Como e porque sou romancista/IV

Wikisource, a biblioteca livre
< Como e porque sou romancista
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Como e porque sou romancista por José de Alencar
Capítulo IV


O primeiro broto da semente que minha boa mãe lançara em meu espírito infantil, ignara dos desgostos que preparava a seu filho querido, veio dois anos depois.

Entretanto é preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de literatura, não foi ela que me estreou na carreira de escritor. Este título cabe a outra composição, modesta e ligeira, e pôr isso mesmo mais própria para exercitar um espírito infantil.

O dom de produzir a faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episódio psicológico, se não fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo novas excursões fora do assunto que me produz.

Foi em 1842.

Já então havíamos deixado a casa da Rua do Conde e morávamos na Chácara da Rua Maruí, nº 7, donde também saíram importantes acontecimentos de nossa história política. E todavia ninguém se lembrou ainda de memorar o nome do Senador Alencar, nem mesmo pôr esse meio econômico de uma esquina de rua.

Não vai nisso mais que um reparo, pois sou avesso a semelhante modo de honrar a memória de beneméritos; além de que ainda não perdi a esperança de escrever esse nome de minha veneração no frontispício de um livro que lhe sirva de monumento. O seu vulto histórico, não o atingem pôr certo as calúnias póstumas que, sem reflexão, foram acolhidas em umas páginas ditas de história constitucional; mas quantos dentre vós estudam conscienciosamente o passado?

Como a revolução parlamentar da maioridade, a revolução popular de 1842 também saiu de nossa casa, embora o plano definitivo fosse adotado em casa do Senador José Bento, à Rua do Conde, 39

Nos paroxismos, quando a abortada revolução já não tinha glórias, mas só perigos para os seus adeptos, foi na Chácara do Senador Alencar que os perseguidos acharam asilo, em 1842 como em 1848.

Entre os nossos hóspedes da primeira revolução, estava o meu excelente amigo Joaquim Sombra, que tomara parte no movimento sedicioso do Exu e sertões de Pernambuco.

Contava ele então os seus vinte e poucos anos: estava na flor da mocidade, cheio de ilusões e entusiasmos. Meus versos arrebentados à força de os esticar, agradavam-lhe ainda assim, porque no fim de contas eram um arremedo de poesia; e porventura levavam um perfume da primavera da alma.

Vendo-me ele essa mania de rabiscar, certo dia propôs-me que aproveitasse para uma novela o interessante episódio da sedição, do qual era ele o protagonista.

A idéia foi aceita com fervor e tratamos logo de a pôr em obra.

A cena era em Pajeú de Flores, nome que só pôr si enchia-me o espírito da fragrância dos campos nativos, sem falar dos encantos com que os descrevia o meu amigo.

Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos da infância que o viram nascer. Das minhas primícias literárias nada conservo; lancei-as ao vento, como palhiço que eram da primeira copa.

Não acabei o romance do meu amigo Sombra; mas em compensação de não te-lo feito herói de um poema, coube-me, vinte e sete anos depois, a fortuna mais prosaica de nomeá-lo coronel, posto que ele dignamente ocupa e no qual presta relevantes serviços à causa pública.

Um ano depois, parti para São Paulo, onde ia estudar os preparatórios que me faltavam para a matrícula no curso jurídico.