Contos Populares do Brazil/Maria Borralheira

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Contos Populares do Brazil
coletados por Sílvio Romero
Maria Borralheira

XV


Maria Borralheira


(Sergipe)


Havia um homem viuvo que tinha uma filha chamada Maria; a menina, quando ia para a escola, passava por casa de uma viuva, que tinha duas filhas. A viuva costumava sempre chamar a pequena e agradal-a muito. Depois de algum tempo começou a lhe dizer que fallasse e rogasse a seu pai para casar com ella. A menina pegou e fallou ao pai para casar com a viuva, porque «ella era muito boa e agradavel.»

O pai respondeu: «Minha filha, ella hoje te dá papinhas; ámanhã te dará de fel.» Mas a menina sempre vinha com os mesmos pedidos, até que o pai contractou o casamento com a viuva. Nos primeiros tempos ainda ella agradava á pequena, e, ao depois, começou a maltratal-a.

Tudo o que havia de mais aborrecido e trabalhoso no tracto da casa era a orphã que fazia. Depois de mocinha era ella que ia á fonte buscar agua, e ao matto buscar lenha; era quem accendia o fogo, e vivia muito suja no borralho. D'ahi lhe veio o nome de Maria Borralheira. Uma vez para judial-a a madrasta lhe deu uma tarefa muito grande de algodão para fiar e lhe disse que n'aquelle dia devia ficar prompta. Maria tinha uma vaquinha, que sua mãe lhe tinha deixado; vendo-se assim tão atarefada, correu e foi ter com a vaquinha e lhe contou, chorando, os seus trabalhos.

A vaquinha lhe disse: «Não tem nada; traga o algodão que eu engulo, e quando botar fora é fiado e prompto em novellos.» Assim foi. Em quanto a vaquinha engulia o algodão, Maria estava brincando. Quando foi de tarde, a vaquinha deitou para fóra aquella porção de novellos tão alvos e bonitos!… Maria, muito contente, botou-os no cesto e levou-os para casa. A madrasta ficou muito admirada, e no dia seguinte lhe deu uma tarefa ainda maior. Maria foi ter com a sua vaquinha, e ella fez o mesmo que da outra vez. No outro dia a madrasta deu á mocinha uma grande tarefa de renda para fazer; a vaquinha, como sempre, foi que a salvou, engolindo as linhas e botando para fóra a renda prompta e muito alva e bonita. A madrasta ainda mais admirada ficou.

D'outra vez mandou ella buscar um cesto cheio d'agua. Maria Borralheira sahiu muito triste para a fonte, e foi ter com a vaquinha que lhe encheu o cesto, que ella levou para casa. D'ahi por diante a madrasta de Maria começou a desconfiar, e mandou as suas duas filhas espiarem a moça. Ellas descobriram que era a vaquinha que fazia tudo para a Borralheira. D'ahi a tempos a mulher se fingiu pejada e com antôjos e desejou comer a vaquinha de Maria. O marido não quiz consentir; mas por fim teve de ceder á vontade da mulher que era uma tarasca desesperada.

Maria Borralheira foi e contou á vacca o que ia acontecer; ella disse que não tivesse medo, que, quando fosse o dia de a matarem, Maria se offerecesse para ir lavar o fato; que dentro d'elle havia de encontrar uma varinha, que lhe havia de dar tudo o que ella pedisse; e que depois de lavado o fato, largasse a gamella pela corrente abaixo e a fosse acompanhando; que mais adiante havia de encontrar um velhinho muito chagado e com fome; lavasse-lhe as feridas e a roupa, e lhe désse de comer, que mais adiante havia de encontrar uma casinha com uns gatos e cachorrinhos muito magros e com fome, e a casinha muito suja, varesse o cisco e désse de comer aos bichos, e depois de tudo isso voltasse para casa. Assim mesmo foi.

No dia que a madrasta de Maria quiz que se matasse a vaquinha, a moça se offereceu para ir lavar o fato no rio. A madrasta lhe disse com desprezo: «Ô chente! quem havia de ir se não tu, porca?» Morta a vacca, a Borralheira seguiu com o fato para o rio; lá achou nas tripas a varinha de condão, e guardou-a. Depois de lavado o fato botou-o na gamella e largou-a pela correnteza abaixo, e a foi acompanhando. Adiante encontrou um velhinho muito chagado e morto de fome e sujo. Lavou-lhe as feridas, e a roupa, e deu-lhe de comer. Este velhinho era Nosso Senhor. Seguiu com a gamella. Mais adiante encontrou uma casinha muito suja e desarrumada, e com os cachorros e gatos e gallinhas muito magros e mortos de fome. Maria Borralheira deu de comer aos bichos, varreu a casa, arrumou todos os trastes e escondeu-se atraz da porta. D'ahi a pouco chegaram as donas da casa, que eram tres velhas tatas.[1]

Quando viram aquelle beneficio, a mais moça disse: «Manas, faiemos; faiemos, manas: permitta a Deus que quem tanto bem nos fez lhe appareçam uns chapins de ouro nos pés.» A do meio disse: «Manas, faiemos, manas; permitta a Deus que quem tanto bem nos fez lhe nasça uma estrella de ouro na testa.». A mais velha disse: «Faiemos, manas: permitta a Deus que quem tanto bem nos fez, quando fallar lhe sáiam faiscas de ouro da bocca.» Maria, que estava atraz da porta, appareceu já toda formosa com os chapins de ouro nos pés, e estrella de ouro na testa, e quando fallava sahiam-lhe da bocca faiscas de ouro. Amarrou um lenço na cabeça, fingindo doença, para esconder a estrella, e tirou os chapins dos pés, e foi-se embora para casa. Quando lá chegou, entregou o fato e foi para o seu borralho. Passados alguns dias, as filhas da madrasta lhe viram a estrella e perceberam as faiscas de ouro que lhe sahiam da bocca, e foram contar á mãi. Ella ficou com muita inveja, e disse ás filhas que indagassem da Borralheira o que é que se devia fazer para se ficar assim.

