Contos Populares Portuguezes/O senhor das janellas-verdes

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
O senhor das janellas-verdes


XLVIII


O SENHOR DAS JANELLAS-VERDES


Certo rei tinha uma filha que muito desejava ver casada; para esse fim tinha mandado vir ao palacio muitos principes para que a princeza escolhesse o que mais lhe agradasse; mas ella não se agradava de nenhum e dizia que só casaria com o senhor das Janellas-verdes, que tinha os cabellos e a barba d'ouro e os dentes de prata. Mandou o rei procurar por toda a parte o tal senhor, mas não foi possivel encontral-o.

Passaram-se annos e o rei sempre esperando pelo senhor das Janellas-verdes. Um dia que elle estava á janella do palacio viu passar uma carruagem com janellas verdes e cortinas da mesma cór e com dois lacaios tambem vestidos de verde. O rei mandou parar a carruagem para ver quem ia deutro, mas qual não foi a sua alegria quando viu dentro o senhor das barbas e cabellos d'ouro e dentes de prata! Chamou logo a princeza e perguntou-lhe se era aquelle o senhor das Janellas-verdes; ella disse que sim, mas logo se encheu d'uma tristeza que a todos causou admiração.

Então o senhor das janellas verdes disse: «Eu sei que ha muito me procuram para casar com esta princeza e por isso aqui estou e desejo que se faça o casamento o mais breve possivel.»

Fez-se logo o casamento e o senhor das Janellas-verdes partiu para as suas terras com a princeza. A carruagem em que iam parecia que voava, ora atravessando mattas, tapadas, ora passando por pontes e estradas e a princeza sempre triste. Chegados a uma floresta muito sombria levantou-se tal tempestade que os raios caíam em grande quantidade e parecia que saiam da terra lavaredas de fogo. A princeza toda assustada gritou com todas as forças: «Jesus, Jesus, valei-me, Jesus, valei-me.» E logo cessou a tempestade e ao mesmo tempo desappareceu a carruagem, os lacaios e o senhor das Janellas-verdes, porque elle era o demonio em pessoa, e logo que ouviu o nome de Jesus fugiu para as profundezas do inferno.

A princeza, ao ver-se só em tal descampado chamou por Nossa Senhora e prometteu-lhe que se alli fosse alguem que a salvasse havia de andar um anno sem dar uma só palavra. Foi sentar-se junto de uma arvore e logo viu chegar um principe que vinha caçar áquelles sitios, o qual assim que viu a princeza lhe perguntou:

«Quem vos deixou aqui só, sujeita ás tempestades, e sem receio que vos façam mal?»

A princeza não respondeu, pois começava a cumprir a promessa que fizera a Nossa Senhora. O principe fez-lhe varias perguntas e, como visse que não respondia, convenceu-se que ella era muda e levou-a para palacio.

Tractou o principe de ir indagar por varias terras se conheciam a princeza, mas não conseguiu saber nada. Assim se passou um anno e ao fim do anno o principe sentia grande paixão pela princeza, desprezando certa condessa com que tinha o casamento tractado.

Exactamente quando fazia um anno que a princeza viera para palacio, mandou o principe que a vestissem com os factos mais ricos que se podessem encontrar.

Depois d'ella assim vestida, veio vel-a a condessa a quem o ciume e a inveja consummiam e disse-lhe:

— «Olha a muda, mundona!
Que trage! que dona!»

Respondeu-lhe a princeza:

— «Olha a condessa, que inveja!
Que eu falle não deseja.»

Foi logo a rainha a correr participar ao principe, seu filho, que a menina tinha fallado. Então o principe pediu á princeza que lhe contasse a sua historia toda, o que ella logo fez. E o principe escreveu ao rei pae da princeza, participando-lhe como a encontrára e que ia casar com ella, pois a amava muito pela sua rara formusura. Casaram-se e viveram muito felizes e a condessa foi posta fóra do palacio.

(Coimbra.)