Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A carpinteirasinha

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
23. A carpinteirasinha



23. A CARPINTEIRASINHA

Tres irmãs viviam do seu trabalho. Estando ellas um dia questionando qual era a mais habilidosa, diz a mais velha:

— Eu tenho habilidade de fazer uma camisa da pelle de casca de ovo para o rei.

— E eu atrevia-me a fazer-lhe umas calças de uma casca de amendoa verde.

Disse a terceira:

— E eu atrevia-me a ter trez filhos do rei sem elle o saber.

Deu-se o caso do rei ter passado por ali na occasião d’ésta conversa, e logo pediu licença para entrar. Disse que tinha ouvido isto assim e assim, e que ordenava que ellas lhe mostrassem as suas habilidades.

A mais nova respondeu-lhe que isso dependia de tempo emquanto á sua parte, e o rei partiu dizendo-lhe que não deixasse perder a occasião. As duas irmãs ficaram penalisadas com a aposta da mais nova, mas trataram de desempenhar-se da sua promessa. Soube a mais nova que o rei sahia da côrte e ia estar um anno em Bule; pediu então dinheiro emprestado ás irmãs, comprou ricos vestidos, e apresentou-se em Bule sem que o rei a conhecesse. Ao fim de nove mezes teve ella um menino. Ao fim de um anno o rei disse que ia até Toledo, e que quando voltasse casaria com ella, e deu-lhe muitas joias e dinheiro á despedida. Foi o rei para Toledo e quando lá chegou, já lá estava a rapariga com outros trajos, com outra physionomia, e o rei tornou-se a apaixonar por ella, dizendo que ella era superior a tudo quanto tinha visto. Ao fim de nove mezes teve outra criança. Acabado o anno, foi o rei para Sevilha, e lá lhe tornou a apparecer a rapariga tão bem arranjada que lhe pareceu a melhor mulher que havia n’aquella terra. Teve então um terceiro menino. Não quiz o rei ao voltar para a côrte passar por Bule, nem por Toledo, porque promettêra casamento ás outras duas; quando entrou na côrte já lá estava a Carpinteirasinha e as irmãs, pasmadas com as riquezas que trazia. Ella fartou-se de esperar a visita do rei, que não se fiava na aposta; passado tempo o rei estava para casar com uma princeza, e no dia da boda a Carpinteirasinha mandou á côrte os seus trez filhos vestidinhos com todas as joias que o rei lhe tinha dado. Disse-lhes que beijassem a mão do rei e ficassem calados, e só quando o rei lhes perguntasse o que queriam dissessem:

Bule, Toledo, Sevilha, andae;

Vimos vêr o casamento d’el-rei meu pae.

Assim fizeram os meninos; o rei comprehendeu logo tudo, lembrou-se da aposta e mandou vir a Carpinteirasinha, com quem casou da melhor vontade.

(Algarve.)

Notas[editar]

23. A Carpinteirasinha. — Este titulo não tem sentido ignorando-se a significação primitiva de carpinteiro; carpenta é o carro gaulez, usado pelas antigas mulheres da Ausonia, como descreve Ovídio (Fastos, I-IV, 819.) Florus cita um carpentum de prata do rei Brituitus. A locução portugueza bicho de carpinteiro) designa a pessoa que não está quieta em um logar. Evidentemente o nome de Carpinteirasinha deriva-se da sua mobilidade com que figura no conto. A fórma seguinte é uma variante.