Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A raposa e o lobo

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
246. A raposa e o lobo



246. A RAPOSA E O LOBO

A raposa e o lobo mataram dois carneiros e fugiram. Depois que se acharam seguros, deitaram-se a comer, mas só poderam comer um, e o outro ficou inteiro. Diz a raposa:

— Compadre, é melhor enterrarmos este carneiro, e vimos cá amanhã comel-o juntos.

Vae o lobo e diz-lhe:

— Mas nem eu nem tu temos faro, como é que o havemos tornar a achar?

— Deixa-se-lhe o rabo de fóra.

Assim se fez. No dia seguinte apresenta-se o lobo e diz:

— Comadre, vamos comer o carneiro?

— Hoje não posso, tenho de ir ser madrinha de um cachorrinho.

O lobo fiou-se, mas a raposa foi ao lugar onde estava enterrado o carneiro e comeu um grande pedaço. No outro dia torna o lobo a perguntar-lhe:

— Que nome puzeste ao teu afilhado?

— Comecei-te.

Responde o lobo:

— Que nome! vamos comer ambos o carneiro?

— Ai compadre (diz-lhe a raposa), hoje tambem não pode ser; estou convidada para ir ser madrinha.

O lobo fiou-se; a raposa tornou a ir comer sósinha. Ao outro dia vem o lobo:

— Que nome déste ao teu afilhado?

— Meêi-te.

— Que nome! (replica o lobo) Vamos comer o carneiro?

A raposa tornou a escusar-se com outro baptisado, e foi acabar de comer o carneiro. O lobo vem:

— Como se chama o teu afilhado?

— Acabei-te.

— Vamos comer o carneiro?

Foram e chegaram ao sitio; assim que viram o rabo, disse a raposa:

— Pucha, com força, compadre.

O lobo puchou, e caiu de pernas para o ár; a raposa safou-se.

(Airão.)


Notas[editar]

246. A raposa e o lobo. — Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, trad. de Brueyre, p. 362 (vid. nota 1, p. 364 e 365). A fabula dos Highlanders versa sobre uma panella de manteiga; é popular na Noruega, como se vê pela collecção de Absjörnsen, A Raposa e o Urso.