Contos Populares Portuguezes/A raposa e o lobo

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
A raposa e o lobo


VII
A RAPOSA E O LOBO

Era uma raposa e viu uns cães de caça e elles disseram-lhe: — Ó comadre anda aqui para onde a nós; veiu agora uma ordem dos bixos não fazerem mal uns aos otros.» Ella disse-lhe: — «Eu venho logo que vou ver se aquelle meu compadre se quer utilisar da mesma ordem e vir para aqui onde a nós.» O compadre era um gallo. N’isto passou ai um caçador e disse-lhe: — «Ó raposa, queres tu gallinhas? — «Eu quero.» — «Pois então anda á tarde a minha casa que eu tenho lá uma capoeira d’ellas.» — O caçador tinha uma duzia de cães de caça mettidos n’uma côrte e soltou os cães á raposa. N’isto ella deitou a correr e o gallo estava em cima d’uma parede o gritava-lhe: «Mostra-lhes a ordem, mostra-lhes a ordem.» A raposa escapou-se dos cães e foi a um campo que tinha o tal caçador e que era de milho; soltava para dentro — alagava uma pedra; saltava para fora — alagava outra, até que fez um portello por onde podia passar o gado. Viu um burro e disse-lhe: — «Ó compadre, queres milho? — » Quero. — «Então entra para dentro que eu hei de pagar ao caçador o engano que elle me fez.» O burro comeu tanto milho que lhe saiu o sesso defóra; depois veio um corvello e a raposa disse-lhe: — «Ó compadre, queres tu carne? — » Eu quero, sim.» — «Pois então vae alli.» E indicou-lhe o sesso do burro onde elle foi picar e o burro enganou-o aos couces. Depois a raposa encontrou um lobo e disse-lhe: — » Ó compadre, queres tu? vamos tomar um afilhado. Foram para deante e encontraram uma gente que estava a fazer um molho de centeio e vae ella disse-lhe : — «Olha, ó compadre, chega-te ali pr’a o pé d’aquelles homens da malha que elles dão atraz de ti e em-no entanto, pilho-lhes eu a panella do arroz.» Assim fizeram; os homens deram atraz do lobo o a raposa metteu a cabeça dentro da panella, comeu o que poude e quebrou a panella; chegou ao pé do lobo:— «Como passaste, compadre?» — «Ora; deram com as malhas atraz de mim que estou morto de cançaço.» — «Olha pr’a mim; quebraram-me a cabeça que até estou com os miolos fóra.» Os miolos eram os grelos do arroz que tinha na cabeça.

O lobo disse-lhe que lhe deixasse lamber os miolos que eram muito bons. Depois ella disse-lhe: — «Deitemo-nos agora aqui um pouco que eu venho muito enfadada.» Ella deixou adormecer o lobo e foi tomar o afilhado, que era comer um cabrito.

Depois toparam um velho n’uma cozinha e disseram-lhe: — «Ó velhote, queres que nós vamos fazer uma boda?» Depois juntaram-se o lobo, a raposa e um coelho; o lobo devia de levar um cabrito, a raposa uma gallinha e o coelho a salsa. Assim fizeram. O velho foi o primeiro que chegou com um raminho de salsa e o velho atirou-lhe com um páo o matou-o; ao lobo metteu-lhe um espeto pelo c… e á raposa pegou-lhe pelo rabo e arrastou-a pelo borralho. Fugiram a raposa e o lobo e quando estavam longe, disse o lobo: — «Não vamos lá; o diabo do velho metteu-me um dedo tão quente, tão quente pelo c… acima que parecia um espeto quente.» Depois disse a raposa: — «Eu vou ver o que o velho faz; se elle estiver a dormir ainda lhe vamos pilhar a boda.»

Chegou lá á porta e o velho que tinha acabado de comer estava a limpar as barbas com um panno. Ella chegou ao lobo e disse: — «Olha, compadre; vamo-nos embora que o velho está a puxar por as barbas que nós que lh’a havemos de pagar, que nos ha de matar.» — «Pois vamo-nos embora.»

Vinham para casa e anoiteceu-lhes no caminho e viram a sombra da lua n’um poço. Disse então a raposa. — «Olha que ali n’aquelle poço está uma broa dentro; vamos tiral-a» — «Nós como é que havemos de fazer? — » Olha; bebemos a agua; enchemos a barriga e depois vamos mijar e assim tiramos a agua do poço.»

Foram beber, mas a raposa não bebia quasi nada porque apenas tinha bebido alguma agua dizia: — «Ai, tenho a minha barriga tão cheia.» Mas o pobre do lobo bebia muito e tanto bebeu que arrebentou e morreu.

Depois a raposa juntou-se e mais a garça para fazerem um caldo de farinha; a garça fez o caldo n’uma almotolia; metteu o bico e bebeu tudo, porque a raposa não podia bebel-o pela almotolia. Depois a garça disse-lhe: — «Tu já me convidaste para a tua boda; agora vou-te eu convidar para uma boda que ha no ceo.» — «Eu como hei de ir?» — «Vaes nas minhas azas.»

Foi; a garça assim que estava mais enfadada disse-lhe: — «Tem-te, comadre, emquanto eu escupo[1] em mão.» Larga a raposa e esta quando vinha a cair dizia

— «Isto vae de déo em déo;
Se eu d’esta escapo
Não torno ás bodas ao céo.»

Estava da banda de baixo um penedo grande e ella disse: — «Arreda, lage, que te parto.» N’isto caiu sobre a fraga e arrebentou.[2]

(Ourilhe.)

Notas[editar]

  1. Corrupção por cuspo.
  2. Quasi todos os episodios que formam o conto anterior se encontram separados em contos independentes ou ligados a outros differentes; as variantes offerecem-se em grande numero, mas ou menos curiosas. O cyclo popular do Renard é talvez mais vasto no meu paiz do que se pode julgar pelo que d’elle tenho colhido. Os contos seguintes, com quanto offereçam apenas variantes de episodios do antecedente, julgamos dever publical-os por inteiro.