Contos Populares Portuguezes/Comêra um bocadinho se tivera limão

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
Comêra um bocadinho se tivera limão…



Era uma vez um conde, casado e com uma filha, de quem era muito amigo, por ser muito linda. Tinha-a escondida e nunca a levava a parte alguma, com receio de que houvesse algum cavalleiro, que vendo-a, lhe roubasse o coração. Houve por esta occasião uma festa e a mulher do conde disse para este, que visse se podia arranjar alguma maneira de a filha poder vêr a festa, porque ella estava muito triste, e talvez assim se distrahisse alguma cousa. O conde ficou muito zangado com este pedido, e começou a pensar no modo, como havia a filha de assistir áquella festa, sem que ninguem podesse vêl-a. O palacio onde elle habitava tinha um grande jardim. Mandou alli abrir um janella muito pequena, e no dia da festa levou a filha para lá. No momento em que começava a festa, o principe que ia no cortejo, olhou para a fresta onde estava a filha do conde, e ficou surprehendido, pois nunca tinha visto um rosto tão formoso. Quando chegou ao palacio ia muito triste; montou a cavallo e foi vêr se se recordava do sitio onde tinha visto a bella desconhecida. O conde, porém, tinha mandado tapar immediatamente a janella, e por mais que o principe procurasse nada viu, e teve de voltar ao palacio ainda mais triste. No dia seguinte foi ter com uma fada, e esta pegando-lhe na mão, disse: «Principe eu conheço a dama do vosso coração, e se vós me daes uma bolsa cheia de ouro, eu ainda esta noite a apresento no vosso palacio.»

Estava a anoitecer e a fada dirigiu-se a casa do conde. Precurou a creada particular da filha, e pediu-lhe para pernoitar aquella noite alli. A filha do conde, que tinha um coração muito bondoso, disse immediatamente que sim, mas que havia de ser sem a mãe saber, porque ella não gostava que se désse entrada a pessoa alguma estranha. A fada entrou para o quarto da filha do conde, e começou a contar-lhe historias tão lindas, que esta estava toda encantada. Quando deu meia noute disse-lhe a fada: «Se vós quizesseis ir a uma grande festa, que dá o principe esta noute, eu levava-vos lá.» «Mas a mamã e o papá?» disse a menina. «Não tenhaes receio algum; eu tenho uma varinha de condão, e d'aqui vos levarei, e aqui vos hei-de trazer, sem que ninguem dê pela nossa falta.» A menina muito contente com as historias da fada, e por ir vêr uma grande festa, disse que sim. Preparou-se com os melhores fatos e accompanhou a fada. D'ali a poucos momentos chegou a um grande palacio, e a fada abrindo uma porta empurrou-a para uma grande casa forrada de sede azul, tendo ao meio uma grande mesa guarnecida de manjares, e desappareceu. N'este instante entrou o principe e reconhecendo a sua bella deu um grito de alegria. Chegou-se então perto d'ella e beijou-lhe a mão, convidando-a a servir-se d'alguns d'aquelles manjares. A menina assustada por se vêr vó com um principe, que a olhava tão apaixonadamente, pedia a Deus uma ideia para que podesse fugir d'alli. Vendo que na mesa não havia limão, quando o principe lhe rogava muito que se servisse, ella disse-lhe:

«Comera um bocadinho,
«Se tivera limão…

O principe saiu immediatamente para ir buscar o limão, e ella vendo-se só, abriu a porta por onde tinha entrado e desappareceu. No caminho encontrou a fada e disse-lhe: «Leva-me já para casa de meu pae; tenho modo de estar aqui!» O principe quando voltou e não encontrou a menina, ficou muito triste, e quasi louco de afflicção. Andava todo o dia pelas salas passeando e repetindo estas palavras:

«Comera um bocadinho
«Se tivera limão…

A filha do conde, que tambem se não esquecera do formoso principe, andava muito desejosa de saber noticias do palacio. Ouvindo o pae dizer que o principe andava muito triste, e que só dizia:

«Comera um bocadinho
«Se tivera limão.

disse para elle a filha: «Olhe, papá, quando o principe estiver assim digam-lhe:

«Fecharam-lhe a porta,
«Tiveram-lhe mão.

O conde riu-se d'este pensamento da filha, por lhe parecer muito extravagante, mas quando no outro dia foi a palacio, chegando-se ao pé do principe cumprimentou-o. O principe não fazendo caso, continuou no seu costumado passeio, dizendo sempre:

«Comera um bocadinho
«Se tivera limão…

Apenas ouviu isto, o conde respondeu: «Olhe, meu principe:

«Fecharam-lhe a porta,
«Tiveram-lhe mão…

«Bem sei! bem sei! respondeu o principe muito depressa, eu é que tive a culpa.» — Depois dirigiu-se á rainha pedindo-lhe que désse um beijamão a todos os fidalgos da côrte, e que estes viessem com suas familias. A rainha não podendo adivinhar qual fosse o motivo d'este desejo, disse comtudo ao principe que sim. O conde não queria por modo algum levar a filha a palacio, mas como a ordem era expressa não teve remedio senão obedecer. A filha vestiu-se exactamente como no dia em que pela primeira vez viu o principe, e foram para o palacio. O principe olhava com avidez para todas as damas que entravam, mas assim que as via perto de si, não lhes dava mais attenção. No momento em que se lhe approximou a filha do conde, em vez de lhe extender a mão, levantou-se e apertando-a nos braços, exclamou: «Minha mãe, aqui tendes a princeza, que desejo para esposa.»

Immediatamnte a rainha deu ordem á sua côrte para comparecer ao casamento, e no outro dia a filha do conde casou com o principe.

(Lisboa).