Contos Populares Portuguezes/A princeza abandonada

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
A princeza abandonada


LX


A PRINCEZA ABANDONADA


Era uma vez um rei, que tinha uma filha. Um camarista do rei, tomou amores com ella. O pae, quando viu que ella andava gravida abandonou-a. Mandou-a deitar para uns campos e disse aos homens que a foram deitar, que lhe cortassem a lingoa e que lh'a trouxessem. Elles tiveram dó de lhe cortarem a lingoa e como levavam uma cadella cortáram-lhe a lingoa e trouxeram-n'a ao rei. A princeza ficou só nos campos, e teve lá um filho que foi creado só das hervas do campo. Depois de o menino já ser crescido pediu á mãe para ir passear; foi a tanta distancia que encontrou um caçador. Como nunca tinha visto homens fugiu para onde estava a mãe e o caçador foi sobre elle. Chegou ao pé da princeza e perguntou-lhe que vida era a d'ella alli. Ella contou-lhe a sua vida. Elle disse-lhe se queria ir com elle. Ella disse-lhe que não, que queria ali acabar os seus dias de vida. Sómente o que lhe pedia, era que fosse baptisar o seu menino. O caçador foi o baptisar. Depois ia visital-a todos os dias. E um dia disse-lhe se deixava o afilhado ir com elle a uma feira. Na feira perguntou ao afilhado o que queria que lhe comprasse. E elle disse que queria uma espingarda e um cavallo. Todos os dias ia o principezinho á caça. Um dia foi á caça a tanta distancia d'onde estava mãe, que avistou um palacio onde morava um gigante, que matava toda a gente. O principe tinha um cabello no peito que lhe dava sete voltas, e tinha sete forças de homem. O gigante assim que o lá viu disse-lhe se queria ir brigar com elle, julgando que elle era um simples homem com força egual aos mais, e que o poderia vencer. Depois de ir brigar com elle o principe tinha-o quasi morto e o gigante disse-lhe que o não acabasse de matar, e ensinou um alçapão por onde o havia de deitar. Elle deitou-o para lá, tapou o alçapão, e foi buscar a mãe e trouxe-a para aquelle palacio. Disse-lhe que lhe dava ordem de ir por todas as casas menos áquelle alçapão. A mãe um dia tirou-se dos seus cuidados e foi vêr o que estava no alçapão. Viu o gigante quasi morte e foi-lhe fazer um caldo e dar-lh'o. O gigante assim que bebeu o caldo saltou para cim. De dia estava fazendo vida com ella e quando vinha o principe ia para o alçapão. O gigante tractou de idear o modo de matar o filho. Disse para ella, que se fingisse doente e dissesse para elle que se não achava boa sem que fizesse uma fomentação com a banha esquerda de um porco espinho que havia na quinta do Rei Sabio, e elle como era muito amigo da mãe, promptificou-se a ir buscal-a. Mas era um porco espinho bravo que matava toda a gente. Quando ia para lá passou á porta do Rei Sabio. Estava uma filha do rei á janella, e disse ao pae que ia alli um cavalleiro n'um cavallo branco, que ia muito apressado. O pae disse-lhe que o mandasse subir. E o rei perguntou-lhe o que elle vinha fazer. O principe contou-lhe a sua vida. E o rei disse-lhe: «Bem sei, que andas illudido». Diz elle: «Não tem duvida, que é por a muita amizade que eu tenho a minha mãe.» E o rei disse-lhe: «Pois então vae» e deu-lhe uma espada ferrugenta e uma enchada. E disse-lhe que fizesse uma cova mesmo na cama do porco espinho e que mettesse o cavallo dentro da cova, e elle que se pozesse a cavallo. Quando o porco espinho viesse que se havia de deitar logo ao cavallo e elle que lhe espetasse a espada na cabeça. Elle assim fez. E depois abriu o porco espinho e tirou-lhe a banha esquerda e veiu-se embora com ella. Veiu pela porta do Rei Sabio e a fiiha disse ao pai que vinha alli o mesmo cavalleiro que tinha levado a enchada e a espada. O pae disse-lhe que o mandasse subir, e quando elle pousasse a banha do porco espinho na sala, que lh'a tirasse e pozesse uma outra de porco. Depois o principe veiu-se embora para o palacio, entregou a banha a mãe, e ella ficou muito contente, mas muito desconsolada de elle ainda não ter morrido. No outro dia o gigante tractou de idear outra cousa para vêr se o matava. Disse lhe que não se achava boa, sem que bebesse um copo de agoa de uma quinta que tinha o Rei Sabio, e elle foi e passou á porta do rei sabio e a filha foi dizer ao pae que vinha outra vez o cavalleiro do cavallo branco. O rei perguntou-lhe para onde elle ia; elle disse-lhe que ia buscar um copo de agoa para a mãe que estava muito doente. O rei disse-lhe que fosse, que havia de vêr dois tanques, um de agoa