Castelo Perigoso/L

Wikisource, a biblioteca livre
< Castelo Perigoso
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Castelo Perigoso
Capítulo L – Que o olho não casto mensageiro é do coração não casto, e de oito pontos de religião


Das outras portas, a dos olhos é mais perigosa. Por isso se diz amiúde: "O que o olho não vê, coração não cobiça". E são Gregório diz: "não é bom olhar o que homem não pode cobiçar sem pecado". Por isto a devota pessoa que há cuidado de sua saúde deve ter seus olhos baixos e não esguardar afincadamente outra nem alto nem sem vergonha, que ela não mate ele ou si mesmo. Se por mau consentimento ou outrem por lhe dar azo de pecado. Ca diz são Gerônimo: "A morte é entrada a nós pelas frestas", isto é, em nossas almas pelos olhos.

E deve pensar que não é mais forte que Sansão, nem mais virtuoso que Davi, nem mais sages que Salomão, que todos caíram por sandiamente esguardar. Especialmente no mosteiro deve homem guardar seus olhos e olhar a terra em sinal de humildade e vergonha, que é um dos quatro pontos de religião, que são: pouco andar, pouco falar e olhar baixo e pensar alto.

Ainda aí há outras quatro: servir por obediência, sofrer por paciência, sentir por devoção, suspirar por devota oração. E não deve parar mentes às mínguas alheias, mas às suas. Assim se tem homem em humildosa paciência.

Desta porta deve ser porteiro e guarda castidade e vergonha, ca quem não tem os olhos castos em olhar, sinal é que seu coração longe é de castidade. E diz Santo Agostinho: "A pessoa que há os olhos levantados é sem vergonha, assim como muitos aí há que tudo querem ver e saber". Estes não podem haver paz de coração nem guardar limpamente seu castelo, ca sua porta é sempre aberta para entrarem os inimigos até o coração, scilicet, o diabo, o mundo e a carne.