Casos do Romualdo/IV
O reverendo Padre Bento de S. Bento - que o Senhor talvez conhecesse, não? - era um santo homem paciente - paciente! paciente! - como naquela época outro não houve.
Nos circos de burlantins muita cousa curiosa tenho apreciado: cachorros sábios, cabras que fazem provas, cavalos dançarmos e burros que a dente pegam o palhaço pelo... atrás das pantalonas; mas a paciência para esse ensino não pode comparar-se, não pode-se, com a do reverendíssimo.
O Padre Bento, farto de aturar sacristães e não querendo estragar a sua paciência, que estava-lhe na massa do corpo, resolveu dizer as suas missas... sozinho.
Preparava as galhetas, o missal, etc.; depois pachotrentameflte paramentava-se e pachorrentamente esperava a hora de oficiar; chegada, encaminhava-se para o altar, ë começava e concluía, parte por parte, tudo muito em ordem.
Mas o filé, o bem bom era quando entrava a ladainha: ele cantava o nome do soneto e uma vozinha esquisita, porém, muito clara respondia logo:
— O-o-a por nob-s!
E os fiéis, em seguida, pela pequena nave atora, acudiam ao estribilho:
— Ora pro nobis!
Dessas ladainhas assisti eu a muitas, na capelinha de S. Romualdo, que era próxima a nossa casa, na Vila de...
Agora sabem quem cantava as ladainhas do Padre Bento?
Era o Lorota, um pagagaio amarelo, criado na gaiola e muito bem falante...
Com ele diverti-me muitas vezes:
— Lorota, dá cá o pé!
E ele, ensinado pelo padre, respondia, amável!
Coitado! ... O padre morreu e o Lorota, não tendo mais a quem dar contas, fugiu.
Passaram-se os anos.
Uma vez, estava eu na Serra, numa espera de onça, quando senti - confesso não medo mas um arrepio de... frio - quando ouvi, nas profundezas do mato virgem, uma ladainha religiosa!
E pausada, afinada, bem puxada em suma!
Seria um sonho? ... Estaria eu errado na tocaia das onças, e em vez de estar na floresta cheia de bichos ferozes, estava na vizinhança de algum convento, de alguma capela, de alguma romaria?
E a ladainha, compassada e cheia, vinha se aproximando:
— Bento S. Bento!
— Ora pro nobis!
— Santo Atanásio!
— Ora pro nobis!
— S. Romualdo!
— Ora pro nobis!
Eu mergulhava os olhos por entre os troncos, os cipós e as japecangas a ver se bispava uma cor de opa, uma luz de tocha, uma figura de gente; nada!
Nisto, a ladainha pousou nas árvores, por cima de mim. Pousou, sim, é o termo próprio, porque quem cantava era um bando de papagaios e quem puxava a ladainha era o papagaio do Padre Bento, era o Lorota!
A paciência do bicho! ... Ensinar, direitinho, aos outros, a cantoria toda! ...
Pasmo daquele espetáculo, e duvidando, quis tirar uma prova real, e perguntei para cima:
— Lorota? Dá cá o pé!
Pois o papagaio conheceu a minha voz, conheceu, porque logo retrucou-me com a antiga resposta que ele sempre dava:
— Romualdo é bonito! Bonito!
E como para obsequiar-me fez um - crrr! - como aviso de comando e recomeçou a ladainha:
— Bento S. Bento!
— Ora pro nobis!
— Santo...
Nisto tremeu o mato com um berro pavoroso... o Lorota e seu bando bateu asas... e eu olhei em frente: a sete passas de distância estava agachada, de bocarra aberta, pronta para o salto, uma onça dourada, uma onça ruiva, uma onça de braça e meia de comprido!
E na aragem do mato ainda soou um vozerio distante:
— Or...a pro no.. .bis!
S... Ro...mual...do!
Ora... pro... nobis!...