Ellas perguntaram e Maria disse: «É muito facil; vocês peçam para irem tambem uma vez lavar o fato de uma vacca no rio; depois de lavado botem a gamella com elle pela correnteza abaixo e vão acompanhando; quando encontrarem um velhinho muito feridento, mettam-lhe o páo, e dêem muito; mais adiante, quando encontrarem uma casa com uns cachorros e gatos muito magros, emporcalhem a casa, desarrumem tudo, dêem nos bichos todos, e escondam-se atraz da porta, e deixem estar que, quando vocês sahirem, hão de vir com chapins e estrellas de ouro.» Assim foi.

As moças contaram á mãe, e ella lhes deu um fato para irem lavar no rio. As moças fizeram tudo como Maria Borralheira lhes tinha ensinado. Deram muito no velhinho, emporcalharam a casa e deram muito nos bichos das velhas, e se esconderam atraz da porta. Quando as donas da casa chegaram e viram aquelle destroço, a mais moça disse: «Manas, faiemos, manas: permitta a Deus que quem tanto mal nos fez lhe appareçam cascos de cavallo nos pés.» A do meio disse: «Permitta Deus que quem tanto mal nos fez lhe nasça um rabo de cavallo na testa.» A terceira disse: «Permitta Deus que quem tanto mal nos fez, quando fallar lhe saia porqueira de cavallo pela bocca.» As duas moças, quando sahiram de detraz da porta já vinham preparadas com seus enfeites. Quando fallaram ainda mais sujaram a casa das velhinhas. Largaram-se para casa, e quando a mãi as viu ficou muito triste. — Passou-se. Quando foi depois, houve tres dias de festa na cidade, e todos de casa iam á igreja, menos a Borralheira que ficava na cinza. Mas, depois de todos sahirem, ella logo no primeiro dia pegou na sua varinha de condão e disse: «Minha varinha de condão, pelo condão que Deus vos deu, dai-me um vestido da côr do campo com todas as suas flôres.» De repente appareceu o vestido. Maria pediu tambem uma linda carruagem. Apromptou-se e seguiu. Quando entrou na igreja, todos ficaram pasmados, e sem saber quem seria aquella moça tão bonita e tão rica. Ahi uma das filhas da madrasta disse á mãi: «Olhe, minha mãi, parecia Maria.» A mãi botou-lhe o lenço na bocca por causa da sujidade que estava sahindo, mandando que ella se calasse, que as visinhas já estavam percerbendo. Acabada a festa, quando chegaram em casa, Maria já estava lá valha,[2] mettida no borralho. A mãi lhes disse: «Olhem, minhas filhas, aquella porca alli está, não era ella, não; onde ia ella achar uma roupa tão rica?» No outro dia foram todas para a festa e Maria ficou; mas quando todas se ausentaram, ella pegou na varinha de condão e disse: «Minha varinha de condão, pelo condão que Deus vos deu, dai-me um vestido de côr do mar com todos os seus peixes, e uma carruagem ainda mais rica e bella, que a primeira.» Appareceu logo tudo, e ella se apromptou e seguiu. Quando lá chegou, o povo ficou esbabacado por tão linda e rica moça, e o filho do rei ficou morto por ella. Botou-se cerco para a pegar na volta, e nada de a poderem pegar. Quando as outras pessoas chegaram em casa, Maria já lá estava mettida no seu borralho. Ahi uma das moças lhe disse: «Hoje vi uma moça na igreja que se parecia comtigo, Maria!» Ella respondeu : «Eu!… quem sou eu para ir á festa?… Uma pobre cozinheira!» No terceiro dia, a mesma cousa; Maria então pediu um vestido da côr do céo com todas as suas estrellas, e uma carruagem ainda mais rica. Assim foi, e apresentou-se na festa. Na volta o rei tinha mandado pôr um cerco muito apertado para agarral-a; porém ella escapoliu, e na carreira lhe cahiu um chapim do pé, que o principe apanhou. Depois o rei mandou correr toda a cidade para vêr se achava-se a dona d'aquelle chapim, e o outro seu companheiro. Experimentou-se o chapim nos pés de todas as moças e nada. Afinal só faltavam ir á casa de Maria Borralheira. Lá foram. A dona da casa apresentou as filhas que tinha; ellas, com seus cascos de cavallo, quasi machucaram o chapim todo, e os guardas gritaram: «Virgem Nossa Senhora! Deixem, deixem!…» Perguntaram si não havia alli mais ninguem. A dona da casa respondeu: «Não, ahi tem sómente uma pobre cozinheira, porca, que não vale a pena mandar chamar.» Os encarregados da ordem do rei respondem que a ordem era para todas as moças sem excepção e chamaram pela Borralheira. Ella veio lá de dentro toda prompta como no ultimo dia da festa; vinha encantando tudo; foi mettendo o pésinho no chapim e mostrando o outro. Houve muita alegria e festas; a madrasta teve um ataque e cahiu para traz, e Maria foi para palacio e casou com o filho do rei.




  1. Gagas, tartamudas.
  2. Já estava ha muito.