lustrosa, timidamente, como se afagasse a anca de uma égua bravia.

— Então, filha?... disse com ternura. — Vai deitar, vai!... Estamos aqui a incomodar os outros... Anda vai!

— Os incomodados são os que se mudam! gritou ela.

— E é o que vou tratar de fazer amanhã mesmo! berrou o guarda-livros. — Estou farto! Quem trabalha durante o dia, precisa da noite para descansar! Arre!

— Não faça caso, senhor!... disse Mendes, e encaminhou-se para a porta.

Amâncio, assim que o sentiu aproximar-se, fugiu pé ante pé, com ligeireza.

Nesse momento, Campelo, o tal esquisitão do n.º 4, que até aí não dera sinal de si, levantou-se tranquilamente, tomou o seu clarinete, e começou por acinte, a tirar do instrumento as notas mais estranhas e atormentadoras que se podem imaginar. O guarda-livros respondeu-lhe batendo com a bengala nas paredes de tabique e berrando, como um doido, o Zé Pereira.

— Ai, meu Deus! ai, meu Deus! continuava a gemer arrastadamente o pobre sujeito do n.º 7.

Já pelas escadas, Amâncio ouviu as vozes do gentleman, do Melinho e de Lúcia, que acordaram espantados, e aos gritos reclamavam contra semelhante abuso.

No andar de baixo, Piloto, Dr. Tavares, Fontes e a mulher, abriam as portas dos competentes quartos para indagar que diabo queria aquilo dizer. Só o dorminhoco do Pereira não se deu por achado.

Amâncio já estava entre os lençóis, quando Coqueiro percorreu toda a casa, de robe de chambre e um castiçal na mão.