Contos Populares Portuguezes/O principe das Palmas-verdes

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
O principe das Palmas-verdes


XLIV


O PRINCIPE DAS PALMAS-VERDES


Era uma vez uma rapariga muito pobre que um dia foi a uma horta roubar umas couves; viu lá um buraco e levada de curiosidade metteu-se por elle dentro e foi dar a uma casa onde estava o mesa posta. Comeu á larga e como o comer fosse bom, deixou-se lá ficar; á noite deitou-se, e depois de deitada veiu ter com ella uma pessoa que não viu.

Alli esteve bastante tempo, repetindo-se todas as noites o mesmo, e um dia disse á pessoa que dormia com ella que desejava ir aonde a mãe levar-lhe alguma coisa de comer. A pessoa disse-lhe que fosse e que voltasse, que bastava chegar á porta do palacio para ella se abrir. Foi ella, e tendo contado á mãe o que se passára, esta disse-lhe que voltasse e que para ver a pessoa que com ella dormia, petiscasse lume. Assim foi; mas quando ella petiscou o lume, a pessoa acordou e disse: «O diabo te leve, mais quem te deu o conselho que eu tinha o meu trienno[1] quasi acabado e tu viestel-o dobrar. Vae-te embora e leva o que trouxeste, com o filho que tens de mim e, se algum dia quizeres saber de mim, pergunta pela casa do principe das Palmas-verdes.»

Foi ella procurar os fatos ricos que encontrou no palacio, mas achou só os farrapinhos que levára; tendo vergonha de ir aonde a mãe com o filho ao collo, foi pelo mundo adeante pedindo esmola e perguntando pelo principe das Palmas-verdes. Chegada lá a uma terra, perguntou á Lua pela casa do principe das Palmas-verdes; mas ella respondeu-lhe que não sabia, que talvez o Sol que manda os seus raios mais longe o soubesse, e deu-lhe uma castanha que a quebrasse na maior afflicção que tivesse. Perguntou ao Sol e o Sol disse-lhe que não sabia, mas que perguntasse ao Vento, que esse se mettia por todas as bandas e lhe poderia dar noticias, e deu-lhe uma noz que a quebrasse na maior afflicção que tivesse. Perguntou ao Vento, que lhe respondeu: «Se eu o sei?! Ainda esta noite lhe bati á janella do quarto d'elle. Até elle se arrenegou bem commigo.» Ensinou-lhe o caminho e deu-lhe uma bolota que a quebrasse na maior afflicção que tivesse.

A mulher foi á terra do principe das Palmas-verdes e tendo lá chegado pediu uma esmola e perguntou a uma creada se o principe lá estava; a creada respondeu-lhe que elle tinha ido para a caça e que estava para casar, tendo a noiva já em casa. Emquanto a creada lhe foi buscar a esmola, quebrou ella a castanha: saiu-lhe uma roca d'oiro e uma estriga d'oiro; a creada chegou e viu aquella riqueza, foi aonde a ama e disse-lhe: «Oh senhora! sempre a pobre tem uma riqueza! ella está a fiar oiro, tem fuso, massaroca e roca tudo d'oiro». «Vae lá e diz-lhe se ella te quer vender isso». A pobre respondeu: «Eu não lhe vendo isto que lh'o dou se me deixar ir ficar no quarto do principe das Palmas-verdes». A dama ficou malcontente com isso e disse: «Não quero». «Minha senhora, deixe-a ir que eu dou uma bebida a beber ao principe que elle adormece e não dá fé que está a pobre no quarto». Assim fez. Á noite a creada deu uma bebida ao principe e logo que elle adormeceu levou a pobre e metteu-a no quarto. Esta pegou no filho e deitou-o ao pé do principe e toda a noite esteve dizendo:

«Principe das Palmas-verdes,
Não te lembres de mim;
Lembra-te de teu filho,
Que o tens ao pé de ti».

De manhã a creada foi buscar a pobre para fóra do quarto e levou-a para um curral. Á tarde a pobre estava muita afflicta e quebrou a noz que o Sol lhe déra e saiu-lhe uma dobadora, meada e novello, tudo d'oiro. A creada que isto viu foi-o dizer á dama que quiz comprar essa riqueza; mas a pobre disse como na vespera que lh'a dava se a deixassem ir ficar no quarto do principe das Palmas-verdes. Á noite a creada deu uma bebida ao principe e logo que elle adormeceu levou a pobre e metteu-a no quarto. Esta pegou no filho e deitou-o ao pé do principe e toda a noite estava dizendo:

«Principe das Palmas-verdes,
Não te lembres de mim;
Lembra-te de teu filho,
Que o tens ao pé de ti».

Ao outro dia a pobre, de cada vez mais afflicta, quebrou a bolota e sahiram-lhe uns parrecos d'oiro; e a creada foi-o dizer á dama e a pobre disse que os dava se a deixassem ir ficar no quarto do principe das Palmas-verdes. Ora um creado do principe, que dormia por baixo do quarto d'elle, contou-lhe que havia duas noites que ouvia uma voz no quarto d'elle dizer:

«Principe das Palmas-verdes;
Não te lembres de mim;
Lembra-te de teu filho,
Que o tens ao pé de ti».

O principe disse: «Eu não sei d'isso; a creada dá-me uma bebida para eu dormir bem, de modo que adormeço á noite e acordo só de manhã».

A creada á noite foi-lhe levar a bebida e o principe disse-lhe: «Dá-me cá um biscoito que me fica muito mao gosto com isto que me dás a beber». Emquanto ella foi buscar o biscoito, o principe deitou fóra a bebida para a creada julgar que ella a bebera.

Depois do principe estar na cama a creada fez entrar a pobre, que repetiu as palavras do costume, que o principe esteve a ouvir um bocado, e depois disse-lhe: «Então como foi isso? Tu como vieste aqui ter?» Ella contou-lhe tudo o que tinha passado e elle disse-lhe: «Despe-te e deita-te» e ao outro dia mandou-lhe fazer vestidos para ella e mandou embora a dama com quem estava para casar e casou com a pobre.

(Ourilhe).



  1. Triennio; o tempo pelo qual andava encantado o personagem que fallava.