Contos Populares Portuguezes/Os tres estudantes e o soldado

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
Os tres estudantes e o soldado


LXIII


OS TRES ESTUDANTES E O SOLDADO


Era uma vez tres estudantes, que iam para casa das familias passar as ferias. Seguiam pelo mesmo caminho e encontrando um lobo morto disse um d'elles: «Aquelle que fizer o verso mais bem feito a este lobo, come o jantar sem pagar.»

— Está dito! responderam os outros dois, e um d'elles começou:

«Este lobo, quando no mundo andou,
Quanto comeu, nada pagou.»

Disse o outro estudante:

«Este lobo, quando era vivo
Tudo comeu crú, e nada cozido.»

O terceiro respondeu:

«Este lobo, quando dormiu a sésta
Nunca dormiu uma como esta.»

Depois de dizerem os versos começaram a questionar, porque todos tres queriam que o seu fosse melhor. N'isto ia passando um soldado, e elles chamáram-n'o dizendo-lhe: «Olá, camarada! ha de dizer-nos qual dos versos é melhor, para sabermos qual de nós ha de comer o jantar sem pagar», e repetiram os versos. Depois de acabarem, disse o soldado: «Estão todos muito bem feitos. Paguem os senhores todos tres o jantar e comamol-o todos quatro.» «Pois sim! disseram os estudantes»; mas zangados por se verem logrados por um soldado, combinaram entre si que haviam de zombar d'elle. Chegáram a um hospedaria e mandáram fazer jantar para todos quatro, mas em particular disseram á dona da hospedaria, que cozesse um paio e o pozesse na mesa partido em tres partes eguaes. Depois d'isto sentaram-se todos quatro á mesa, e um dos estudantes espetou o garfo n'um dos bocados do paio e disse:

«Em nome do Padre...
Este me cabe!»

O segundo fez o mesmo, dizendo:

«Em nome do Filho...
Este commigo!»

O soldado vendo só um bocado no prato, agarrou-o, gritando:

«Em nome do Espirito Santo…
Antes que fique em branco!»

E d'este modo foi elle quem logrou os tres espertalhões.

(Lisboa, d'uma pessoa d'Almeida, Beira-Baixa).