Catarina a Camões

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Catarina to Camoens
por Elizabeth Barret Browning
(1806–1961)


Catarina a Camões
Elizabeth Barret Browning


Tradução de Fernando Pessoa



 I

 P'ra a porta onde não surges nem me vês
 Há muito tempo que olho já em vão.
 A esperança retira o seu talvez;
 Aproxima-se a morte, mas tu não.
 Amor, vem
 Fechar bem
 Estes olhos de que dissestes ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.


 II

 Quando te ouvi cantar esse bordão
 Nos meus de primavera alegres dias;
 Todo alheio louvar tendo por vão
 Só dava ouvidos ao que tu dizias
– Dentro em mim
 Dizendo assim:
 "Ditosos olhos de que disse ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos."


 III

 Mas tudo muda. Nesta tarde fria
 O sol bate na porta sem calor.
 Se estivesse aí murmuraria
 Como dantes tua voz – "amo-te, amor";
 A morte chega
 E já cega
 Os olhos que ontem eram teus desvelo
O lindo ser dos vossos olhos belos.


 IV

 Sim. Creio que se a vê-los te encontrasses
 Agora, ao pé do leito em que me fino,
 Ainda que a beleza lhes negasses,
 Só pelo amor que neles eu defino
 Com verdade
 E ansiedade
 Repetirias, meu amor, ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.


 V

 E se neles pusesse teu olhar
 E eles pusessem seu olhar no teu,
 Toda a luz que começa a lhes faltar
 Voltaria de pronto ao lugar seu.
 Com verdade
 E ansiedade
 Dir-se-ia como tu disseste ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.


 VI

 Mas – ai de mim! – tu não me vês senão
 Nos pensamentos teus de amante ausente,
 E sorrindo talvez, sonhando em vão,
 Trás o abanar do leque levemente;
 E, sem pensar,
 Em teu sonhar
 Iras talvez dizendo sempre ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos,


 VII

 Enquanto o meu espírito se debruça
 Do meu pálido corpo sucumbido,
 Ansioso de saber que falas usa
 Teu amor p'ra meu espírito ferido,
 Poeta, vem
 Mostrar bem
 Que amor trazem aos olhos teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.


 VIII

 Ó meu poeta, ó meu profeta, quando
 Destes olhos louvaste o lindo ser,
 Pensaste acaso, enquanto ias cantando,
 Que isso já estava prestes de morrer?
 Seus olhares
 Deram-te ares
 De que breve podias não mais vê-los,
O lindo ser dos vossos olhos belos.


 IX

 Ninguém responde. Só suave, defronte,
 No pátio a fonte canta em solidão,
 E como água no mármore da fonte,
 Do amor p'ra a morte cai meu coração.
 E é da sorte
 Que seja a morte
 E não o amor, que ganhe os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos!


 X

 E tu nunca virás? Quando eu me for
 Onde as doçuras estão escondidas,
 E onde a tua voz, ó meu amor,
 Não me abrirá as pálpebras descidas,
 Dize, amo meu,
 "O amor, morreu!"
 Sob o cipreste chora os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.


 XI

 Quando o angelus toca à oração,
 Não passarás ao pé deste convento,
 Lembrando-te, a chorar, do cantochão
 Que anjos nos traziam do firmamento?
 No ardor meu
 Eu via o céu
 E tu: "O mundo é vil, ó meus desvelos,
Ao lindo ser dos vossos olhos belos?"


 XII

 Devagar quando, do palácio ao pé,
 Cavalgares, como antes, suave e rente,
 E ali vires um rosto que não é
 O que vias ali antigamente,
 Dirás talvez
 "Tanta vez
 Me esperaste aqui, ó meus desvelos
Ó lindo ser dos vossos olhos belos!"


 XIII

 Quando as damas da corte, arfando os peitos,
 Te disserem, olhando o gesto teu,
 "Canta-nos, poeta, aqueles versos feitos
 Àquela linda dama que morreu",
 Tremerás?
 Calar-te-ás?
 Ou cantarás, chorando, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos?


 XIV

 "Lindo ser de olhos belos!" Suaves frases
 E deliciosas quando eu as repito!
 Cem poesias outras que cantasses,
 Sempre nesta a melhor terias dito.
 Sinto-a calma
 Entre a minha alma
 E os rumores da terra ? pesadelos:
– O lindo ser dos vossos olhos belos.


 XV

 Mas reza o padre junto à minha face,
 E o coro está de joelhos todo em prece,
 E é forçoso que a alma minha passe
 Entre cantos de dor, e não como esse.
 Miserere
 P'los que fere
 O mundo, e p'ra Natércia, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.


 XVI

 Guarda esta fita que te mando
 (Tirei-a dos cabelos para ti).
 Sentir-te-ás, quando o teu choro arda,
 Acompanhado na tua dor por mi;
 Pois com pura
 Alma imperjura
 Sempre do céu te olharão teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.


 XVII

 Mas agora, esta terra inda os prendendo,
 Desses olhos o brilho é inda alado...
 Amor, tu poderás encher, querendo,
 Teu futuro de todo o meu passado,
 E tornar
 A cantar
 A outra dama ideal dos teus desvelos:
O lindo ser dos vossos olhos belos.


 XVIII

 Mas que fazeis, meus olhos, ó perjuros!
 Perjuros ao louvor que ele vos deu,
 Se esta hora mesmo vos não mostrais puros
 De lágrima que acaso vos encheu?
 Será forte
 Choro ou morte
 Se indignos os tornar de teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.


 XIX

 Seu futuro encherá meu 'spírito alado
 No céu, e abençoá-lo-ei dos céus.
 Se ele vier a ser enamorado
 De olhos mais belos do que os olhos meus,
 O céu os proteja,
 Suave lhes seja
 E possa ele dizer, sincero, ao vê-los:


Fernando Pessoa
Obra Poética
Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1965.