Castelo Perigoso/XXXVIII

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Castelo Perigoso
Capítulo XXXVIII – Como a devota pessoa deve ser conhecida [1]e pensar em as infinitas mercês e graças que recebeu de Deus


Ora deve a devota pessoa primeiro pensar nos benefícios de seu Criador e da sua criação, como Deus por sua muita boa bondade o quis fazer à sua imagem e lhe deu poder de ser filho de Deus e lhe deu memória e entendimento e vontade para o conhecer e servir e amar. E, se bem fizer, para o coroar em glória e ser companheiro dos anjos. E se prouvera a Deus, ele o pudera fazer um verme ou alguma terrível besta. E não o quis fazer, antes o fez à sua divina semelhança.

Ora pensa, devota criatura, se bem nem pendência que tu faças pode ser comparado a tal benefício. Eu creio que não. Desde aí, deve homem pensar que Deus fez para o servir o céu e a terra com quanto aí há: o sol e a lua e as estrelas, as aves do ar, as bestas da terra e os peixes do mar fez sujeitos à sua vontade.

Além disto, Deus lhe deu para o servir os nobres príncipes de sua casa, scilicet, os anjos do paraíso que são, segundo diz o apóstolo, espirituais servidores enviados ministrar aqueles que hão de haver a herdade da salvação, scilicet, a nós. E são Bernardo diz que quando nós cantamos ou oramos ou algum bem fazemos ou pensamos, eles o apresentam a Deus; e quando folgamos, são conosco, porque cada um, homem ou mulher, tem um anjo de Deus ordenado à sua guarda. Por isto diz são Bernardo: "Quando tu sentires tentação ou tribulação que grande te pareça, chama com devoção o anjo que é dado em tua guarda".

Notas[editar]

  1. "Reconhecida, agradecida, grata"