Contos Populares Portuguezes/Historia do compadre pobre e do compadre rico

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
Historia do compadre pobre e do compadre rico
Versão com ortografia atualizada disponível em História do Compadre Rico e do Compadre Pobre.


LXII


HISTORIA DO COMPADRE POBRE E DO COMPADRE RICO

Moravam n’uma aldea dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito miseravel. N’aquella terra era uso, todos quantos matavam porco dar um lombo ao abbade. O compadre rico, que queria matar porco sem ter de dar o lombo, lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso. Este deu-lhe de conselho, que matasse o porco e o dependurasse no quintal, recolhendo-o de madrugada, para depois dizer que lh’o tinham roubado.

Ficou muito contente com aquella ideia e seguiu á risca o que o compadre pobre lhe tinha dito. Depois deitou-se com tenção de ir de madrugada ao quintal buscar o porco. Mas o compadre pobre, que era espertalhão foi lá de noite e roubou-lh’o. No dia seguinte, quando o rico deu pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e muito afllicto contou-lhe o acontecido. Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe: «Assim, compadre! bravo! muito bem, muito bem! assim é que há-de dizer para se esquivar de dar o lombo ao abbade!»

O rico cada vez teimava mais ser certo terem-lhe roubado o porco; e o pobre cada vez se ria mais, até que aquelle sahiu desesperado, porque o não entendiam.

O que roubou o porco ficou muito contente e disse á mulher: «Olha, mulher! d’esta maneira tambem havemos de arranjar vinho. Tu hás de ir a correr e a chorar para casa do compadre, fingindo que eu te quero bater; levas um odre debaixo do fato, e quando sentires a minha voz foges para a adega do compadre e enquanto eu estou fallando com elle, enches o odre de vinho e foges pela outra porta para casa.» A mulher, fingindo-se muito afllicta correu para casa do compadre, pedindo que lhe acudisse, porque o marido a queria matar. N’isto ouviu a voz do marido e correu para a adega do compadre, e emquanto este diligenciava apaziguar-lhe a ira, enchia ella o odre. Tinha-lhe esquecido, porém, um cordão para o atar, mas tendo uma idea gritou para o marido: «Ah! guela de odre sem nagalho.» O marido, que entendeu, respondeu-lhe: «Ah! grande atrevida!… que eu se lá vou abaixo, com a fita do cabello te hei de afogar!» Ella, apenas isto ouviu, desatou logo o cabello, atou com a fita a boca do odre e fugiu com elle para casa. D’esta maneira tiveram porco e vinho sem lhes custar nada, e enganáram o avarento do compadre.

(Lisboa, d’uma pessoa da Beira-Baixa.)