Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A mulher curiosa

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
63. A mulher curiosa



63. A MULHER CURIOSA

Havia n'uma terra uma mulher muito curiosa; não se passava cousa na rua de que não désse fé. A qualquer hora da noite estava sempre por detraz da gelosia a espreitar e a escutar o que ia. Uma noite estava ella já deitada, quando ouviu passos pela rua; a curiosidade fel-a saltar fóra da cama, e mesmo em camisa foi pôr-se ao postigo. Era uma procissão que passava, e de que ella nunca ouvira fallar. A procissão era muito comprida, e o que mais a fazia pasmar é que ninguem fazia barulho, nem se ouviam as passadas d'aquelle tropel de gente. A mulher estava pasmada; eis senão quando passa um homem que ella conhecia. Era o seu compadre, que havia já tempo que morrera. Para certificar-se da sua curiosidade usou de uma aramanha:

— Oh meu compadre! disse ella quando o vulto passou rente ao postigo; você empresta-me a sua tocha para accender a candeia que se me apagou?

O vulto deu-lhe a tocha e foi andando; acabada a procissão, a mulher foi para a cama, e não podia dormir; quando alvoreceu, e se levantou, é que notou que o quarto estava allumiado com uma luz accesa. Vae para certificar-se, era o braço de um defunto. A mulher ficou trespassada de mêdo, e foi confessar o caso a um padre.

— É castigo da curiosidade; agora é esperar que a procissão torne a passar d'aqui a oito dias, para entregar ao seu compadre o braço do defunto.

Chegado o dia, a mulher curiosa poz-se ao postigo, e das duas para as trez horas da madrugada passou a procissão dos defuntos do mesmo feitio, sem fazer barulho.

Quando ella viu aproximar-se o vulto do compadre, estendeu o braço e entregou-lh'o. A procissão desappareceu ao cabo da rua, e quando amanheceu foram dar com a mulher morta debruçada ao postigo. Todos os que a conheciam disseram pela mesma bocca: — Foi castigo, foi castigo.

(Algarve.)





Notas[editar]

63. A mulher curiosa. — Acha-se nos Contos populares da Gram Bretanha, trad. de Brueyre, p. 273.