Contos Populares Portuguezes/A moura encantada

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
A moura encantada


LXXIII


A MOURA ENCANTADA


Um homem foi viajar e chegou a uma terra e pediu agasalho; mas não o quizeram acolher; havia lá uma casa rica, mas a familia da casa não estava; andava lá medo e elles fugiram; elle foi para lá e sentou-se n'uma varanda deixando-se ficar alli até noite; veiu apenas foi noite uma mão com uma luz e acenou-lhe que fosse para dentro; elle foi dentro e encontrou uma mesa muito bem arranjada com comida; elle comeu e acabando de comer, encostou-se a um braço e adormeceu. Emquanto dormia tiraram-lhe d'um dedo um annel d'ouro que trazia e pozeram-lhe outro. Tendo acordado, a mão acenou-lhe de novo e indicou-lhe um quarto de dormir para onde elle foi. Elle notou que o annel estava mudado. Estando na cama sentiu movimento como de pessoa que se queria deitar na mesma cama e elle não vendo nada disse: «Sempre queria saber quem se quer deitar commigo, se é homem, se é mulher.» Responderam:

«Eu sou uma mulher; sou uma moura que aqui está encantada ha muito anno; se tu me desencantas ficas rico para a tua vida. Has de estar aqui tres noites, hão de vir ao pé de ti, deitar-te da cama abaixo e dizer-te: «Justiça, quem te trouxe aqui» e arrastar-te pelas casas e dar-te muita pancada; mas tu no fim de cada vez que isso te fizerem vae debaixo d'esta cama; aqui estão tres garrafas, bebe um gota de cada uma que ao outro dia estás são. Se tu ficares estes tres dias, aqui te ficam tres saquinhos de dinheiro; podes gastal-o que em tu dizendo: «Ai de mim que não tenho dinheiro! as bolsas se encherão sempre de novo. O meu pae era viso-rei em terra de mouros.

Ficou o homem tres dias e ao fim dos tres dias em que tudo se passou como a moura dissera elle esperou por almoço que não veiu e vendo que o jantar tambem não vinha resolveu-se a ir embora. Foi-se d'ali andando e pelo caminho comprava terras que dava aos pobres; por fim foi dar á terra de mouros. Comprou uma quinta; n'isto a moura estava para casar. Disse a moura ao pae: «Ó pae será bom chamar aquelle fidalgo que comprou aquella quinta para assistir á boda do casamento».

Convidaram-no e á mesa pediram-lhe que fizesse elle os pratos para os commensaes. Por acaso olhou elle para o dedo da moura e reconheceu o annel que no palacio encantado lhe tinham mudado e d'então em deante sempre que fazia saudes á princesa extendia a mão para o lado d'ella para que visse o annel que elle trazia; logo que ella viu o annel disse:

«Ó meu pae vou dizer uma cousa; todos estes senhores me darão licença; eu perdi as chaves do mostrador e depois mandei fazer umas novas; depois achei as velhas; agora quero que me digam de quaes m'eu hei de servir, se das novas se das velhas.» Respondeu-lhe o pae:

— Minha filha deves-te servir das velhas, pois já as conheces, podes-te servir d'ellas mesmo ás escuras.»

— Pois meu pae eu hei de casar com este senhor que foi quem teve o trabalho de me desencantar.

Casou com o homem e o outro foi-se embora.

(Ourilhe).