Chinas americanas

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Chinas americanas
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 18 de abril de 1899


Há quatro anos, o autor destas linhas, interpretando, num dos seus trabalhos de exílio, a “lição do Extremo Oriente”*, predizia, a propósito do naufrágio da China a uma guinada do Japão, a próxima retalhação do colosso asiático, e, apontando nesse destino o das nações inertes, inúteis, incapazes, ousava insinuar a nosso respeito certas associações de idéias, exprimir certos receios, entredizer certos prognósticos. Eram sobressaltos do patriotismo, ama­durecido na escola melancólica da adversidade e do desterro. A política recebeu-os, porém, como recebe tudo o em que há inteligência, previsão e sinceridade, apodando o autor com os costumados labéus de incivismo e traição, por se ter atrevido a pressentir analogia de perigos entre a situação do caduco império-amarelo e a grande república sul-americana.

Mas, pouco mais de três anos haviam passado, quando a Europa, sem se dar sequer à cerimônia de um acordo sobre a partilha, entra a mutilar aos pedaços o território chinês, irresistente como um cadáver entregue às aves de presa, com tão contagiosa avidez por ela entre as nações civilizadas, que até a Áustria, a Bélgica e a Dinamarca reclamam a sua bicada nos despojos palpitantes de tão grossa caça. Ao mesmo passo, tão depressa voam os acontecimentos neste fim de século, que, quase com o surgir de uma formidável ambição militar na estrema oriental da Ásia, aluindo ao seu contacto o mais antigo e populoso dos impérios existentes, assoma no outro hemisfério, pulverizando com a mesma presteza de uma rajada os majestosos restos de um dos grandes impérios ocidentais, a grandeza de uma força ainda mais tremenda, cujas aspirações, apenas entremostradas, já se diz ameaçarem um continente inteiro. E então para logo se põem de lado as meias palavras, as reservas, as opiniões tímidas, as velhas considerações abstratas de direito internacional, para se falar despejadamente na absorção de toda a América por esse poder, enquanto a Europa cristã divide entre os seus governos as outras regiões da barbaria, a saber, praticamente falando, as outras nações desarmadas.

A linguagem alusiva e cautelosa de Lord Salisbury, o diplomata europeu, sucede a desabrida franqueza de Cecil Rhodes, “o Napoleão africano”. Este não é homem de rodeios. Com os seus hábitos de fundador de um império novo, anuncia quase como verdadeira sideração o desaparecimento de todas as nacionalidades americanas na massa espantosa desse núcleo, a que se acabam de incorporar as Antilhas espanholas e as Filipinas. E, se alguém, como o Spectator, com a sua imensa autoridade, com o peso extraordinário da sua ciência, lhe opõe embargos, ou dúvidas, não é à credibilidade da transformação prenunciada, mas apenas à maneira prevista de se operar a grande revolução no equilíbrio das nações, especialmente no mapa do continente americano. A ingestão das duas Américas no estômago de Washington não se efetuará, entende ele, por uma campanha e um Bonaparte yankee, mas pelo transborde aluvial da democracia anglo-americana, inundando toda esta face do globo, desde o Canadá até a Patagônia. A questão, pois, entre os retalhadores, já não está em saber se corremos, ou não, o risco de ser deglutidos, mas em determinar a rapidez, ou o processo da deglutição: se se fará de uma assentada, ou metodicamente, com pausa, higiene e segurança do quilo.

O antigo desprezo europeu e particularmente americano pela América Latina acaba de assumir a sua expressão mais humilhante. O néscio patriotismo dos insensatos, que, não há muito, sonhavam abrigar o Brasil, nas suas dissidências intestinas, à sombra dos canhões dos Estados Unidos, poderá ir começando a perceber, talvez, o ridículo a que nos expõe a sua ingenuidade. No caldeirão aparelhado ao pantagruelismo da política invasora, vai na mais confusa promiscuidade com índios e mestiços toda a descendência portuguesa e espanhola debaixo deste céu, e com as mais desafamadas, as mais fracas repúblicas deste continente, as melhores, ou as mais fortes, como o México, a Argentina e o Chile.

Enquanto se não submergiu a tirania de López, tinha o Paraguai, pelo seu regímen de seqüestração, o nome de China americana. Hoje, essa consideração depreciativa se vai estendendo a toda parte não-inglesa do hemisfério predestinado a constituir o império do yankismo rebelado contra a tradição política dos fundadores da União. Os menos sangüíneos nesses sentimentos, como Spectator, não vacilam, todavia, em admitir que nestes cinqüenta anos se haja cumprido inteiramente o horóscopo de Cecil Rhodes, e falam desassombradamente dos países semidesertos como o Brasil, para onde não põe dúvida em apontar a direção da conquista americana. Essas regiões brasileiras, de inestimável preço, cuja importância, dizem eles, a Europa não avalia, custarão, quando muito, vinte anos para submeter, e cinqüenta para povoar.

E enquanto de nós se pensa e fala assim por aí além no mundo civilizado, o em que nos ocupamos, é em lhe ministrar novos motivos ao seu desdém, à sua certeza do nosso próximo aniquilamento. Nossa política é cada vez mais mesquinha e imprevidente. Só as questões de bairro nos movem e apaixonam. A luta pela posse dos governos locais desune, empobrece, avilta e ensangüenta os Estados. Toda a seiva da nossa inteligência e da nossa energia se esvai nos combates de personalidades, toda a atividade da nossa administração no meneio dos expedientes, toda a capacidade dos nossos estadistas na intriga, na astúcia, na cabala, na vingança, na inveja, na condescendência com o abuso, na salvação das aparências, no deleixo do futuro. Dos problemas econômicos ninguém cura seriamente. Dos morais, seria risível esperá-lo. Funcione cada vez mais franca a mentira eleitoral, para entregar o governo, em todos os graus da sua jerarquia, às incapacidades mais notórias, é o que se quer. Na defesa do país, ninguém pensa. Se alguma vez, sob esse pretexto, se toca nas questões da guerra, é pelo modo que se sabe no caso dos arsenais. O exército nulifica-se. A marinha desaparece. Tudo vai, entretanto, como no melhor dos mundos, para o mundo oficial, enquanto pudermos fingir ignorar as questões internacionais, que nos ameaçam, e que, das repúblicas de valor na América do Sul, só a nossa se acha desarmada.

Vem a ponto, portanto, o caso do Spectator. Dissera-nos o telégrafo que ele rebatia a predição de Cecil Rhodes. A verdade, porém, é que, em última análise, a reforça. Vamos pô-lo diante dos olhos dos nossos conterrâneos com a mesma impressão de tristeza e amargor, com que o lemos. Se fatos como esse não despertarem o movimento nacional, a que aludia, há pouco, o Sr. Joaquim Nabuco, não imaginamos que espécie de milagre seria capaz de levantá-lo.