Castelo Perigoso/LXVI

Wikisource, a biblioteca livre
< Castelo Perigoso
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Castelo Perigoso
Capítulo LVI – Por que modo é assentado este castelo em terra de paz, e de como aí há quatro pensamentos muito proveitosos


Ora, é nosso castelo com a ajuda de Deus de todo acabado, assentado em alto lugar por alteza de vida e fundado sobre a fé de Deus e dos Sacramentos que tem a Santa Igreja, feito em terra de paz, que devemos de haver de Deus por verdadeira contrição e confissão e satisfação, e a nossos maiores por humildosamente obedecer e calar seus feitos e seus ditos; e a nossos próximos por fazermos a eles o que queríamos que fizessem a nós. E para nos guardar de pecado e amar pobreza e sermos desprezados, assim é o castelo assentado em terra de paz.

Desde aí é afortalezado de duplas fossas profundas por dupla humildade de coração e de feito e dobras à de fora; largas por caridade e amor que homem pode encalçar por amiúde recordar os benefícios de Deus. E o castelo cercado de altos muros duplos de discrição de fora e guarnidos de boas bestas e quadrelos, para defender as fossas, que são quatro considerações: primeira, de sua própria nascença, e a ignorância de seu estado e a memória de sua morte e a lembrança do grande juízo.

E cercado também de muro de paciência, à de dentro, guarnido de fortes engenhos para defender a segunda cava, que são pensar nas penas do inferno e considerar a glória do paraíso e a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e o quarto, cuidar no proveito e galardão que fazem as tribulações. Estes quatro pensamentos são bastantes para defender o muro da paciência.

Desde aí, nosso castelo é ordenado de portas e porteiros, dos quais o principal é a boca e a língua, de que é porteiro razão diligente. E há aí cinco portas de fora, que são os cinco sentidos de que castidade e vergonha são porteiros da porta dos olhos e três das virtudes cardeais, força, temperança e justiça, são porteiros das outras portas. E prudência que é o quarto porteiro, a primeira das quatro virtudes é guarda geral a todas as portas e poderia só abastar a todas, segundo é dito.

E é guarnido de vitualhas que governam a alma, que é a palavra de Deus e a memória de seus benefícios, e o Sacramento do altar. E é fornido de vinho de alegria espiritual, que a devota pessoa acha pondo seu coração e amor em Deus, assim que às vezes é tão embebedada que é aliviada das coisas deste mundo.

Ainda é proveúdo de água de lágrimas de contrição, que a boa pessoa acha em recordando seus pecados; e de lágrimas de compaixão em lembrando-se das sofrenças do seu bento padre e amigo Jesus Cristo; e de lágrimas de devoção que há, trazendo à sua memória os benefícios que Deus fez à humanal natureza geralmente e a ele em especial.

Desde aí, há torre de menagem, que é chamada oração, à qual se homem deve acorrer como à principal defesa de todos seus misteres. E são velas em cima do castelo por verem longe que são três maneiras de temor – começável e filial e reverencial – contra os nossos três inimigos – o diabo, o mundo e a carne, segundo já é dito.

Assim é o castelo perigoso acabado, ainda que pudera dizer muitas mais coisas que deixo, porque ainda se estende minha matéria além de meu propósito começado. Ca eu pensava escrever uma breve epístola a consolação dos devotos amigos de Deus, que – por exemplo desta gloriosa Virgem, em cujo castelo o Filho de Deus quis entrar e morar, assim como é dito no começo, não só corporalmente, mas ainda espiritualmente – desejem e trabalhem cada dia ordenar de seu coração um castelo, assim digno e tão forte e tão formoso, que o Filho de Deus, rei da glória, se contente descer e morar em ele como em sua própria casa; e, se não corporalmente, assim como na Virgem Maria, a que esta graça foi singular, seja espiritualmente, que mais é necessário a nossa salvação.

E Salomão diz que seu vício é morar em nossos corações. E ele mesmo diz: "Minha folgança é morar com vosco. Dai-me lugar em vós em que folgue dos trabalhos que por vós sofri". E são Bernardo diz: "Que festa e que alegria cuidas tu que aquele glorioso hóspede, Jesus Cristo, haja de fazer a sua hóspeda"? Esta será a alma devota quando deixar o tabernáculo de seu corpo. E ele dirá a seus amigos, scilicet, a todos os anjos e santos do paraíso: "Vedes aqui minha hóspeda, que com grande reverência me recebeu quando eu no desterro do mundo buscava pousada e não a podia achar".

Então será ela festejada e honrada de Deus e abraçada e beijada dos santos e levada até a secreta câmara do seu amigo; e será abastada de todos vícios e embebedada de divinal consolação, tanto que esquecerá todos os trabalhos que tem sofridos e os mundanais prazeres e vicejará sem fim em amar e esguardar Deus, e poderá verdadeiramente dizer o que é escrito no Eclesiástico: "Eu trabalhei um pouco e achei muito grande folgança". A qual nos dê o Padre e o Filho e o Espírito Santo. Amém.