Contos Populares do Brazil/A Raposinha

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Contos Populares do Brazil
coletados por Sílvio Romero
A Raposinha

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A Raposinha


(Sergipe)


Foi um dia, sahiu um principe a correr terras atraz de arranjar um remedio para seu pai que estava cego. Depois de muito andar, o principe passou por uma cidade e viu uns homens estarem dando de cacete n'um defunto. Chegou perto e perguntou porque faziam aquillo. Responderam-lhe que aquelle homem tinha-lhes ficado a dever, e que por isso estava apanhando, depois de morto, segundo o costume da terra. O principe, que ouvia isto, pegou e pagou todas as dividas do defunto e o mandou enterrar. Seguiu sua viagem. Adiante encontrou uma raposinha, que lhe disse: «Aonde vai, meu principe honrado?» O moço respondeu: «Ando caçando uma mésinha para meu pai que ficou cego.» A raposinha então lhe disse: «Para isto só ha agora um remedio, que é botar nos olhos do rei um pouquinho de sujidade de um papagaio do reino dos papagaios. Meu principe, vá ao reino dos papagaios, entre, á meia noite, no logar onde elles estão, deixe os papagaios bonitos e falladores que estão em gaiolas muito ricas, e pegue n'um papagaio triste e velho que está lá n'um canto, n'uma gaiola de pau, velha e feia. » O principe seguiu. Quando chegou no reino dos papagaios, ficou esbabacado de vêr tantas e tão ricas gaiolas de diamantes, de ouro e de prata; nem procurou o papagaio velho e sujo que estava lá n'um canto; agarrou na gaiola mais bonita que viu, e partiu para traz. Quando ia sahindo o papagaio deu um grito, acordaram os guardas, e o perseguiram, até pegal-o. «O que queres com este papagaio?! Has de morrer,» disseram os guardas. O principe, com muito medo, lhes contou a historia de seu pai; então elles disseram: «Pois bem; só te damos o papapaio se tu fores ao reino das espadas, e trouxeres de lá uma espada.» O moço, muito triste, aceitou e partiu. Chegando adiante lhe appareceu a mesma raposinha, e lhe disse: «Então, meu principe honrado, o que tem, que vai tão triste?» O moço lhe contou o que lhe tinha acontecido; e a raposa respondeu: «Eu não lhe disse!? Você para que foi pegar n'um papagaio bonito, deixando o velho e feio? Apois bem; vá ao reino das espadas; entre á meia noite. Você lá ha de vêr muitas espadas de todas as qualidades, de ouro, de brilhante e de prata, não pegue em nenhuma. Lá n'um canto tem uma espada velha e enferrujada; pegue n'essa.» O moço seguiu. Quando chegou ao reino das espadas, ficou esbabacado, vendo tantas espadas e tão ricas. De teimoso, disse: «Ora tanta espada rica, e eu hei de pegar n'uma ferrugenta!» Pegou logo na mais bonita que viu. Quando ia sahindo, a espada deu um trinco tão forte que os guardas acordaram, pegaram o moço e o quizeram levar ao rei. 0 principe contou então a sua historia, e os guardas, com pena, disseram: «Nós só lhe damos uma espada se você fôr ao reino dos cavallos e trouxer de lá um cavallo.» O moço seguiu muito desapontado. Adiante n'uma encruzilhada encontrou a raposinha: «Aonde vai, meu principe honrado?» O moço contou tudo. «Ah! eu não lhe disse!? Para que não seguiu o meu conselho? Vá no reino dos cavallos, e entre á meia noite. Você lá ha de encontrar muitos cavallos gordos e de todas as côres, todos apparelhados, não pegue em nenhum. Lá n'um canto está um cavallo velho e feio, pegue n'esse.» O moço seguiu. Quando entrou no reino dos cavallos cahiu-lhe o queixo no chão: «Ora tantos cavallos bonitos, e eu hei de ficar com um diabo velho e magro!» E pegou n'um dos mais gordos e lindos. O cavallo deu um rincho tão grande que os guardas acordaram e prenderam o principe. Elle, com muito susto, contou toda a sua historia. Os guardas responderam: «Apois sim; nós lhe damos um cavallo se você fôr furtar a filha do rei.» Ahi o moço disse: «Então me dêem um cavallo para ir montado.» Elles concederam. O moço seguiu; quando ia adiante, lhe appareceu outra vez a raposinha: «Onde vai, meu principe honrado?» Elle contou tudo. A raposa disse: «Pois veja: eu sou a alma d'aquelle homem que estava apanhando de cacete depois de morto e de que você pagou as dividas; ando-lhe protegendo, mas você não quer fazer caso dos meus conselhos, e, por isso, tem andado sempre em perigo… Vá montado n'este cavallo; chegue á meia noite no palacio do rei, pegue a moça e bote na garupa, largue a redea a toda a brida; passe pelo reino dos cavallos para lhe darem o seu, pelo das espadas para lhe darem a sua, e pelo dos papagaios para levar tambem o seu, e vá voando para casa de seu pai, que elle vai mal. Nunca entre por varedas, nem preste ouvidos a ninguem até á casa. Adeus, que é esta a ultima vez que lhe appareço.»

O principe partiu. Chegando no palacio, furtou a moça; chegando no reino dos cavallos, recebeu o seu; no das espadas, a sua, e no dos papagaios, o seu. Seguiu sempre na carreira. Adiante encontrou uns moços que andavam à sua procura, e eram seus irmãos que vinham buscar novas d'elle. Os irmãos, quando o viram com objectos tão ricos, ficaram com inveja e formaram o plano de o matar para roubal-o. — Começaram a convencel-o de que deviam deixar a estrada real e seguir por uns atalhos para os ladrões não lhe fazerem mal vendo-o com aquellas cousas tão bellas e ricas. Elle cahiu na esparrella, e os irmãos o tiraram de dentro de uma gruta no matto onde elle tinha ido beber agua. Tomaram-lhe a moça, o cavallo, a espada e o papagaio. Largaram-se para a casa muito alegres, pensando que o irmão estava morto. Mas tudo aquillo chegando a palacio, entrou a marear-se, e a ficar estragado. A moça não quiz mais comer nem fallar; metteu a cabeça debaixo da aza e não quiz mais fallar; a espada ficou enferrujada, e o cavallo começou a emmagrecer. Quando o moço estava quasi a morrer na furna, appareceu a raposinha, que o tirou para fóra, e o botou outra vez no caminho. Elle seguiu e chegou até ao palacio de seu pai. Quando já ia chegando a espada deu um trinco, e começou logo a brilhar, o papagaio voou e foi cahir-lhe no hombro, a moça deu uma gargalhada e fallou, e o cavallo engordou de repente. O principe entrou e foi logo botando um pouco de sujidade do papagaio nos olhos do pai, que ficou logo vendo, e muito alegre. O principe se casou com a princeza que tinha furtado, e os seus irmãos foram castigados por causa de sua falsidade.