Confissões de uma Viúva Moça/VII

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A molestia de meu marido durou poucos dias. De dia para dia aggravava-se. No fim de oito dias os medicos desenganárão o doente.

Quando eu recebi esta fatal nova fiquei como louca. Era meu marido, Carlota, e apezar de tudo eu não podia esquecer que elle tinha sido o companheiro da minha vida e a idéa salvadora nos desvios do meu espirito.

Emilio achou-me n’um estado de desespero. Procurou consolar-me. Eu não lhe occultei que esta morte era um golpe profundo para mim.

Uma noite estavamos juntos todos, eu, a prima Elvira, uma parenta de meu marido e Emilio. Faziamos companhia ao doente. Este, depois de um longo silencio, voltou-se para mim e disse-me:

— A tua mão.

E apertando-me a mão com uma energia suprema, voltou-se para a parede.

Expirou.

. . . . . . . . . .

Passárão-se quatro mezes depois dos factos que te contei. Emilio acompanhou-me na dôr e foi dos mais assiduos em todas as ceremonias funebres que se fizerão ao meu finado marido.

Todavia, as visitas começárão a escassear. Era, parecia-me, por motivo de uma delicadeza natural.

No fim do prazo de que te fallei, soube, por boca de um dos amigos de meu marido, que Emilio ia partir. Não pude crer. Escrevi-lhe uma carta.

Eu amava-o então, como d’antes, mais ainda, agora que estava livre.

Dizia a carta :

« Emilio. Constou-me que ias partir. Será possivel? Eu mesma não posso acreditar nos meus ouvidos! Bem sabes se eu te amo. Não é tempo de coroar os nossos votos; mas não faltará muito para que o mundo nos releve uma união que o amor nos impõe. Vem tu mesmo responder-me por boca. Tua Eugenia. »

Emilio veio em pessoa. Asseverou-me que, se ia partir, era por negocio de pouco tempo, mas que voltaria loco. A viagem devia ter lugar d’ahi a oito dias.

Pedi-lhe que jurasse o que dizia, e elle jurou.

Deixei-o partir.

D’ahi a quatro dias recebia eu a seguinte carta d’elle :

« Menti, Eugenia; vou partir já. Menti ainda, eu não volto. Não volto porque não posso. Uma união comtigo seria para mim o ideal da feiicidade se eu não fosse homem de habitos oppostos ao casamento. Adeos. Desculpa-me, e reza para que eu faça boa viagem. Adeos. Emilio. »

Avalias facilmente como fiquei depois de ler esta carta. Era um castello que se desmoronava. Em troca do meu amor, do meu primeiro amor, recebia d’este modo a ingratidão e o desprezo. Era justo: aquelle amor culpado não podia ter bom fim; eu fui castigada pelas consequencias mesmo do meu crime.

Mas, perguntava eu, como é que este homem, que parecia amar-me tanto, recusou aquella de cuja honestidade podia estar certo, visto que pôde oppôr uma resistencia aos desejos de seu coração? Isto me pareceu um mysterio. Hoje vejo que não era; Emilio era um seductor vulgar e só se differençava dos outros em ter um pouco mais de habilidade que elles.

Tal é a minha historia. Imagina o que soffri n’estes dous annos. Mas o tempo é um grande medico: estou curada.

O amor offendido e o remorso de haver de algum modo trahido a confiança de meu esposo fizerão-me doer muito. Mas eu creio que caro paguei o meu crime e acho-me rehabilitada perante a minha consciencia.

Achar-me-hei perante Deos?

E tu? É o que me has de explicar amanhã; vinte e quatro horas depois de partir esta carta eu serei ocmtigo.

Adeos!