Contos Populares Portuguezes/O ovo partido

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
O ovo partido


LXXIV


O OVO PARTIDO


Era uma vez um homem que tinha uma filha e tinha um creado, e veiu por lá um brazileiro, e disse-lhe: «Se me deixasse ir o seu creado até eu passar aquella serra que levo o meu dinheiro e tenho medo que me roubem?» Elle mandou-lhe o creado e o creado de volta disse: «Oh senhor! não me dá a sua filha que quero casar com ella?» E elle disse-lhe: «Sempre és muito malcreado! Se não fôra eu ter-te amizade punha-te já fóra da porta com uma carregadeira de pau.» «Senhor, olhe que eu estou rico, que eu matei o brazileiro e tirei-lhe este dinheiro.» E mostrou-lhe o dinheiro. «Eu não duvido dar-te a filha, mas has de ir tres vezes a eito á volta da meia noute onde o mataste escutar o que ouvires.» O moço foi. Perguntou-lhe o amo: «Tu que ouviste?» Eu ouvi dizer: «Tu pagarás.» Torna lá e has de lhe perguntar: eu quando é que hei de pagar?»

O creado foi lá e a voz disse-lhe: «D'aqui a trinta annos.» E o amo disse-lhe: «D'aqui a trinta annos já eu não sou vivo. Casa com a minha filha.» Fez-se o casamento, já se sabe.

Passados trinta annos andavam dous pobres a pedir e foram pedir áquella casa. E o pae da rapariga disse:

«Venham para dentro.» E ao tempo que elles iam a entrar embarraram n'uma cesta que tinha ovos e quebraram um e o dono da casa ralhou com elles. Elles disseram: «Ó senhor! não ralhe comnosco a troco do ovo que nós pagamos-lh'o, ainda que elle custe uma moeda.» E elle disse: «Não é por isso; é que a roda emquanto anda, anda e quando começa a desandar má vae ella. Ha trinta annos que dei a casa a minha filha; ha trinta annos não dei nenhuma esmola, e até hoje não tive nenhuma perda, só agora a d'um ovo!»

Os homens deitaram-se e um disse para o outro: «Tu dormes?» «Eu não; vamo-n'os d'aqui embora; casa que ha trinta annos não dá esmola nem teve perda senão hoje, aqui acontece alguma desgraça.» O outro disse: «Mas nós aonde havemos d'ir dormir? isto é fóra d'horas; não achamos pousada.» «Pois emfim vamo-nos, como nós fiquemos fóra dos beiraes d'ella... fiquemos mesmo detraz d'uma parede.»

Sahiram; ficaram ahi perto das casas atraz d'uma parede e de noite ouviram um grande ruido, e disse um para o outro: «Tu ouviste aquillo?» «Eu ouvi.» «Olha que foram certamente as casas do fidalgo a cair.»

Ao outro dia, assim que foi dia, foram vêr e nem viram casas, nem telhas, nem nada, e no logar da casa havia uma grande cova.

(Ourilhe.)