Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Não escapa de ladrão

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Manuel da Costa
178. Não escapa de ladrão



178. NÃO ESCAPA DE LADRÃO
QUEM SE PAGA PELA SUA MÃO

A um cego, d'esses que pedem por portas, deram uma vez em certa parte um cacho de uvas por esmola; e como se guarda mal cevadeira de pobres, o que se póde pisar, tratou de o assegurar logo repartindo egualmente com o seu moço que o guiava; e para isso concertou com elle, que o comessem bago e bago, alternadamente; e depois de quatro idas e venidas, o cego para experimentar se o moço lhe guardava fidelidade, picou os bagos a pares; o moço vendo que seu amo falhava no contracto, calou-se e deu-lhe os cábes a ternos. Não lhe esperou muito o cego e ao terceiro invite descarregou-lhe o bordão na cabeça. Gritou o rapaz:

— Porque me dais?

Respondeu o amo:

— Porque contratando nós, que comessemos egualmente estas uvas bago e bago, tu comes a trez e a quatro.

Perguntou-lhe então o moço:

— E quem vos diz a vós, que eu fiz tal aleivosia?

— Isso está claro (respondeu o cego), porque faltando-te eu primeiro no contracto comendo a pares, tu te calaste, sem me requereres tua justiça; e não eras tu tão santo, que me levasses em conta nem em silencio a minha sem razão, senão pagando-te em dobro pela calada.

(Padre Vieira, Arte de Furtar, p. 33.)