Contos Populares Portuguezes/As filhas dos dois validos

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
As filhas dos dois validos


LXI


AS FILHAS DOS DOIS VALIDOS


Um rei, tinha dois validos com quem costumava conversar, e notou que um d'elles, a todo o momento, lhe fallava em duas filhas que tinha, gabando a sua formosura, virtude e innocencia, emquanto o outro nunca fallava na filha unica que tinha e que o rei ouvia dizer que era linda. Admirado do differente modo de pensar dos dous, resolveu elle mesmo observar as filhas d'um e d'outro.

Para isto, vestiu-se de mulher, mas muito pobremente, e foi a casa das primeiras pedir agasalho por uma noute, o que sómente alcançou a custo e depois de muitos rogos. Ainda assim mandáram-n'o para a cozinha. De noite, o rei, sentio entrar gente em casa, e conforme poude, foi espreitar e viu dois bellos officiaes conversando com as duas filhas do valido. O rei, pegando na espada e na banda que os officiaes tinham deixado n'outra sala, sahiu, levando-as. Depois foi pedir agasalho á menina em quem o pae nunca fallava. O rei disse que era uma estranjeira, que se tinha perdido no caminho e que pedia agasalho por aquella noute. A menina compadeceu-se muito da estranjeirinha, deu-lhe de cear e quiz que dormisse proxima do seu quarto. Já era muito tarde e o rei sentia a menina a pé. Foi espreital-a, mas ficou encantado, quando a viu de joelhos defronte de um oratorio, rezando uma oração. Depois levantou-se a menina, cheirou os pós que tinham n'uma caixa de prata e deitou-se. O rei quando viu que ella dormia, entrou no quarto, furtou-lhe a caixa de prata, e sahiu muito depressa.

Dois dias depois, convidou os seus dous validos para um banquete no palacio, dizendo-lhe que haviam de levar as suas filhas. Convidou tambem os dois officiaes, que vira em casa das duas filhas d'um dos seus validos. No fim do banquete o rei mandou vir para a mesa uma salva de prata que estava n'uma outra sala. A salva trazia a caixa de prata, a espada e a banda. As duas irmãs e os dois officiaes, ao vêrem os objectos que n'aquella noite passada lhe haviam sido roubados de casa, ficáram muito assustados, não dizendo nem uma palavra, porque conheciam o mal que tinham feito. A outra menina, como era virtuosa, não tinha medo de fallar, e assim que viu a caixa, pegou-lhe e sorrindo olhou para o rei, dizendo:

 
«Ah! estranjeirinha, estranjeirinha!
«Que esta caixa era minha!…»

e o rei repondeu-lhe:

«Pois se a caixinha era vossa,
«Pela virtude sereis rainha!

Dando esta lição ás outras duas meninas, fez com que casassem com os dois officiaes.

(Lisboa, d'uma pessoa de Almeida, Beira-Baixa).