suja e outro da agoa limpa. Que não tirasse do mais limpo, mas tirasse do mais sujo; mas que se aviasse depressa porque o portão da quinta em dando meio dia fechava-se e quem lá estava já não sahia. Elle assim fez. Depois quando vinha para casa, passou á porta do Rei Sabio e a filha foi dizer ao pai que estava alli o cavalleiro do cavallo branco. O pae disse-lhe que o mandasse subir, — quando elle pousasse o copo de agoa na sala que lh'o trocasse, que tirasse aquelle e pozesse outro. Ella isso fez. O rei disse-lhe para elle, que bem sabia que elle andava illudido, e que se alguma vez se visse afflicto que dissesse á mãe, que o fizesse em quatro quartos e que o embrulhasse n'um lençol de linho e o pozesse em cima do cavallo, e que deitassem o cavallo ao destino. O principe chegou ao palacio, e o gigante como visse que elle ainda não tinha morrido, disse para ella que lhe dissesse a elle, que se não achava boa sem comer uma laranja da quinta do Rei Sabio. Elle quando ia para lá passou á porta do rei sabio; a filha disse ao pae, que ia ali passando o cavalleiro do cavallo branco. O pae disse-lhe que o mandasse subir. O rei perguntou-lhe aonde elle ia. E elle disse-lhe que ia buscar uma laranja, para a mãe que estava doente. E o rei disse-lhe que fosse, mas que havia de vêr uma larangeira carregada de laranjas muito maduras, e outra carregada de laranjas muito verdes, mas que não apanhasse das mais maduras, que apanhasse das mais verdes, e que se não demorasse porque em dando o meio dia se fechava o portão da quinta e quem lá estivesse já não sabia. O principe apanhou uma laranja das mais verdes, e quando vinha a sair fechou-se logo o portão nas costas d'elle. Quando voltava para o palacio tornou a passar por casa do Rei Sabio. E a filha estava á janella e disse ao pae que vinha lá o cavalleiro do cavallo branco. O pae mandou-o subir, e disse-lhe que quando elle pousasse a laranja na saleta que lh'a tirasse e que pozesse outra. Elle quando voltou para onde estava a mãe, a mãe e o gigante ficaram muito zangados de elle ainda não ter morrido, e disse o gigante que havia de arranjar immediatamente maneira de elle morrer. Disse á mãe que tractasse de arranjar modo de lhe cortar o cabello que elle tinha no peito. A mãe um dia disse-lhe para elle, que deitasse a cabeça no colo d'ella. E quando o apanhou a dormir foi com uma thesoura e cortou-lhe o cabello. Elle quando sentiu disse: «Ai minha mãe que me perdeu!» O gigante apenas ouviu isto saltou-lhe logo para cima, e disse para elle se queria ir brigar. Elle julgando ainda que tinha alguma força foi brigar com o gigante. Já o gigante o tinha quasi morto, pediu-lhe que o não acabasse de matar, que o fizesse em quatro quartos, que o embrulhasse n'um lençol de linho e o pozesse em cima do cavallo e assim fizeram. O cavallo como estava acostumado a ir para casa do Rei Sabio foi lá ter. A filha do rei, quando viu o cavallo e não o viu a elle, foi dizer ao pae muito admirada, que vinha lá o cavallo, mas que não vinha o cavalleiro. O pae disse-lhe: «Não tem duvida, manda lá dois criados, que tirem o que vém em cima do cavallo com muito geito.» Estenderam o lençol no meio da casa, uniram os quartos e untáram com a banha do porco espinho, e a laranja partiram-n'a ao meio e deram-lh'a a cheirar. Depois elle ficou vivo como era. Foi vivendo em casa do rei, e o cabello do peito foi crescendo. Quando elle já tinha seus voltas no cabello á roda do corpo, disse-lhe o rei: «Olha não sabes? tua mãe já tem uma filha do gigante.» E elle disse-lhe: «Eu vou lá». E o rei sabio disse-lhe: «Não porque ainda não tens as tuas forças todas.» Depois esperou que tivesse as sete forças. Foi a casa do gigante, foi ao pé da irmã e cortou-lhe a cabeça. E o Rei Sabio tinha dito que quando elle brigasse com o gigante lhe dissesse que o não acabava de matar sem que elle lhe désse os olhos do Rei Sabio que tinha cegado. Depois elle chegou ao pé da mãe e cortou-lhe a cabeça. E foi brigar com o gigante. Quando o tinha quasi morto disse para elle, que lhe havia por força de ir buscar os olhos do Rei Sabio que tinha cegado. O gigante conforme poude foi-lh'os buscar, e entregou-lh'os. Depois elle levou-os para o Rei Sabio e pozeram-lh'os na cara, e laváram com a agua que elle tinha trazido. Ficou o rei com vista. Depois elle foi ao palacio do gigante. Tirou tudo quanto lá estava, e levou-o para casa do Rei Sabio, e casou com a filha do rei, tendo muitos filhos e sendo muito feliz.

(Abrantes.)